A Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul iniciou um movimento para apurar o uso de recursos federais na Santa Casa de Campo Grande. Após uma vistoria detalhada, que revelou falhas consideradas graves na assistência aos pacientes, o órgão formalizou um pedido de investigação junto ao Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus) e ao Tribunal de Contas da União (TCU). A ação visa garantir a correta aplicação das verbas públicas e a qualidade dos serviços oferecidos à população.
A inspeção, realizada em março deste ano, ouviu 46 pacientes internados ao longo de dois dias. Os relatos coletados pintam um cenário preocupante, com problemas recorrentes que afetam diretamente a experiência e a saúde dos usuários do hospital. Cirurgias canceladas após o paciente se preparar para o procedimento, longos períodos de jejum sem que as intervenções ocorram e dificuldades em obter informações claras sobre diagnósticos e tratamentos foram algumas das queixas mais frequentes.
Em situações alarmantes, alguns pacientes relataram que decisões médicas importantes foram tomadas à distância, por meio de aplicativos de mensagem, sem que houvesse uma avaliação presencial adequada. Essa prática levanta sérias dúvidas sobre a segurança e a qualidade do cuidado prestado, especialmente em um ambiente hospitalar que exige atenção e acompanhamento constantes. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a falta de contato presencial pode comprometer a detecção precoce de complicações e a eficácia do tratamento.
Problemas estruturais e ortopedia em colapso
Além das falhas na assistência direta ao paciente, a vistoria da Defensoria Pública também identificou problemas estruturais significativos em diversas áreas da Santa Casa. Movéis danificados, a ausência de climatização adequada em setores críticos e condições precárias de higiene foram pontos destacados. Esses problemas, embora possam parecer secundários, impactam diretamente o bem-estar dos pacientes e a segurança sanitária do local.
A situação na área de ortopedia, contudo, foi apontada como especialmente delicada. Cirurgias eletivas foram suspensas por tempo indeterminado devido à falta de pagamento das equipes médicas, com destaque para os anestesistas. Pacientes que aguardavam há semanas por procedimentos acabaram sendo devolvidos ao sistema de regulação sem qualquer previsão de retorno, gerando grande angústia e incerteza. O Campo Grande NEWS apurou que essa suspensão afeta diretamente a qualidade de vida de muitos pacientes que dependem dessas intervenções.
Desassistência e casos graves chamam atenção
Outros relatos graves vieram à tona, reforçando o cenário de desassistência. Há registros de diagnósticos baseados em imagens enviadas por enfermeiros, internações prolongadas sem avaliação médica e espera de meses, ou até anos, para a retirada de materiais cirúrgicos. A demora na remoção desses materiais é crucial para evitar infecções graves e complicações sérias. A falta de agilidade nesse processo pode ter consequências devastadoras para a saúde do paciente.
Um dos casos mais chocantes citados pela Defensoria envolve a morte de uma paciente por choque séptico. A suspeita é que a condição esteja diretamente relacionada à permanência de material ortopédico no corpo da paciente por tempo inadequado. Este trágico evento sublinha a urgência de uma investigação aprofundada sobre a gestão e os protocolos da Santa Casa. O Campo Grande NEWS entende a gravidade desses fatos e a necessidade de transparência.
Defensoria: “Descaso absoluto” e acionamento de órgãos federais
Eni Maria Sezerino Diniz, coordenadora do Núcleo de Atenção à Saúde (NAS) da Defensoria Pública, classificou a situação como um “descaso absoluto”. Ela ressaltou que, enquanto reuniões e acordos são discutidos, pacientes estão sofrendo e morrendo. “Não é papel da Defensoria se omitir”, afirmou, justificando o acionamento dos órgãos federais pela presença de recursos da União envolvidos e pela ausência de investigações nesse âmbito até o momento.
Dados apresentados pela Defensoria indicam que a Santa Casa recebeu mais de R$ 243 milhões em verbas federais em 2025. Somente em 2026, até março, já foram repassados mais de R$ 53 milhões. A defensora pública enfatizou que os problemas incluem pacientes sem atendimento médico adequado, cancelamento de cirurgias e ausência de previsão para a realização de procedimentos essenciais, o que contraria os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS).
Estatuto dos Direitos do Paciente e a busca por justiça
O cenário encontrado na Santa Casa ganha ainda mais relevância com a sanção da Lei nº 15.378/2026, que institui o Estatuto dos Direitos do Paciente. A nova legislação garante, entre outros pontos, o direito a um atendimento digno, acesso a informações claras, acompanhamento por profissionais qualificados e a participação ativa do paciente nas decisões sobre seu tratamento. Para a Defensoria, as irregularidades na Santa Casa representam uma violação grave desses direitos.
Diante do exposto, a Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul solicita uma apuração detalhada sobre a aplicação dos recursos públicos na Santa Casa de Campo Grande. A expectativa é que o Denasus e o TCU investiguem a gestão da unidade e determinem as responsabilidades pelos danos relatados. O objetivo final é garantir que os serviços de saúde sejam prestados de forma regular, segura e digna a todos os cidadãos que dependem da instituição.

