Fazenda de cliques: como bots podem manipular eleições

A recente prisão do consultor político argentino Fernando Cerimedo na Bolívia, sob acusação de tentativa de feminicídio, trouxe à tona um tema preocupante para a democracia: as “fazendas de cliques” ou “fazendas de bots”. Essas operações, que utilizam milhares de perfis falsos para manipular o debate online, ganham destaque especialmente em períodos eleitorais, levantando questões sobre a integridade de processos democráticos.

Ameaça digital em eleições

Fernando Cerimedo, conhecido por seu trabalho com lideranças de direita e extrema-direita na América Latina, incluindo presidentes como Javier Milei da Argentina, esteve envolvido em polêmicas anteriores. Ele participou de campanhas de desinformação questionando a lisura da eleição brasileira de 2022, mesmo sem apresentar provas, conforme noticiado pela Agência Brasil. A descoberta de uma “fazenda de bots” ligada a ele na Bolívia intensifica o debate sobre o uso de táticas digitais para influenciar a opinião pública.

O que são fazendas de bots e como funcionam

Bots são sistemas automatizados projetados para simular atividades humanas em redes sociais, como curtir, comentar e compartilhar publicações. Uma “fazenda de cliques” é uma estrutura organizada que gerencia milhares desses perfis falsos. O objetivo é criar uma ilusão de engajamento massivo e espontâneo, impulsionando determinados conteúdos ou candidatos artificialmente.

Segundo Reynaldo Aragon, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, essas fazendas repetem expressões, impulsionam hashtags e compartilham o mesmo conteúdo em curtos períodos. Isso gera um volume e uma velocidade artificiais nas redes, influenciando o que os usuários veem e, consequentemente, sua percepção.

Alexandre Arns Gonzales, doutor em ciência política e membro do Direito à Comunicação e Democracia (DiraCom), explica que as plataformas digitais dão visibilidade a conteúdos com alto engajamento. As fazendas de cliques exploram isso, alimentando artificialmente métricas de visualização para defender ou atacar contas, temas, assuntos ou candidatos específicos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa prática é registrada nos relatórios de segurança das big techs, que a caracterizam como “redes de comportamento inautêntico coordenado”.

O impacto do engajamento artificial

O jornalista Reynaldo Aragon cita como exemplo a disseminação de uma notícia falsa em 2018 que alcançou 30 milhões de usuários, prejudicando um candidato presidencial. O impulso inicial dado pelos bots pode fazer com que o conteúdo chegue a pessoas reais e ultrapasse os limites da rede artificial. Alguns bots são programados para interagir com usuários reais, tornando a manipulação ainda mais sutil.

Um caso emblemático mencionado por Alexandre Arns Gonzales envolveu uma empresa na Tunísia que, em 2020, teve mais de 900 páginas e contas derrubadas pelo Facebook por tentar influenciar eleições em dez países africanos. Aproximadamente 3,8 milhões de contas no Facebook e 171 mil no Instagram seguiam páginas ligadas a essa operação, demonstrando a escala da manipulação.

Custo e combate às fazendas de bots

A operação de fazendas de cliques demanda um investimento financeiro considerável em equipamentos, celulares e pessoal. Alexandre Gonzales ressalta que a Meta e o Google classificam essas ações como “redes de comportamento inautêntico coordenado”.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem buscado combater essa prática através de planos de conformidade exigidos das big techs. Esses planos podem ajudar a identificar e denunciar indícios de fazendas de bots. No entanto, Reynaldo Aragon expressa ceticismo quanto à preparação do TSE para enfrentar o problema, sugerindo que investigações policiais e da sociedade civil são mais eficazes, pois as plataformas tendem a evitar a regulação da informação.

Fernando Cerimedo, descrito pela revista The Economist como “o homem do MAGA na América Latina”, já havia ganhado notoriedade no Brasil em 2022. Após as eleições presidenciais, ele participou de transmissões ao vivo alegando fraude nas urnas. A prisão na Bolívia, por tentativa de feminicídio contra a ativista Nadia Beller, adiciona um capítulo controverso à sua atuação. A defesa de Cerimedo nega as acusações, alegando ser ele vítima de uma armação política. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a atuação de Cerimedo em eleições passadas e sua conexão com figuras políticas de direita em diversos países reforçam a preocupação com a influência de operações de bots em processos democráticos.

A capacidade de manipular o debate público através de mecanismos automatizados representa um desafio contínuo para a integridade eleitoral. A investigação e a transparência sobre essas operações são cruciais para a manutenção da confiança nas instituições democráticas. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando os desdobramentos deste caso e suas implicações para a política digital.