Edifícios de luxo na fronteira viram fachada para lavagem de dinheiro do tráfico

O Ministério Público Federal (MPF) revelou um complexo esquema transnacional de tráfico de cocaína e lavagem de dinheiro, onde dois empreendimentos imobiliários de alto padrão, localizados na fronteira entre Brasil e Paraguai, serviam como fachada para ocultar os lucros do crime. O Edifício Ervais, em Ponta Porã (MS), e o Tetrys Palace, em Pedro Juan Caballero (PY), estão no centro das investigações da Operação Balcãs, um desdobramento de ações deflagradas em novembro do ano passado.

A denúncia aponta como figuras centrais no esquema Alexandre Rodrigues Gomes, filho do ex-deputado paraguaio Eulalio Gomes, o empresário Thiago Brites e Jovenil Vieira Rodrigues. O grupo é acusado de comprar cocaína na Bolívia e no Paraguai, introduzi-la no Brasil pelo Mato Grosso do Sul e, em seguida, distribuí-la para a Europa, utilizando o setor imobiliário para o branqueamento dos recursos ilícitos. Conforme o MPF, a influência política e o uso de “laranjas” foram ferramentas cruciais para manter as operações ativas.

Alexandre Gomes: Peça-chave no esquema transnacional

Alexandre Rodrigues Gomes, detido há um ano e seis meses no Paraguai, é considerado pela investigação como um dos pilares do esquema. Ele, juntamente com Jovenil Vieira e o empresário Thiago Alessandro de Oliveira Davalos Brites, que comanda uma construtora em Dourados (MS), foram denunciados pelo MPF por tráfico internacional de drogas, juntamente com outras sete pessoas. A atuação de Alexandre era estratégica na logística e na coordenação financeira.

Alexandre é filho de Eulalio “Lalo” Gomes, ex-deputado paraguaio que possuía forte influência política na região de fronteira e enfrentava diversas denúncias de envolvimento com o crime organizado. Lalo Gomes foi morto pela polícia paraguaia em agosto de 2024, durante uma operação em sua residência em Pedro Juan Caballero. A morte de seu pai, contudo, não interrompeu as atividades criminosas de Alexandre.

Thiago Brites: O investidor do Edifício Ervais

O empresário Thiago Brites é apontado pelo MPF como o principal investidor do Edifício Ervais, um empreendimento de luxo em Ponta Porã, cujas unidades residenciais ainda estão em processo de comercialização. De acordo com o relatório oficial, Brites desempenhava um papel estratégico na logística do tráfico, sendo responsável pelo controle de estoque da cocaína vinda da Bolívia e pela coordenação de pagamentos em espécie. Essa atuação demonstra a integração entre o setor da construção civil e as atividades ilícitas.

A investigação detalha que Brites adquiriu um apartamento no Tetrys Palace, em Pedro Juan Caballero, diretamente de Alexandre Gomes. Jovenil Vieira atuou como intermediário nessa transação, uma manobra para ocultar a verdadeira propriedade do imóvel e dificultar o rastreamento do dinheiro. O fluxo financeiro da organização era meticulosamente coordenado por Jovenil, evidenciando um alto nível de organização e sofisticação no esquema.

Operações clandestinas e destruição de evidências

A rede criminosa mantinha um sofisticado sistema de operações clandestinas, incluindo pistas de pouso secretas na Bolívia e no Paraguai. A audácia da organização chegava ao ponto de destruir aeronaves acidentadas para eliminar rapidamente qualquer vestígio que pudesse incriminá-los, antes mesmo de organizar novos voos, que ocorriam em um curto espaço de tempo. Essa prática ressalta a urgência e a preocupação em manter a discrição e a continuidade das operações.

O documento da denúncia do MPF enfatiza que a influência política exercida por figuras ligadas ao esquema e o uso de “laranjas” no setor da construção civil eram mecanismos fundamentais para garantir a continuidade das operações ilícitas entre Mato Grosso do Sul e o Paraguai. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a investigação busca desmantelar essa complexa teia criminosa que se beneficiava da localização estratégica da fronteira. A matéria do Campo Grande NEWS ressalta a importância da colaboração entre as autoridades brasileiras e paraguaias para combater o crime transnacional.

A fronteira como palco de crimes de alto padrão

Os empreendimentos imobiliários de luxo, antes vistos como símbolos de prosperidade na região de fronteira, agora são expostos como fachadas para atividades criminosas de grande escala. O Edifício Ervais e o Tetrys Palace exemplificam como o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro se infiltram em setores lícitos, utilizando a aparência de legalidade para ocultar a origem ilícita dos recursos. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, as investigações continuam a mapear outros possíveis envolvidos e propriedades utilizadas para os mesmos fins.

A denúncia do MPF, desdobramento da Operação Balcãs, detalha a compra de cocaína na Bolívia e no Paraguai, com o Mato Grosso do Sul servindo como rota de entrada para o Brasil. O destino final da droga era a Europa, e o setor imobiliário da fronteira era o principal mecanismo para lavar o dinheiro obtido com a venda do entorpecente. A atuação conjunta das polícias e do Ministério Público é essencial para desarticular essas redes.