A CPI do Crime Organizado está intensificando as investigações e prepara um pacote de requerimentos para ampliar o cerco sobre o Banco Master e estruturas financeiras associadas. O objetivo é mapear a trilha do dinheiro, cruzar movimentações e identificar possíveis conexões entre o sistema financeiro formal e o ecossistema de lavagem de dinheiro investigado pela Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que teve desdobramentos em Mato Grosso do Sul. Os pedidos incluem Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Coaf e quebras de sigilo bancário, fiscal, telefônico e telemático de diversas pessoas e empresas. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a investigação busca evidências de possível triangulação de recursos e conexões com organizações criminosas, incluindo o PCC.
O relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), sinaliza a necessidade de aprofundar a apuração envolvendo personagens considerados estratégicos. Entre os nomes listados para investigação estão Viviane Barci de Moraes, advogada e esposa do ministro Alexandre de Moraes; José Carlos Dias Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos e empresários ligados ao ministro Dias Toffoli; além de empresários como Mario Umberto Degani e o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Também estão sob o radar Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, apontado como sócio do Master, e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio da instituição. O pacote de requerimentos visa cruzar dados para verificar a existência de “circularidade de operações” e mecanismos de dissimulação patrimonial associados a fundos e estruturas financeiras, além de rastrear a eventual atuação de intermediários com influência política.
CBSF DTVM e fundos sob suspeita
Um dos alvos centrais da investigação é a CBSF DTVM, antiga Reag Trust, que foi liquidada pelo Banco Central. Vieira solicita a quebra de sigilos da empresa no período de 2022 a 2026, com base na suspeita de que fundos administrados pela gestora teriam sido utilizados para ocultação patrimonial e lavagem de recursos provenientes do esquema de combustíveis investigado na Operação Carbono Oculto, com indícios de conexão com o PCC.
A CPI pretende obter dados completos sobre movimentações financeiras, comunicações e estrutura societária para identificar os beneficiários finais e eventuais operações trianguladas. O requerimento mais amplo mira o próprio Banco Master, solicitando acesso integral às movimentações e comunicações no mesmo período.
O banco é suspeito de ter operado como mecanismo de captação e redistribuição de recursos, por meio da emissão de CDBs e da estruturação de empréstimos considerados artificiais, que teriam sido redirecionados a fundos ligados à Reag/CBSF. A suspeita recai sobre um circuito de triangulação capaz de mascarar desequilíbrios e simular solidez patrimonial, com operações internas e externas funcionando de forma integrada. A investigação, conforme o Campo Grande NEWS apurou, busca detalhar como essa engrenagem funcionou.
Escritórios de advocacia e Instituto Lex na mira
No topo da lista de alvos também aparecem estruturas jurídicas. Vieira pede a quebra de sigilo da Barci de Moraes Sociedade de Advogados, citada em razão de contrato de alto valor com o banco; da Barci e Barci, aberta em 2025 e apontada como possível camada de blindagem; e da Rangel Advocacia, sob suspeita de triangulação e exploração de prestígio institucional. O Instituto Lex também entra no radar da CPI como possível canal de lavagem de dinheiro por meio de patrocínios e aquisição de imóveis de alto padrão.
A CPI solicita ainda ao Senado registros de entrada e saída de Augusto Ferreira Lima nas dependências da Casa, com o objetivo de mapear eventual atuação de lobby e articulações políticas. Conhecido como Guga Lima, o executivo mantém relações com o núcleo baiano do PT no governo Lula 3, incluindo o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, e o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa. Lima foi sócio de Vorcaro até 2024 e é apontado como responsável por levar ao Master modelos semelhantes ao Cred-Cesta, ativo de crédito consignado vendido ao governo da Bahia em 2018, quando Wagner era secretário de Desenvolvimento Econômico na gestão de Rui Costa.
Conexão com a Operação Carbono Oculto
Os pedidos de quebra de sigilo buscam conectar esse universo bancário ao núcleo operacional descrito pela Operação Carbono Oculto. O relatório da Polícia Federal aponta que o esquema se apoiava em empresas de combustíveis com estruturas societárias artificiais, ocultação patrimonial e possíveis mecanismos de lavagem com ramificações interestaduais.
O documento cita como líderes do núcleo investigado Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, ambos foragidos. Menciona ainda o condenado por tráfico Daniel Dias Lopes como operador ligado ao PCC no circuito empresarial e financeiro de São Paulo, associado ao setor de combustíveis, considerado estratégico pela investigação.
Com os requerimentos, a comissão busca obter documentos e rastros financeiros que permitam reconstruir esse percurso, desde a logística de combustíveis na fronteira até os mecanismos sofisticados do mercado de capitais. A disputa central passa a ser o acesso aos dados capazes de indicar se essa conexão existiu e quem seriam os beneficiários finais de uma engrenagem que, em tese, começa no chamado “andar de baixo” e alcança o “andar de cima” do sistema financeiro. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando os desdobramentos desta investigação que promete abalar o cenário financeiro e político do país.

