Futebol de MS: Talento existe, mas falta estrutura para formar craques
O zagueiro Arthur Dias, de apenas 19 anos, convocado para a Seleção Brasileira, é a prova viva de que Mato Grosso do Sul ainda revela talentos excepcionais. No entanto, sua trajetória, iniciada em bairros periféricos de Campo Grande e concluída com a formação em um clube de fora do estado, acende um alerta: o futebol sul-mato-grossense tem grande potencial, mas falha em reter e desenvolver seus próprios craques. A questão não é a ausência de crianças jogando bola, mas a falta de uma ponte sólida entre o amadorismo e o profissionalismo.
O passado glorioso do futebol de Mato Grosso do Sul, marcado por feitos como o terceiro lugar do Operário no Campeonato Brasileiro de 1977 e o apelo do estádio Morenã ao receber grandes públicos e craques, parece cada vez mais distante. Conforme o Campo Grande NEWS checou, os clubes estaduais perderam relevância nacional, os campeonatos encolheram e as arquibancadas se esvaziaram. O cenário atual é de dificuldades financeiras, mas, principalmente, de ausência de planejamento, profissionalismo e de uma base estruturada para formar novas gerações de jogadores.
A ascensão de Arthur Dias, que saiu de Campo Grande aos 15 anos para se desenvolver no Athletico-PR, deveria servir de reflexão. Quantos outros jovens com o mesmo potencial se perdem pelo caminho por falta de estrutura adequada, como alimentação, transporte e acompanhamento técnico de qualidade? O talento brota nos campinhos de terra e nos projetos sociais, mas sem uma estrutura que o capte e o nutra, ele se dissipa. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, o Estado se orgulha de revelar jogadores, mas quem colhe os frutos e os direitos econômicos são os clubes de outros estados, que investem na formação e colhem os resultados.
O Morenã: Símbolo de um passado glorioso e de um presente desafiador
O icônico Morenã, palco de momentos memoráveis do futebol sul-mato-grossense, exemplifica essa dicotomia. Após anos de abandono e deterioração, o estádio passa por um processo de recuperação orçado em R$ 17,8 milhões. As obras, que visam adequações estruturais, elétricas, hidráulicas, de acessibilidade e segurança, são fundamentais e deveriam ter sido realizadas há muito tempo. A recuperação do espaço físico é um passo necessário, mas não garante, por si só, o renascimento do futebol local.
É compreensível e até desejável que o Morenã se torne um espaço multiuso, capaz de gerar receita com shows e outros eventos. Estádios modernos precisam ser rentáveis e utilizados ao longo do ano. Contudo, o perigo reside em transformar o futebol em um visitante dentro de sua própria casa. A reforma do local, por si só, não forma atletas nem reconquista torcedores. Sem equipes competitivas, um calendário robusto e um trabalho consistente de base, o gigante adormecido do Morenã continuará à espera de jogos que talvez não venham.
A urgência de um programa de formação de atletas
A reconstrução do futebol em Mato Grosso do Sul passa, obrigatoriamente, pelas crianças e adolescentes. É preciso um esforço conjunto entre governo, prefeituras, federação, clubes, escolas e iniciativa privada para criar um programa permanente de formação. Isso implica a realização contínua de campeonatos nas categorias sub-13, sub-15, sub-17 e sub-20, a criação de centros regionais de treinamento, a capacitação de treinadores e a garantia de condições básicas como transporte e alimentação.
O investimento público, conforme o Campo Grande NEWS analisou, deve ser pautado por regras claras, metas definidas e total transparência. Clubes que receberem recursos públicos precisam comprovar a manutenção de suas categorias de base, apresentar prestações de contas detalhadas e demonstrar o número de jovens atendidos. O modelo de contratos curtos, que apenas prolongam a sobrevivência de equipes profissionais sem deixar um legado esportivo ou social, precisa ser extinto.
Investir na base: o caminho para um futuro promissor
Além de fortalecer o futebol masculino, é crucial abrir espaço para o futebol feminino, organizar competições escolares e, fundamentalmente, aproximar os clubes das comunidades. A reconquista das arquibancadas passa pela restauração do vínculo entre os times e a população. A história de Arthur Dias, que saiu do Bairro Santa Luzia e chegou à Seleção Brasileira, demonstra que o talento pode florescer em qualquer lugar. No entanto, depender unicamente do sacrifício familiar e da sorte de ser descoberto não constitui uma política esportiva eficaz.
Mato Grosso do Sul não pode se perpetuar vivendo apenas das glórias passadas, como as do Operário de 1977 ou as memórias de um Morenã lotado. O passado merece respeito, mas não joga bola. Para retornar ao cenário nacional, o estado precisa abandonar o improviso e investir massivamente na base. O próximo craque sul-mato-grossense pode estar jogando descalço em algum bairro de Campo Grande, e a pergunta que fica é: haverá uma estrutura preparada para encontrá-lo antes que o descaso o faça desistir?

