Leitos vazios na saúde de Campo Grande, mas falta de recursos impede uso

A saúde pública de Campo Grande enfrenta um paradoxo alarmante: leitos hospitalares estão disponíveis, mas a falta de recursos financeiros impede sua utilização. Essa realidade foi exposta em uma audiência pública promovida pela Câmara Municipal, que reuniu representantes do poder público, entidades de saúde e usuários para debater a crise assistencial que assola a capital.

A discussão abordou as responsabilidades pela situação, o colapso dos serviços e a urgência de medidas extraordinárias, incluindo a possibilidade de intervenção estadual ou federal. O Fórum das Entidades Representativas dos Usuários de Saúde, por meio de Sebastião Arinos Junior, destacou que há leitos ociosos, como os 30 vagos no Hospital Universitário, além de unidades no Hospital de Câncer e no Hospital do Pênfigo, que poderiam ser contratualizados se houvesse verba para tal.

A crise se agrava com deficiências na atenção primária e a necessidade de maior investimento por parte do Estado. O Conselho Municipal de Saúde (CMS), a pedido do Ministério Público Estadual (MPE), estabeleceu um prazo para melhorias, com o assunto a ser reavaliado em maio, considerando a recente posse do novo secretário de Saúde, Marcelo Vilela. Conforme o presidente do CMS, Jader Vasconcelos, o ano passado foi o mais difícil em 14 anos de atuação na prefeitura, com falta do básico, como medicamentos e insumos, levando servidores a arcarem com custos de itens como papel higiênico e material de limpeza.

Estrutura hospitalar e desafios financeiros

O superintendente do Ministério da Saúde em Mato Grosso do Sul, Ronaldo Costa, apresentou dados do terceiro quadrimestre de 2025, indicando repasses federais de R$ 763 milhões e estaduais de R$ 278 milhões, mas ressaltando a falta de visibilidade sobre os recursos empenhados pelo município. A estrutura da rede hospitalar de Campo Grande foi detalhada na audiência, com a participação de diretores do Hospital Regional e da Santa Casa.

Paulo Eduardo Limberger, diretor do Hospital Regional, esclareceu que a unidade continua recebendo pacientes de urgência e emergência, enfatizando a importância da regulação, um princípio do SUS. Já a Santa Casa de Campo Grande enfrenta dificuldades há dois anos sem revisão contratual, conforme informou João Carlos Marchezan, diretor de negócios e relações institucionais. Ele relembrou a intervenção de 2005, quando a dívida saltou de R$ 37 milhões para R$ 160 milhões, alertando para a necessidade de cautela e responsabilidade em futuras intervenções.

Propostas e depoimentos de pacientes

Diante do cenário, a vereadora Luiza Ribeiro propôs a criação de um **pacto institucional** para agilizar a municipalização do SUS e melhorar o atendimento à população. Ela ressaltou a grave crise estrutural e assistencial, marcada por denúncias recorrentes e a necessidade de cooperação entre os entes federativos. Pacientes também compartilharam suas experiências, como a jornalista Ana Rita Amarilia, diabética, que relatou a falta de medicamentos e seringas nos postos de saúde, tornando o acesso ao tratamento um desafio diário.

Gestão e o futuro do SUS em Campo Grande

Ronaldo Costa informou que ainda há R$ 1,3 bilhão do orçamento da saúde a serem repassados para o período de 2025 a 2026. O secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, reforçou que o SUS é tripartite e que nenhum ente sozinho resolverá os problemas. Ele reconheceu as dificuldades de 2025, mas vê o momento como uma transição e reorganização administrativa, uma oportunidade para rediscussão e transparência. Necessidades urgentes incluem a garantia de medicação funcional e previsível, fluxo de ambulâncias e regulação de leitos.

Sobre a intervenção, Vilela considera-a um instrumento excepcional, sendo fundamental fortalecer o plano de ação pactuado previamente. Ele propõe um pacto institucional com o objetivo de melhorar a gestão para todos, reconhecendo que não há soluções simples, mas um caminho possível. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a audiência foi motivada pelo colapso assistencial, com superlotação em UPAs, escassez de medicamentos, paralisação na atenção primária, fragilização da RAPS e falhas na regulação de leitos. Relatórios do CMS apontam irregularidades estruturais e riscos à segurança de usuários e trabalhadores, e o MPE instaurou procedimentos para apurar as falhas na prestação de serviços.