O futuro de Mato Grosso do Sul está em jogo em um delicado equilíbrio entre o desenvolvimento econômico impulsionado por grandes investimentos e a preservação ambiental. Os planos dos candidatos Eduardo Riedel (PP) e Fábio Trad (PT), líderes nas pesquisas, serão testados na prática. A concessão de incentivos fiscais, que representa mais da metade das receitas líquidas previstas para 2026, é o ponto crucial dessa equação.
Enquanto Riedel aposta na continuidade de um modelo de crescimento sustentável como diferencial competitivo, Trad propõe uma revisão dos incentivos fiscais, buscando maiores contrapartidas socioambientais. O debate ganha urgência com a expansão do **Vale da Celulose** e um relatório recente do Imasul que apontou um aumento expressivo de fósforo no Rio Pardo, possivelmente devido ao lançamento de efluentes da Suzano. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o Vale da Celulose já se aproxima de 2 milhões de hectares, atraindo investimentos industriais e logísticos significativos.
Essa expansão, que coloca Mato Grosso do Sul em destaque global na produção de celulose, gera preocupações sobre o uso da água, a proteção de nascentes e outros impactos ambientais. A velocidade e a escala dessas transformações exigem um planejamento territorial robusto, capaz de antecipar efeitos e estabelecer limites claros para o avanço econômico sem comprometer os recursos naturais e a qualidade de vida das comunidades.
Especialistas defendem a necessidade de um olhar territorial para o desenvolvimento, sugerindo o zoneamento como ferramenta para delimitar a expansão do eucalipto e proteger recursos hídricos, polinizadores e comunidades rurais. A questão central se torna: como, onde e até que ponto as atividades econômicas podem progredir sem esgotar os recursos que sustentam o próprio desenvolvimento.
Visões distintas sobre o futuro econômico
Eduardo Riedel vê o desenvolvimento como uma continuidade de um ciclo de sucesso, focado em infraestrutura, atração de investimentos, indústria e agronegócio. Sua proposta é agregar valor às cadeias produtivas e aumentar a competitividade, utilizando a **sustentabilidade** e tecnologias de baixo carbono como motores de um novo ciclo de crescimento. Ele aposta em produtividade e qualificação para manter o Estado competitivo, com uma transição gradual para uma economia menos dependente de benefícios tributários.
Fábio Trad, por outro lado, diagnostica um crescimento concentrado e dependente de commodities. Ele propõe uma **neoindustrialização verde**, com maior interiorização dos investimentos e mais agregação de valor. Trad defende a revisão da política de incentivos fiscais, vinculando-a a contrapartidas concretas, como a geração de empregos, qualificação profissional, inovação, redução de emissões e recuperação ambiental. Para ele, é fundamental avaliar o retorno econômico, social e ambiental antes de conceder renúncias fiscais. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, essa diferença se manifesta também na postura em relação ao Imasul, o principal órgão de fiscalização ambiental.
Fortalecendo a fiscalização e a regulação
Riedel defende a agenda do Estado Carbono Neutro, a economia verde e a valorização econômica dos ativos ambientais, vendo a sustentabilidade como uma oportunidade de negócios. Sua visão coloca o poder público como indutor da competitividade, integrando a variável ambiental ao crescimento econômico. Ele também prioriza a segurança hídrica e o saneamento básico.
Trad propõe um papel mais ativo do Estado, com o fortalecimento do Imasul por meio de concursos públicos, modernização tecnológica e inteligência ambiental. Seu plano inclui monitoramento remoto, fiscalização rigorosa, proteção de nascentes e recuperação de bacias hídricas. Essa abordagem confere ao Estado uma função mais proativa de indução, regulação e controle, garantindo que o desenvolvimento não ocorra à custa da degradação ambiental. O Campo Grande NEWS ressalta a importância de um órgão fiscalizador forte.
O Rio Pardo e os desafios da expansão
Um episódio recente no Rio Pardo evidenciou o conflito entre a expansão industrial e a proteção ambiental. Um relatório do Imasul apontou um aumento alarmante na concentração de fósforo após o lançamento de efluentes da Suzano, elevando os índices de cerca de 90 mg/l para até 3.037 mg/l. Essa alteração na qualidade da água causou a proliferação de plantas aquáticas, afetando o sistema que desagua no Rio Paraná e interferindo na operação de usinas. A Suzano afirma cumprir os parâmetros de licenciamento.
Este caso, assim como a condenação da Cesp e Rio Paraná Energia por danos ambientais ligados ao reservatório de Ilha Solteira, evidencia a necessidade de planejamento que contemple prevenção, fiscalização, compensação e reparação ambiental. A grande questão para Mato Grosso do Sul é se a estrutura de governança ambiental está crescendo na mesma velocidade da sua expansão econômica. O Vale da Celulose se apresenta como um teste concreto para as visões de futuro dos candidatos, que precisarão definir os limites ambientais e hídricos antes que a nova etapa da silvicultura se consolide.

