Fliaraxá celebra Milton Santos e coloca a literatura no centro do mundo

A 14ª edição do Fliaraxá, o Festival Literário Internacional de Araxá, em Minas Gerais, abre suas portas nesta quinta-feira (14) com um tema potente e uma homenagem que ecoa pelo Brasil: “Meu lugar no mundo”. O evento, que se estende até domingo (17), dedica sua programação ao centenário de Milton Santos, um dos maiores nomes da geografia brasileira e mundial. A obra e o pensamento do geógrafo, que nos instigam a refletir sobre o nosso lugar no universo, são o fio condutor para discussões sobre identidade, pertencimento e as múltiplas formas de enxergar o mundo, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.

O festival parte de uma célebre frase de Milton Santos: “Ninguém pensa o mundo a partir do mundo. Cada um de nós, ao contemplar o universo, o faz a partir de um dado lugar”. Essa premissa fundamental convida a explorar não apenas o espaço físico, mas também o universo de ideias, sentimentos e histórias que moldam a nossa percepção. A curadoria, assinada por Sergio Abranches, Afonso Borges, Rafael Nolli e Carlos Vinícius, promete uma imersão profunda nesses conceitos, conectando-os intrinsecamente com a literatura e a capacidade humana de imaginar e construir novos mundos.

O legado de Milton Santos e a literatura como ponte

Nina Santos, neta do geógrafo, destaca a importância da obra de seu avô em inspirar a criação de “novos imaginários e novas perspectivas de mundo”. Ela ressalta que, em meio a uma leitura crítica da realidade, Milton Santos nos encoraja a conceber uma globalização sob outros parâmetros e a vislumbrar “outros mundos possíveis”. Essa visão se estende para o campo da ficção e da literatura, onde a imaginação ganha asas.

“O mundo é composto não apenas pelo que existe, mas também pelo que pode existir”, pontua Nina Santos, ecoando o pensamento de seu avô. Para ela, esse convite à imaginação e à transformação dialoga diretamente com a literatura. Não se trata apenas de ficção, mas da nossa capacidade de interpretar, reinterpretar e construir novos mundos como cidadãos. “Acho que as duas coisas estão intimamente ligadas”, afirma, evidenciando a sinergia entre o pensamento geográfico e a expressão literária, uma conexão que o Fliaraxá se propõe a explorar em profundidade, como também observado em análises do Campo Grande NEWS.

Um geógrafo com a alma de poeta e escritor

Um dos grandes nomes homenageados no Fliaraxá é o escritor angolano José Eduardo Agualusa. Autor de obras aclamadas como “O Vendedor de Passados” e “A Teoria Geral do Esquecimento”, Agualusa lança no festival seu novo livro, “Tudo sobre Deus”. A obra narra a jornada de um geólogo que também é poeta, e que, confrontado com a iminência da morte, busca reflexão e isolamento no sul de Angola. O livro, que mescla prosa e poemas, representa um desafio pessoal e artístico para o autor, que o descreve como “o meu livro mais poético”.

Agualusa compartilha que sua relação com o Brasil se aprofunda a cada visita e a cada convite para festivais literários, que ele considera “uma alegria”. Para o escritor, o intercâmbio com leitores é fundamental, pois “os livros só começam a existir a partir do momento em que são lidos”. Ele acredita que os festivais têm um papel crucial no desenvolvimento da formação de leitores no país, e que a conversa com o público enriquece o processo criativo. “Para um escritor, a possibilidade de conversar com os leitores é um aprendizado”, declara.

A universalidade que nasce do local

Nas obras de Agualusa, temas como memória e identidade são recorrentes, refletindo sua perspectiva como escritor angolano. Ele defende a ideia de que, ao partir do local, é possível alcançar a universalidade, tocando em questões que ressoam em “todos os homens”. Essa capacidade de se colocar “na pele do outro”, característica da “grande literatura”, permite a identificação com universos culturais distintos, mesmo sem vivenciá-los diretamente. “Não acho que existe uma escrita local, exclusivamente local”, argumenta.

O escritor também celebra a genialidade de João Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”, destacando a “invenção literária” que cria um universo linguístico e narrativo crível e imersivo. Para Agualusa, a obra de Rosa não busca reproduzir a linguagem coloquial, mas sim oferecer um “tratamento literário” que inventa um novo mundo. Essa maestria, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, é um dos pilares da literatura que busca a universalidade através da profundidade local.

Fliaraxá: um palco para novas vozes e reflexões

Além das homenagens, o Fliaraxá conta com a participação de renomados autores como Alexandre Coimbra Amaral, Bianca Santana, Djonga, Geni Núñez, Gustavo Ziller, Leila Ferreira e Marcelino Freire. O festival também promove ações educativas, incluindo prêmios de redação e desenho para estudantes e uma exposição fotográfica com o tema “Meu lugar no mundo”, incentivando a expressão artística e a reflexão sobre o tema central do evento. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a iniciativa busca engajar a comunidade e proporcionar uma experiência cultural rica e diversificada.

A trajetória de Milton Santos, que viveu em diversos países e cidades, moldou sua percepção sobre a importância do “lugar” na construção do conhecimento e na forma de olhar o mundo. “Todo mundo pode olhar o mundo”, afirma Nina Santos, ecoando o convite do geógrafo à democratização do saber e da perspectiva. O Fliaraxá, ao colocar a literatura e o pensamento de Milton Santos no centro de suas discussões, reafirma seu compromisso em ser um espaço de encontro, reflexão e celebração das infinitas formas de se pensar e sentir o nosso lugar no mundo, uma visão que o Campo Grande NEWS considera essencial para o cenário cultural.