Fundação de Cultura gasta R$ 4,5 milhões em eventos religiosos

A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) destinou uma quantia expressiva de cerca de R$ 4,5 milhões em cachês artísticos para eventos religiosos em 2024. Deste montante, R$ 2,2 milhões foram alocados especificamente para a realização da Marcha para Jesus em 15 municípios do estado. Em Campo Grande, a cantora Maria Marçal foi contratada por R$ 254 mil para uma apresentação de 1 hora e 20 minutos. A concentração desses recursos em eventos religiosos tem levantado críticas de representantes do setor cultural, que pedem uma distribuição mais equitativa entre os diversos segmentos artísticos do estado. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, os gastos com a Marcha para Jesus dobraram em menos de dois meses, evidenciando um aumento significativo nos investimentos em eventos dessa natureza.

Críticas à Concentração de Recursos

A coordenadora do Fórum Estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul, Romilda Neto Pizani, expressou preocupação com a forma como os recursos públicos estão sendo investidos. Ela defende que, embora toda manifestação cultural seja importante, é fundamental que haja uma **melhor distribuição dos recursos públicos**. “Não é o mesmo gasto com o restante dos segmentos culturais. Precisamos que a democracia se faça valer, que os recursos sejam disseminados para outros artistas, que sejam melhor administrados e distribuídos”, afirmou Pizani.

Segundo ela, a escassez de políticas públicas estaduais com recursos disponíveis e a dificuldade de acesso aos editais existentes contribuem para essa concentração. Romilda Neto Pizani ressalta que, atualmente, a maioria dos recursos destinados à classe artística de Mato Grosso do Sul provém do governo federal, o que demonstra a necessidade de uma reavaliação nas prioridades estaduais. A falta de clareza e agilidade nos processos, como o atraso na publicação do edital do FIC, também são pontos de crítica.

Detalhes dos Investimentos Religiosos

Os números divulgados pelo Campo Grande NEWS revelam que, ao longo do ano, 17 atrações foram contratadas para a Marcha para Jesus em 15 cidades, totalizando R$ 2.214.000,00. Este valor representa um **aumento expressivo** em relação a levantamentos anteriores, dobrando em menos de dois meses, o que demonstra uma aceleração nos repasses para este evento. Quatro eventos programados para agosto em Campo Grande, Nova Andradina, Aquidauana e Coronel Sapucaia somam R$ 784.000,00 em cachês.

Em Campo Grande, as três primeiras atrações confirmadas para a Marcha para Jesus – a cantora mirim Maria Marçal, a banda Get Worship e o cantor John Dias – custarão R$ 454 mil aos cofres públicos. Maria Marçal, com um cachê de R$ 254 mil, apresentará um show de 1h20. Get Worship receberá R$ 150 mil pela mesma duração de apresentação, e John Dias, pastor e cantor gospel, terá seu cachê fixado em R$ 50 mil. Esses valores destacam a magnitude dos investimentos em artistas de renome para esses eventos.

Eventos Católicos e Distribuição de Valores

Os cachês destinados a eventos católicos, embora também significativos, diferem em valor e volume das contratações para a Marcha para Jesus. Geralmente, são valores menores e mais frequentes, voltados para animação de festas juninas, julinas, comemorações de paróquias e festas de padroeiros. Exemplos incluem o pagamento de R$ 7 mil para o cantor Daran Junior na Festa Julina da Nossa Senhora da Conceição e R$ 15 mil para o grupo Eco do Pantanal em uma festa junina no Carandá Bosque. O maior investimento em evento católico registrado foi de R$ 155 mil para o show do cantor gospel Thiago Brado na celebração de Corpus Christi. Há ainda previsão de mais investimentos em artistas gospel para a Jornada Diocesana da Juventude em sete cidades.

A comparação desses gastos com o potencial de outros eventos culturais é notória. Conforme o Campo Grande NEWS checou, somente com o valor investido em eventos religiosos, a Fundação de Cultura poderia ter garantido **10 shows do cantor João Gomes**, que se apresentou no MS ao Vivo por R$ 450 mil, reunindo um público de 50 mil pessoas. Esta comparação evidencia a disparidade na aplicação dos recursos e reforça o pedido por uma **gestão mais democrática e abrangente** dos fundos culturais.

O Campo Grande NEWS buscou contato com a Fundação de Cultura para obter um posicionamento oficial sobre os investimentos em eventos religiosos, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestações da entidade. A apuração detalhada do Campo Grande NEWS sobre os gastos públicos reforça a importância da transparência e do debate sobre a **priorização de investimentos na cultura** do estado, garantindo que todos os segmentos artísticos recebam o apoio necessário para seu desenvolvimento e difusão.