A menos de um mês do primeiro turno das eleições de 2026, a escalada da crise político-institucional tem ofuscado o debate sobre propostas de campanha e problemas estruturais brasileiros. Entidades da sociedade civil ouvidas pela Agência Brasil apontam que disputas envolvendo o Poder Judiciário e desdobramentos de investigações policiais têm dominado o noticiário e as redes sociais, desviando o foco dos desafios nacionais.
Para a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, o debate eleitoral está prejudicado porque a atenção está voltada para os reflexos da crise institucional. Francilene Garcia, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), complementa que a agenda pré-eleitoral foi tomada por temas não escolhidos pela sociedade, que deveriam ser discutidos em conjunto com propostas de mudanças estruturais para o desenvolvimento nacional.
“Há uma lacuna imensa em relação a outros temas fundamentais que deveriam estar no centro do debate político-eleitoral, como a ciência, que depende de regras estáveis, orçamento previsível e atenção”, comentou Francilene. Ela ressalta que é como se o país fosse obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou um projeto mais amplo de desenvolvimento, quando ambos os temas estão interligados.
Candidatos ignoram temas vitais como ciência e clima
Os entrevistados concordam que os fatos revelados pela Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de envolvimento de autoridades com o dono do antigo Banco Master, Daniel Vorcaro, são graves. No entanto, defendem que a apuração dessas suspeitas não deve tirar espaço do debate sobre as propostas dos candidatos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, entidades como a SBPC e a Fenaj expressam preocupação com o desvio de foco.
O coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, considera as eleições deste ano as mais relevantes desde a Constituição de 1988, em um contexto mundial de reorganização produtiva e conflitos. “Apesar disso, os grandes temas que deveríamos estar discutindo – desenvolvimento econômico, soberania nacional, uma agenda que articule defesa, educação, ciência e tecnologia – estão escanteados”, alertou Cara.
Segundo ele, os candidatos parecem não compreender a complexidade da situação que o Brasil enfrenta. A presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Rita Serrano, destaca as prioridades da classe trabalhadora, como o fim da escala 6×1, geração de emprego e renda, e a regulamentação da negociação coletiva no setor público. Rita Serrano, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, lamenta que a crise institucional tenha jogado para segundo plano essas e outras pautas cruciais.
“As centrais sindicais já vinham atuando no Congresso para convencer os parlamentares a aprovarem o fim da escala 6×1 e a regulamentação das relações de trabalho e da representação sindical no setor público. Até o fim de agosto, isso estava avançando. Aí o Brasil virou uma confusão”, disse Rita, revelando que as próprias entidades sindicais estão tentando compreender o momento e pautar a discussão pré-eleitoral.
Crise climática e minerais estratégicos esquecidos na campanha
Além do “sequestro da pauta eleitoral”, os entrevistados apontam a **mudança climática** como um tema central que tem sido ignorado. Mário Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, cita os recentes desastres no Rio Grande do Sul e na Amazônia como exemplos claros dos impactos da crise climática na vida das pessoas e no orçamento público.
“Surpreendentemente, poucos candidatos citam a crise climática entre suas principais preocupações. Pior. Há candidatos que negam o problema”, criticou Astrini. Ele ressalta que candidatos que negam a crise climática, se eleitos, não tomarão medidas para enfrentá-la.
O tema dos **minerais críticos e terras raras** também foi destacado por sua importância estratégica para o desenvolvimento econômico, tecnológico e a soberania nacional. A recente aprovação do projeto de lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos reforça essa relevância. No entanto, conforme aponta Alcebias Constantino, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), essa discussão tem sido ignorada pela maioria dos candidatos.
“Esse é um assunto que também nos interessa porque diz respeito a uma das nossas maiores lutas, pela demarcação e proteção dos nossos territórios”, disse Constantino. Ele relativiza o impacto da crise institucional para as comunidades indígenas, que estão acostumadas a não verem suas prioridades acolhidas no debate eleitoral.
A Apib lançou e apoia 56 candidatos para as eleições, visando garantir a representação de seus interesses. “Enxergamos o pleito eleitoral como uma importante ferramenta de garantia dos nossos direitos”, afirmou Constantino. A luta pela demarcação de terras e a proteção dos direitos indígenas, segundo ele, é constante, independentemente das crises institucionais. A posição da Apib e de outras entidades reforça a análise do Campo Grande NEWS sobre a necessidade de maior atenção a temas fundamentais.


