Fim da escala 6×1 pode disparar custos no comércio de shoppings em até 20%

O fim da escala 6×1, aprovada pela Câmara dos Deputados em maio, acende um alerta entre os comerciantes de Campo Grande, especialmente aqueles localizados em shoppings centers. A mudança, que ainda aguarda análise do Senado, pode impactar significativamente a operação e os custos desses estabelecimentos, segundo avalia a CDL-CG (Câmara dos Dirigentes Lojistas).

Comércio de shoppings teme aumento de custos com fim da escala 6×1

A rigidez operacional dos shoppings é o ponto mais sensível para os lojistas diante da nova legislação. Diferentemente das lojas de rua, os estabelecimentos em centros comerciais são obrigados por contrato a funcionar sete dias por semana, muitas vezes por 12 horas diárias. A extinção da escala 6×1, que permite seis dias de trabalho com um de folga, e a consequente adoção de modelos como o 5×2 (cinco dias de trabalho com dois de folga), podem forçar a contratação de mais funcionários para cobrir as folgas.

Representantes do setor em Campo Grande estimam que essa necessidade de ampliação do quadro de pessoal possa elevar os custos com mão de obra em até 20%. Esse aumento, sem um correspondente ganho nas vendas, poderia resultar em uma alta de cerca de 8% nos preços dos produtos, levando a demissões e a um possível avanço da informalidade no mercado de trabalho. A preocupação é que a inviabilidade do negócio se torne uma realidade para muitos empresários.

Impactos econômicos e operacionais sob escrutínio

Adelaido Vila, presidente da CDL-CG, ressalta a diferença crucial entre o comércio de rua e o de shoppings. “Diferente da rua, o lojista de shopping é obrigado por contrato a abrir 12 horas por dia, 7 dias por semana. Sem a flexibilidade da 6×1, o custo de ocupação dispara porque ele precisará contratar até 20% mais funcionários apenas para cobrir folgas, sem aumentar um centavo nas vendas”, argumenta.

Vila alerta que o maior perigo não é apenas a redução da jornada de trabalho, mas a potencial inviabilidade dos negócios. “Se o custo fixo sobe e a margem some, veremos o aumento das lojas fechadas, o que prejudica a arrecadação e o emprego que a lei diz querer proteger”, pontuou. A sustentabilidade das empresas pode ser comprometida caso a nova regra não considere as particularidades do setor de shoppings.

Aline Queiroz, presidente da Associação dos Lojistas do Shopping Campo Grande, compartilha do sentimento de cautela. “O tema gera preocupação tanto entre trabalhadores, que buscam melhor qualidade de vida, quanto entre empresários, que avaliam os impactos econômicos e operacionais de uma possível redução da jornada”, afirmou. Ela destaca que a postura predominante é de observação, já que a proposta ainda depende de aprovação nas instâncias legislativas superiores.

Busca por equilíbrio entre trabalhador e negócio

O desafio, segundo Queiroz, é encontrar um equilíbrio entre a valorização do trabalhador e a sustentabilidade dos negócios. “Se houver mudanças, as empresas buscarão se adaptar, mas alguns setores, especialmente pequenas empresas, poderão enfrentar dificuldades”, completou. A preocupação é recorrente entre pequenos empresários, que veem na nova lei um obstáculo para a manutenção de suas operações.

Ela também aponta que, em alguns casos, a contratação adicional pode simplesmente inviabilizar a operação. “No meu caso, administro lojas com estruturas diferentes. Em uma delas, tenho apenas três colaboradores. Dependendo do modelo aprovado, a contratação de novos funcionários poderá tornar a operação inviável”, exemplifica. Atualmente, as empresas têm flexibilidade para adotar horários que melhor se adequam ao seu modelo de negócio.

Entenda a proposta e os prazos de adaptação

A proposta aprovada na Câmara Federal extingue a escala 6×1, que prevê seis dias de trabalho consecutivos com apenas um dia de descanso, e estabelece a adoção da escala 5×2, garantindo duas folgas semanais. As empresas terão um período de 14 meses para se adaptarem às novas regras. Dois meses após a promulgação da futura emenda constitucional, os trabalhadores contratados pela CLT passarão a ter direito a dois dias de descanso semanal remunerado.

A carga horária semanal será reduzida gradualmente, caindo de 44 para 42 horas inicialmente, e, após um ano da primeira redução, para 40 horas semanais. Durante o período de adaptação, empresas e sindicatos poderão negociar acordos coletivos para reorganizar horários e escalas, desde que respeitem os limites estabelecidos na nova lei. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa negociação coletiva é vista como um caminho para mitigar os impactos mais severos.

Juliano Wertheimer, presidente eleito da Fecomércio-MS (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Mato Grosso do Sul), reforça que a mudança tende a pressionar os custos das empresas. “Quando se trabalha 6 dias e passa a trabalhar apenas 5, aumenta 20% o custo da mão de obra na folha mensal. Dependendo da mão de obra naquele negócio, o impacto do preço final do produto pode ser de 3% a 8%”, destacou. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, essa projeção de aumento de custos é uma das maiores preocupações do setor.

Wertheimer também aponta que a necessidade de mais contratações pode levar as empresas à informalidade ou à substituição de funcionários por outros com salários menores. “Depois, os maiores salários, o que as empresas vão fazer? Vão demitir e contratar por menores salários. Vão ser substituídos por pessoas que ganham menos”, alertou. Para os consumidores, o primeiro impacto sentido pode ser na inflação, com o aumento dos preços dos produtos e serviços. Conforme o Campo Grande NEWS investigou, a relação entre custo e preço final é um ponto crítico a ser observado.

Procurados, alguns shoppings de Campo Grande, como o Norte Sul Plaza e o Pátio, não responderam sobre o assunto até a publicação desta matéria. O Shopping Bosque dos Ipês informou que ainda não comentará o caso. A falta de manifestação dos shoppings reforça o cenário de incerteza e expectativa em relação aos desdobramentos da nova legislação.