HPV causa 7,5 mil mortes anuais; 85% das vítimas são mulheres

Cânceres causados pelo HPV resultam em cerca de 7,5 mil mortes e 29 mil hospitalizações por ano no Brasil. A maior parte dos afetados, 85%, são mulheres. A boa notícia é que a maioria desses casos é considerada prevenível, seja pela identificação e tratamento de lesões precursoras, seja pela vacinação contra o vírus. Os dados são de um estudo publicado na revista científica Human Vaccines & Immunotherapeutics, que analisou informações oficiais do Ministério da Saúde entre 2011 e 2019, antes do impacto da pandemia de COVID-19.

HPV: um alerta sobre diversos tipos de câncer

A diretora executiva de Pesquisa de Dados de Mundo Real da farmacêutica MSD, Cintia Parellada, destaca que o HPV está associado a diversos tipos de câncer, e não apenas ao de colo do útero. Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores analisaram ocorrências e estimaram quantas foram causadas pelo vírus, com base em dados consolidados pela literatura médica. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o foco excessivo no câncer de colo do útero pode gerar uma falsa percepção de que apenas as mulheres precisam se preocupar com a vacinação.

O HPV é responsável por oito tipos de cânceres que atingem tanto homens quanto mulheres: colo do útero, vagina, vulva, ânus, pênis, além dos cânceres de cabeça e pescoço, que afetam orofaringe, laringe e cavidade oral. Essa informação é crucial para entender a abrangência do vírus e a necessidade de prevenção em ambos os sexos. A detecção de lesões precursoras é fundamental para o tratamento antes que o câncer se desenvolva, mas para alguns tipos, como os de cabeça e pescoço, a vacinação é a única forma de prevenção.

O câncer anal, por exemplo, apresentou um aumento significativo nas ocorrências, com 3,1% nas hospitalizações e 10,9% na mortalidade. Homens que fazem sexo com homens e pessoas com o sistema imunológico comprometido são grupos especialmente vulneráveis a esse tipo de câncer. Cintia Parellada também ressalta que os cânceres de cabeça e pescoço acometem quatro vezes mais homens do que mulheres, tornando a vacinação uma medida preventiva essencial para eles também.

Tendências preocupantes e a importância do Papanicolau

O estudo aponta uma tendência preocupante em relação ao câncer de colo do útero. Após uma queda nas hospitalizações entre 2011 e 2016, houve um crescimento de 3,9% entre 2016 e 2019. A mortalidade seguiu o mesmo padrão, com queda inicial e posterior alta de 1,5% no segundo período. A análise etária também revela que, enquanto outros tipos de câncer relacionados ao HPV aparecem mais tarde, a partir dos 40 ou 50 anos, as hospitalizações por câncer de colo do útero já são expressivas a partir dos 30 anos.

A idade média das pacientes com câncer de colo do útero diagnosticadas é de 47 anos, dez anos a menos que em outros tipos de câncer relacionados ao HPV. A idade média de óbito também é menor, 56 anos. Cintia Parellada reforça que o câncer de colo do útero é o que mais mata mulheres em idade reprodutiva, e que apenas 40% delas realizam o Papanicolau periodicamente, resultando em diagnósticos de tumores já invasivos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o exame preventivo, conhecido como Papanicolau, é vital para detectar o HPV ou lesões precursoras, permitindo tratamento e evitando o desenvolvimento do câncer.

Novas diretrizes e a meta de eliminação do câncer de colo do útero

Em 2023, o Ministério da Saúde atualizou as diretrizes para o exame de rastreamento, recomendando o teste DNA-HPV oncogênico para todas as mulheres e pessoas com útero entre 25 e 64 anos. Este exame identifica não apenas a presença do vírus, mas também seu tipo, focando nos com potencial cancerígeno. Se o resultado for negativo, o exame só precisa ser repetido a cada cinco anos. Em caso positivo, a paciente é encaminhada para exames adicionais e tratamento.

As autoridades de saúde acreditam que, com rastreamento organizado, tratamento oportuno e alta cobertura vacinal, o câncer de colo do útero pode ser eliminado em 20 anos. Cintia Parellada enfatiza que, apesar dos quadros graves, este é um câncer com grande oportunidade de prevenção, já que o desenvolvimento de lesões precursoras e do próprio câncer leva anos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a vacinação precoce é fundamental, pois a eficácia é maior antes do início da vida sexual.

Vacinação contra HPV: quem deve se vacinar e a importância da cobertura

A vacina contra o HPV foi incorporada ao SUS em 2014 e já demonstra resultados na redução da incidência de câncer e lesões precursoras. No entanto, o Inca projeta um aumento de 14% nos casos de câncer de colo do útero entre 2026 e 2028. A vacina é recomendada para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, com maior eficácia antes da vida sexual. O Ministério da Saúde está com campanha de resgate vacinal para jovens de até 19 anos que não foram vacinados na idade correta.

Grupos como pessoas imunodeprimidas, vítimas de abuso sexual, pacientes com papilomatose respiratória recorrente, usuários de PrEP e pacientes com lesões pré-cancerosas de alto grau também devem receber a vacina. Para outros públicos, a vacina está disponível em clínicas privadas. A prevenção através da vacinação e do rastreamento regular são as chaves para combater o HPV e seus impactos devastadores na saúde pública.