Delegado que caçava traficantes é preso em esquema de desvio de drogas

Delegado vira réu em operação que desvendou esquema de desvio de drogas

Hoffmann D’Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) em Mato Grosso do Sul, que dedicou 17 anos ao combate ao crime, agora se encontra no centro de uma investigação que o acusa de liderar uma complexa organização criminosa. A operação, batizada de “Infiltrados”, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), aponta que o delegado usava sua posição para desviar drogas apreendidas e revendê-las, atuando em conluio com outros agentes de segurança pública e traficantes.

A denúncia, apresentada à Justiça e que aguarda análise judicial, detalha a participação de Hoffmann em desvios de cocaína e maconha, obstrução de investigações e movimentações financeiras suspeitas. Ao todo, 23 pessoas foram denunciadas, e o MPMS pede a perda do cargo do delegado, além de R$ 10 milhões por danos coletivos. A atuação de Hoffmann, segundo a investigação, ia além de “vistas grossas”, transformando operações policiais em fonte de abastecimento para o tráfico.

De combatente a líder de organização criminosa

Com 17 anos de carreira policial, Hoffmann D’Ávila Cândido e Sousa iniciou sua trajetória em Goiás como escrivão e, desde 2014, atuava como delegado da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. Ele comandava a Denar até fevereiro deste ano. A Operação Infiltrados, que aponta o envolvimento do grupo entre 2021 e 2026, sugere que Hoffmann passou de autoridade a criminoso pouco tempo após assumir o comando da Denar em 2019, aproveitando a estrutura policial, acesso a informações sigilosas e a custódia de entorpecentes.

O Gaeco enfatiza a relevância do delegado para o funcionamento do esquema. “Em síntese, as provas produzidas demonstram que HOFFMAN D’ÁVILA CÂNDIDO E SOUSA, na condição de Delegado de polícia, ocupava posição de comando e chancela institucional do esquema, sendo responsável por viabilizar a atuação da organização criminosa, da qual é um dos principais beneficiários”, afirma a denúncia.

Apreensão recorde de cocaína e suspeitas de desvio

Um dos episódios que chamam a atenção é a apreensão de 650 quilos de cocaína em Bela Vista, em maio de 2024, divulgada por Hoffmann em entrevista coletiva como a maior da história da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. Na ocasião, o delegado detalhou a operação que desarticulou uma oficina usada para preparar veículos que transportavam entorpecentes do Paraguai.

Contudo, nos bastidores, a investigação do Gaeco revelou um cenário diferente. A operação teria sido articulada com informações do traficante “LK”, apontado como elo entre policiais e compradores de drogas desviadas. Conforme a acusação, “LK” informou sobre um depósito com cerca de 1 tonelada de cocaína, mas apenas 643 quilos foram apreendidos oficialmente, levantando a suspeita de que cerca de 400 quilos tenham sido desviados antes da formalização da ocorrência. O Campo Grande NEWS checou que conversas encontradas no celular de “LK” demonstram que ele acompanhava o trabalho da delegacia e a apresentação pública da apreensão, comentando sobre o andamento do desvio de entorpecentes.

Celulares sem perícia e maconha desviada com autorização

A denúncia também aponta que Hoffmann dificultou o aprofundamento das investigações. Quatro celulares apreendidos durante a operação permaneceram meses sem análise pericial, atrasando a identificação de outros envolvidos. Os aparelhos só foram encaminhados para perícia sete meses após o flagrante, sem que o procedimento inicial de análise pelo Instituto de Criminalística tivesse ocorrido. O Gaeco vê isso como uma tentativa deliberada de impedir que os dados revelassem a participação de outros integrantes da organização.

Outro caso relatado é a apreensão de 793 quilos de maconha em Campo Grande, em maio de 2024. Parte dessa droga, segundo o Gaeco, foi entregue ao traficante “LK” com a autorização de Hoffmann. Conversas posteriores revelaram a insatisfação do traficante com a quantidade recebida e a negociação para conseguir mais maconha, com a menção de um acordo para receber 20% das drogas apreendidas. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o traficante orientou seu interlocutor a consultar a publicação oficial da operação no Instagram da Denar, indicando que os traficantes negociavam drogas retiradas de operações policiais reais.

Movimentações financeiras e patrimônio milionário sob suspeita

A investigação identificou três transferências via Pix de R$ 5,9 mil realizadas pelo investigador Neverson Vieira de Araújo para a conta de Hoffmann em setembro de 2021. Neverson é apontado como um dos responsáveis pela aproximação entre “LK” e o grupo criminoso. Além disso, Hoffmann e Neverson aparecem juntos em uma foto de dezembro de 2022, durante um encontro nacional sobre enfrentamento ao tráfico de drogas.

A análise patrimonial de Hoffmann revelou R$ 436,7 mil em créditos de origem desconhecida, incluindo 32 depósitos em dinheiro entre outubro de 2021 e junho de 2025. Um depósito de R$ 276 mil em espécie em março de 2024 chamou a atenção, seguido por um débito de R$ 265,6 mil no mesmo dia. Investigações também apontaram investimentos superiores a R$ 1,2 milhão em pouco mais de um ano, incluindo uma residência de R$ 1,6 milhão em um condomínio de luxo. O Campo Grande NEWS checou que um empréstimo declarado de R$ 750 mil também gerou desconfiança, pois a empresa supostamente credora possuía capital social de apenas R$ 20 mil.

Ação pede perda do cargo e R$ 10 milhões por danos coletivos

A denúncia da Operação Infiltrados, protocolada em 9 de outubro, abrange 23 pessoas acusadas de diversos crimes, como organização criminosa, tráfico de drogas, peculato-desvio, corrupção e lavagem de dinheiro. Hoffmann D’Ávila Cândido e Sousa foi enquadrado em seis tipos de crimes, incluindo participação na organização criminosa, dois episódios de tráfico, peculato-desvio, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Além da responsabilização penal, o MPMS pede a perda do cargo público do delegado, o confisco de bens relacionados às atividades criminosas e o pagamento de R$ 10 milhões por danos morais coletivos. Hoffmann, que está afastado de suas funções e cumpre prisão preventiva, recebia seu salário integralmente, com remuneração bruta próxima a R$ 40 mil.