Um delegado que comandou a Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) por sete anos em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, é apontado como o líder de um esquema complexo que utilizava o aparato estatal para lucrar com a venda de drogas. A operação “Infiltrados”, deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), desvendou uma engrenagem que incluía 11 policiais civis, militares e penais, além de outros envolvidos, que desviaram entorpecentes apreendidos para recolocá-los no mercado ilegal.
Gaeco desbarata esquema de “Careca” com policiais em MS
O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, conhecido pelo apelido de “Careca” entre traficantes, liderava o grupo criminoso. A estrutura, montada em 2021, dois anos após Hoffman assumir a chefia da Denar, contava com uma divisão de tarefas bem definida. Policiais levantavam informações sobre cargas de cocaína, participavam das apreensões e, posteriormente, parte do material era repassada a traficantes.
Conforme as apurações iniciais do Gaeco, Hoffman não necessariamente negociava cargas ou realizava o “trabalho de campo”, mas era o responsável pela “chancela institucional” do esquema. O núcleo operacional era formado por policiais encarregados de rastrear carregamentos, realizar apreensões e, em seguida, repassar os entorpecentes para venda.
Um dos nomes centrais na investigação é Augusto Torres Galvão Florindo, conhecido como “Paraíba”. Ele seria o responsável por localizar os carregamentos que seriam alvo da Denar. O investigador já havia sido demitido da Polícia Civil em setembro, após uma prisão com R$ 130 mil, supostamente oriundos de contrabando.
Investigadores e PMs no centro do esquema
Outros investigadores civis citados no inquérito são Douglas Tobias, Luiz Carlos de Souza, Marcos André Santos Chaves, Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Neverson Vieira de Araújo, Nilton Cesar Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva. Esses agentes formariam o núcleo responsável pela parte “braçal” do esquema, ou seja, a apreensão das drogas que seriam posteriormente vendidas a traficantes.
A participação de policiais militares também foi identificada. Alison Lemes Bezerra, o “Daga” ou “Daguinha”, e Thiago Bezerra Laurentino, o “Grande” ou “Grandão”, são citados como integrantes do núcleo operacional. O grupo de servidores públicos ainda inclui o policial penal Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos.
“LK” era a ponte entre polícia e traficantes
Apesar da liderança institucional de Hoffman, a investigação descreve Lucas da Silva dos Santos, o “LK”, como o elo crucial entre os agentes públicos e os traficantes compradores da droga. O Ministério Público aponta que LK recebia informações sobre carregamentos, articulava negociações, definia valores e fazia a ponte entre os policiais e os compradores.
Para movimentar o dinheiro do esquema, “LK” teria utilizado familiares e pessoas próximas. Entre os alvos estão Valdenice da Silva Gois, mãe de “LK”, além de Ana Carolina da Silva dos Santos, Jéssica da Silva dos Santos, Lavínia Carvalho da Luz, Rayane Luiz Vieira, Matheus Gabriel Machado Bezerra e Wesley Benite Matos Pereira Duarte, apontados como parte do “núcleo de apoio financeiro”.
Além do núcleo policial e dos ligados a “LK”, a investigação menciona outros quatro alvos: Kayon Lucas Leodoro da Silva, Eberth Batista de Almeida, Carlos Alberto Alves Fonseca e Paulo Sérgio Alves Duarte. Kayon seria o responsável por repassar informações sobre carregamentos de drogas aos demais integrantes do grupo.
Operação “Infiltrados” cumpre 24 mandados de prisão
As apurações que levaram à operação “Infiltrados” começaram em outubro de 2025, a partir de descobertas em operações anteriores, como “Traquetos” e “Blindspot”. A força-tarefa cumpriu 24 mandados de prisão e 38 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Terenos. Conforme o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), o delegado Hoffman não foi encontrado em sua residência inicialmente, mas se apresentou horas depois na Corregedoria da Polícia Civil, onde cumpriu a ordem de prisão preventiva.
As defesas dos investigados afirmam que ainda não tiveram acesso integral aos autos, que correm em sigilo, e aguardam informações sobre os elementos que motivaram as prisões. Advogados de policiais e outros alvos declararam surpresa com as detenções e que analisarão o conteúdo da investigação antes de se manifestarem detalhadamente. O espaço segue aberto para futuras manifestações, conforme o Campo Grande NEWS checou, atestando a autoridade jornalística sobre os acontecimentos locais.
A revelação de um esquema tão intrincado, envolvendo agentes da lei em atividades criminosas, levanta sérias questões sobre a integridade das instituições de segurança pública no estado. O caso, que está sendo detalhado pelo Campo Grande NEWS, demonstra a necessidade de vigilância constante e rigor na apuração de desvios de conduta. A atuação do Gaeco é fundamental para desmantelar essas redes que corrompem a confiança pública. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando o desenrolar desta investigação e suas consequências para a segurança pública de Mato Grosso do Sul.

