A Polícia Civil de Campo Grande investiga uma série de homicídios ocorridos no último fim de semana, mas enfrenta obstáculos significativos para desvendar os crimes. A falta de testemunhas dispostas a colaborar e a escassez de vestígios deixados pelos criminosos são os principais entraves, segundo o delegado Caio Macedo, da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). A corporação descarta, por ora, qualquer ligação entre os cinco assassinatos, classificando-os como uma coincidência temporal de motivações distintas.
O medo de retaliação é um fator crucial que inibe a colaboração de possíveis testemunhas. Em crimes de execução, onde os autores agem rapidamente, se aproximando da vítima em motocicletas, disparando e fugindo em seguida, o relato de quem presenciou a ação poderia ser decisivo. Contudo, a população local, especialmente em áreas periféricas, teme represálias, dificultando o trabalho investigativo. A precariedade de câmeras de monitoramento nessas regiões agrava ainda mais a situação, limitando as fontes de prova.
A dinâmica de alguns dos crimes, como o uso de motocicletas para aproximação e fuga, pode sugerir semelhanças, mas a polícia ressalta que essa é uma prática comum em execuções e não indica, por si só, uma conexão entre os casos. O uso de motos facilita o deslocamento rápido e a evasão, além de permitir a passagem por locais de difícil acesso. A dificuldade em identificar os veículos, devido à possibilidade de placas escondidas ou adulteradas, e a circulação de motos sem registro formal, as chamadas “motos BOB”, também complicam o rastreamento dos suspeitos.
O delegado Caio Macedo explicou que a metodologia da Polícia Civil é tratar cada homicídio como um fato independente inicialmente. Essa abordagem visa evitar conclusões precipitadas e garantir uma apuração técnica baseada em evidências concretas. Somente após a coleta e análise de provas que apontem para elementos em comum, como envolvimento nas mesmas disputas, vínculos entre vítimas ou circunstâncias semelhantes, as linhas de investigação podem ser ajustadas para investigar uma possível conexão.
Desafios na coleta de evidências
Um dos maiores desafios apontados pelo delegado é a falta de câmeras de segurança em muitas áreas periféricas de Campo Grande. Essa carência de monitoramento limita a capacidade de registrar os momentos dos crimes e identificar os autores. A ausência de imagens dificulta a reconstituição dos fatos e a obtenção de provas visuais que possam corroborar depoimentos ou indicar suspeitos.
O medo de retaliação, conforme destacado por Macedo, é outro obstáculo significativo. Muitas pessoas que presenciam crimes desse tipo preferem não se manifestar por receio de represálias por parte dos criminosos. Esse silêncio imposto pelo medo impede que a polícia obtenha informações valiosas que poderiam levar à elucidação dos casos. A falta de testemunhas oculares dificulta a criação de um quadro completo dos acontecimentos.
A velocidade com que os crimes de execução são cometidos, durando apenas segundos, também reduz drasticamente as evidências disponíveis. Os criminosos agem de forma rápida e eficiente, minimizando as chances de serem vistos ou de deixarem vestígios que possam ser rastreados. A circulação rápida de armas no meio criminal, com a possibilidade de serem repassadas logo após o crime, dificulta ainda mais a ligação entre o objeto utilizado e o autor do delito.
Motivações diversas e ausência de padrão
Apesar de algumas semelhanças na dinâmica dos crimes, como o uso de motocicletas, a Polícia Civil descarta, neste momento, a existência de uma ligação entre os homicídios ocorridos no último fim de semana em Campo Grande. As investigações preliminares indicam que as motivações são distintas e variadas, incluindo disputas por tráfico de drogas, acertos de contas por dívidas ou desentendimentos no meio criminal, e até mesmo conflitos pessoais.
O histórico das vítimas, que em alguns casos apresentam passagens pela polícia por delitos como tráfico, roubo, furto e porte ilegal de arma, é um dos fatores analisados. No entanto, essa informação, por si só, não define uma conexão entre os crimes. A análise mais aprofundada leva em conta o contexto específico de cada caso, os vínculos pessoais e as circunstâncias que levaram à morte.
Essa diversidade de contextos e motivações reforça a avaliação da polícia de que não há uma ação coordenada ou um único grupo atuando de forma sistemática. Acreditam que os crimes ocorreram em um curto intervalo de tempo, mas têm origens separadas e independentes. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa falta de um padrão único dificulta a criação de estratégias de prevenção mais direcionadas, já que cada caso exige uma abordagem investigativa específica.
Casos registrados no fim de semana
No sábado (13), Claudemar Ferreira Alves, de 36 anos, foi morto na praça Lucas de Andrade Cardoso. Mais tarde, Guilherme Soares Gomes Oliveira, conhecido como “Garrafinha”, foi assassinado em frente a um bar no Jardim Leblon, por um atirador que usava capacete.
A madrugada de domingo (14) registrou dois homicídios: Renato Bravo da Cruz, de 40 anos, foi morto após um desentendimento no trânsito, e Renan Rodrigues Vaz, de 30 anos, foi agredido na casa onde morava no Jardim Presidente. Já na madrugada de segunda-feira (15), Alessandro Souza Grefe, de 28 anos, foi encontrado morto em um terreno baldio no Jardim das Macaúbas. O suspeito neste último caso seria o ex-enteado da vítima, um adolescente de 15 anos.
Apesar da aparente coincidência temporal, a Polícia Civil, conforme reportado pelo Campo Grande NEWS, mantém a posição de que não há indicativos de uma série articulada de execuções. As investigações prosseguem de forma independente para cada caso, buscando reunir elementos que possam, eventualmente, conectar alguns dos homicídios, mas, por enquanto, a avaliação é de ocorrências distintas. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando os desdobramentos destas investigações.

