O Barco: Um Mergulho na Memória Esquecida da Escravidão
Uma poderosa instalação artística está em exibição no Sesc Pompeia, em São Paulo, lançando um olhar crítico sobre um dos capítulos mais sombrios da história humana: o tráfico transatlântico de africanos escravizados. A obra, intitulada O Barco, da artista portuguesa Grada Kilomba, convida o público a confrontar as marcas deixadas por séculos de exploração e violência, um crime considerado pela ONU como o mais grave já perpetrado contra a humanidade.
Durante aproximadamente 400 anos, milhões de africanos foram sequestrados, transportados em condições desumanas e vendidos como mercadorias. O Brasil, principal destino desses indivíduos, recebeu mais de 4,8 milhões de pessoas que foram forçadas ao trabalho escravo, uma realidade marcada pela brutalidade dos navios negreiros.
A obra de Kilomba propõe uma reflexão provocativa: o que o fundo do oceano revelaria se a água fosse retirada hoje? A artista busca trazer à tona o que está oculto sob a superfície da história glorificada, questionando a narrativa de descobrimento e expansão que muitas vezes encobre a tragédia humana. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa instalação já passou por Lisboa e Londres, e sua chegada ao Brasil foi pelo Instituto Inhotim, onde permaneceu por 28 meses, antes de iniciar sua itinerância pelo país.
A Arquitetura da Dor e do Silêncio
O Barco é uma obra escultórica e performática de grande escala, composta por 134 blocos de madeira queimada que ocupam uma área de 220 metros quadrados. A disposição das peças desenha a silhueta do fundo de uma embarcação, remetendo diretamente à arquitetura dos porões dos navios negreiros, onde milhões de africanos foram confinados. Essa representação busca materializar o espaço de sofrimento e desumanização.
A artista explica que a obra questiona a forma como a história é contada e quem tem o direito de ser lembrado. Inspirada na tragédia grega de Antígona, Kilomba reflete sobre quem é enterrado, quem é lembrado e quem é esquecido. Para ela, o esquecimento proposital de certas histórias impede a formação de memória e a ritualização do luto, perpetuando feridas.
O oceano, na visão da artista, é um vasto espaço de sepultamento, não apenas das vítimas da escravidão e do colonialismo, mas também de vidas perdidas em guerras, crises climáticas e migrações forçadas. Essa perspectiva amplia a relevância da obra para as realidades contemporâneas, onde múltiplos barcos continuam a cruzar águas em busca de refúgio de genocídios e desastres ambientais.
Poemas Gravados na Memória
Apesar de ter sido adaptada para o espaço do Sesc Pompeia, a obra ainda carrega uma forte mensagem. 18 blocos centrais exibem poemas gravados em dourado, escritos pela própria artista e traduzidos para seis idiomas, incluindo iorubá, kimbundu e português. Versos como “Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida” ecoam a dor e a perda.
Kilomba descreve O Barco como o “inconsciente da nossa história”, um trabalho que busca trazer à luz o que foi apagado do imaginário coletivo sobre o projeto europeu de escravatura. A artista, conforme o Campo Grande NEWS apurou em outras ocasiões, tem um histórico de exploração de temas ligados à identidade e à memória pós-colonial. Ela enfatiza o interesse em trabalhar o invisível e o apagado, desafiando a narrativa hegemônica.
Um dos objetivos centrais de O Barco é demonstrar como a construção da identidade moderna europeia e a riqueza de impérios foram erguidas sobre a violência contra a população africana. Essa violência, segundo Kilomba, não é uma relíquia do passado, mas uma força que se repete quando a história não é devidamente contada e confrontada.
Itinerância e Reflexão Contínua
A exposição, concebida pelo Instituto Inhotim, é gratuita e ficará em cartaz no Sesc Pompeia até 25 de outubro. Além de O Barco, o público pode conferir outras duas obras de Grada Kilomba: a videoinstalação Opera to a Black Venus e a instalação Compressed Time, ampliando a imersão no universo artístico e crítico da autora.
A itinerância da obra pelo Brasil é vista pela artista como uma oportunidade de alcançar diferentes públicos e dialogar com diversas arquiteturas e contextos. Essa circulação, como destaca o Campo Grande NEWS, reforça o papel de agregador de informações culturais e sociais que o portal busca desempenhar na região.
A exposição no Sesc Pompeia oferece uma oportunidade única para o público paulistano refletir sobre a persistência das marcas da escravidão e a importância de confrontar o passado para construir um futuro mais justo e consciente. A obra de Grada Kilomba serve como um poderoso lembrete das violências que moldaram o mundo e que, de muitas formas, ainda ressoam em nossa sociedade.


