A tranquilidade parece ter se tornado um luxo distante para os moradores do Bairro Iracy Coelho, na região sul de Campo Grande. Cansados do constante barulho de motocicletas com escapamentos adulterados, gritaria em frente a tabacarias e até episódios de violência, a comunidade se uniu para buscar uma solução. Um abaixo-assinado com cerca de 150 assinaturas já foi organizado e as queixas serão levadas ao Ministério Público, além de cobranças à prefeitura sobre alvarás de funcionamento de estabelecimentos que funcionam até altas horas da madrugada. A situação, segundo relatos, piorou drasticamente com a abertura recente de uma conveniência na área, que se tornou um ponto de encontro para aglomerações barulhentas e perturbadoras.
Moradores sofrem com barulho e falta de sossego
A rotina no Iracy Coelho tornou-se um verdadeiro desafio para quem preza pelo descanso e pela paz. O motorista carreteiro Sidney de Andrade, de 56 anos, descreve um cenário insustentável. “Tenho uma mãe de 76 anos, um filho com deficiência e um vizinho com transtorno bipolar. A gente não consegue mais descansar”, relata, evidenciando o impacto direto na saúde e bem-estar de pessoas vulneráveis.
Segundo ele, o problema se estende por praticamente todos os dias da semana. O som de motos “cortando giro”, música alta e o consumo de bebidas alcoólicas em frente às residências se tornaram a trilha sonora diária. “Tem gente usando a frente das residências para fazer necessidades. É uma bagunça generalizada, com muita bebedeira”, desabafa, descrevendo a falta de respeito e a degradação do espaço público.
A preocupação de Sidney se intensifica com a presença de menores consumindo álcool. “Meu filho tem microcefalia, uma deficiência neurológica. Ele não dorme direito, fica muito nervoso. Minha mãe também não descansa. Quem não dorme bem não vive bem. Nossa vida social praticamente acabou”, lamenta, exemplificando como a perturbação afeta a dinâmica familiar.
A lei do silêncio desrespeitada
André Luiz, presidente da associação de moradores, aponta o desrespeito à lei do silêncio como o cerne da questão. “A nossa maior dificuldade aqui no bairro tem sido a falta de respeito por parte de alguns estabelecimentos”, afirma. Ele destaca que existem dois pontos críticos na região, com aglomerações que chegam a centenas de jovens por volta da meia-noite, especialmente na Rua Santa Quitéria.
A Polícia Militar é acionada com frequência para conter o barulho e os conflitos. Uma reunião da associação de bairro, com cerca de 150 participantes, já ocorreu para discutir o problema. Agora, a comunidade busca formalizar suas queixas através do abaixo-assinado e da atuação do Ministério Público. Os moradores também exigem explicações da Secretaria Municipal sobre os alvarás de funcionamento dos estabelecimentos durante o período noturno. “Não somos contra os comerciantes, mas queremos o direito ao sossego”, pontua.
Impacto na saúde e na rotina
A secretária Ana Paula Rocha, de 51 anos, é mais uma vítima da perturbação do sono. “É som alto, motos, carros… está insuportável. Estou há quatro dias de atestado porque não consigo dormir”, relata. Ela tentou dialogar com o proprietário de um dos estabelecimentos, mas sem sucesso. “Ele diz que não tem culpa, mas o comércio é dele e fica praticamente na porta da minha casa”, afirma, demonstrando a frustração com a falta de solução.
A aposentada Vilania Soares, de 65 anos, precisou mudar sua rotina para fugir do caos. “Minha vida virou um inferno. Não fico mais em casa aos fins de semana, não tem condições”, conta. Ela descreve a cena de frequentadores estacionando em frente à sua residência com som alto, transformando a rua em um “salão de baile”. “Param no meu portão, abrem o vidro e colocam o som no último volume, como se fosse um salão de baile. É uma falta de respeito”, lamenta.
Vilania confessa que passou a depender de medicação para conseguir dormir e que a ansiedade a consome. “Fico ansiosa, só de chegar a sexta-feira já começo a passar mal”, relata. O aumento do fluxo de pessoas e do barulho, especialmente após a abertura da nova conveniência, intensificou os transtornos.
Cobrança por providências
O Campo Grande NEWS tentou contato com a Semades (Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável) para obter um posicionamento sobre as reclamações dos moradores e aguarda retorno. A comunidade espera que as autoridades tomem providências para garantir o direito ao sossego e à segurança no Bairro Iracy Coelho, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS em reportagens anteriores sobre a região.
A busca por tranquilidade no Iracy Coelho se tornou uma luta diária. Os moradores, unidos, esperam que suas vozes sejam ouvidas e que medidas eficazes sejam implementadas para devolver a paz ao bairro. A atuação do Ministério Público e a fiscalização dos alvarás de funcionamento são vistas como passos cruciais para reverter o quadro de perturbação, como também já foi noticiado pelo Campo Grande NEWS.

