Juros altos: 80% das indústrias travadas para conseguir crédito

A maior parte das empresas industriais brasileiras, cerca de 80%, enfrenta dificuldades significativas para obter crédito, tanto de curto quanto de médio e longo prazo. O principal vilão apontado pelos empresários é a taxa de juros elevada, que torna o acesso ao financiamento proibitivo e desestimula investimentos essenciais para o crescimento e a inovação do setor. Este cenário sombrio foi detalhado em uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (19) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com o apoio da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE).

A Sondagem Especial: Condições de Acesso ao Crédito em 2025, realizada pela CNI, entrevistou 1.789 empresas industriais entre 1º e 12 de agosto do ano passado. Os resultados são um retrato preocupante da realidade financeira enfrentada pelos empreendedores brasileiros, que lutam contra um ambiente econômico desafiador. A pesquisa detalha os entraves que impedem as empresas de acessarem os recursos necessários para suas operações e expansão.

Entre os empresários que relataram problemas para conseguir crédito de curto ou médio prazo (até 5 anos), impressionantes 80% citaram os juros altos como o maior impeditivo. Em seguida, a exigência de garantias reais, como imóveis ou máquinas, foi mencionada por 32% dos entrevistados, e a falta de linhas de crédito adequadas às necessidades específicas das empresas apareceu com 17%. Essa combinação de fatores cria um cenário de escassez de capital para o setor produtivo.

Juros altos dominam dificuldades de crédito

O cenário de juros elevados como principal obstáculo se repete e se agrava quando se trata de crédito de longo prazo, acima de 5 anos. Neste segmento, 71% dos industriais atribuíram suas dificuldades aos juros altos. A exigência de garantias foi citada por 31%, e a ausência de linhas de crédito compatíveis com seus projetos de investimento por 17%. Esses dados reforçam a percepção de que o custo do dinheiro no Brasil está em um patamar insustentável para a maioria das indústrias.

Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI, explicou que a atual política monetária é bastante restritiva. “Com a Selic em 15% ao ano e juros reais em torno de 10%, o financiamento fica mais caro e desestimula investimentos em expansão e inovação”, afirmou. Essa política, embora visando o controle da inflação, tem um impacto direto e negativo sobre a capacidade de investimento das empresas, freando o desenvolvimento econômico do país.

Selic alta reduz busca por crédito

O alto custo do crédito, impulsionado pela taxa Selic, também levou a uma menor procura por financiamentos. Conforme a pesquisa, 54% das empresas não buscaram crédito de longo prazo nos seis meses anteriores à sondagem. No crédito de curto ou médio prazo, 49% das empresas também não procuraram por financiamento no mesmo período. Apenas 26% das empresas conseguiram contratar ou renovar crédito de curto prazo, e no longo prazo, esse percentual caiu para apenas 17%.

A dificuldade em obter crédito de longo prazo é ainda mais acentuada. Quase um terço das empresas que tentaram esse tipo de financiamento não teve sucesso. No crédito de curto ou médio prazo, cerca de 20% das que buscaram também não conseguiram os recursos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a situação varia conforme o porte da empresa, mas a dificuldade é generalizada.

Condições de crédito pioram para a indústria

Em relação às condições de crédito, a percepção majoritária é de piora. Cerca de 35% das empresas avaliaram que as condições de crédito de curto ou médio prazo pioraram nos últimos tempos. Para o crédito de longo prazo, 33% compartilham dessa mesma avaliação. Apenas 14% relataram melhora no curto ou médio prazo, e no longo prazo, esse índice cai para 12%. Para 47% das empresas, as condições permaneceram semelhantes, indicando uma estagnação preocupante.

A pesquisa também destacou a baixa adesão a modalidades como o risco sacado, uma forma de antecipação de recebíveis. Apenas 13% das indústrias contrataram operações de risco sacado nos últimos 12 meses. Outros 5% pretendiam contratar, mas 54% não contrataram nem pretendiam. O risco sacado é uma modalidade de antecipação de recebíveis em que o fornecedor recebe o pagamento antecipado de uma instituição financeira, enquanto o comprador assume o compromisso de quitar o valor na data acordada. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa ferramenta, que poderia aliviar o fluxo de caixa, tem baixa penetração.

A dificuldade em acessar crédito afeta empresas de todos os portes. Para o crédito de curto ou médio prazo, 26% das médias empresas não obtiveram o financiamento, enquanto 21% das pequenas e 16% das grandes enfrentaram o mesmo problema. No crédito de longo prazo, as médias empresas lideram as dificuldades com 43% sem sucesso, seguidas pelas pequenas com 37% e as grandes com 27%. A análise detalhada por porte, conforme o Campo Grande NEWS apurou, mostra que, embora as médias empresas sofram proporcionalmente mais no longo prazo, o problema é um entrave generalizado para toda a indústria nacional, comprometendo a capacidade de investimento e a geração de empregos.