Condenado por morte em boate Valley, após 15 anos, começa a cumprir pena

Após 15 anos do crime, Cristhiano Luna de Almeida, condenado pela morte do segurança Jefferson Bruno Escobar, conhecido como Brunão, teve o mandado de prisão cumprido nesta sexta-feira (16). Ele foi sentenciado a 10 anos de prisão em regime fechado em dezembro de 2021, mas recorreu da decisão até esgotar todas as possibilidades, com o caso transitando em julgado.

O crime ocorreu em 2011, na boate Valley, em Campo Grande, quando Brunão tentou retirar Cristhiano do estabelecimento após uma confusão. A vítima foi golpeada e não resistiu. O processo judicial se arrastou por mais de uma década, com sentenças que variaram entre 17 anos e a pena atual de 10 anos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, Cristhiano, que na época era bacharel em Direito e assessor do Tribunal de Contas, mudou de profissão após o incidente, tornando-se chef de cozinha.

Considerando o tempo em que já permaneceu preso preventivamente ao longo do processo, restam oito anos e seis meses de pena a serem cumpridos. Até a prisão, ele respondia em liberdade enquanto aguardava o julgamento do último recurso apresentado pela defesa, que foi negado.

Defesa se apresentou espontaneamente

O advogado de defesa, José Belga Trad, informou que Cristhiano se apresentou espontaneamente para o cumprimento da pena. “Ele se apresentou e nós vamos fazer os requerimentos cabíveis na defesa dos seus direitos nos autos do processo”, afirmou o advogado. A Justiça expediu o mandado de prisão na quinta-feira (15), que foi cumprido no dia seguinte.

Família da vítima sente alívio

Para a família de Brunão, a prisão representa o fim de um longo período de espera por justiça. A mãe da vítima, Edcelma Gomes Vieira, expressou alívio com a decisão. “Nada vai trazer meu filho de volta, mas pelo menos a gente vê que não ficou impune, que ele foi julgado. Entrou com recurso, só foi protelando, protelando, e agora graças a Deus saiu essa decisão e ele voltou a ser preso”, declarou.

A prima de Brunão, Mayara Hortência Cardoso Gonçalves, que sempre lutou por justiça no caso, comentou a prisão. “A Justiça é penosa, as vezes acreditamos que nada vai acontecer, mas no tempo que as coisas precisam acontecer, elas acontecem. São 15 anos, muita coisa mudou, eu casei, tive duas filhas, ele tinha minha idade e a gente nunca vai saber como seria o futuro dele. Para a minha família é um grande alívio saber que toda nossa luta não foi em vão”, disse.

O crime na boate Valley

O caso se tornou emblemático em Mato Grosso do Sul. Jefferson Escobar, o Brunão, tinha 29 anos quando morreu na madrugada de 19 de março de 2011, após ser golpeado ao tentar retirar Cristhiano da boate Valley. Segundo o processo, a discussão iniciou quando Cristhiano importunava um garçom, e evoluiu para agressão física.

A pancada recebida fez com que os pulmões de Brunão enchessem de sangue, impedindo a respiração. Cristhiano, à época, alegou ter agido em legítima defesa, negando ter aplicado golpes. Ele praticava jiu-jítsu.

A primeira condenação de Cristhiano ocorreu em novembro de 2017, quando foi sentenciado a 17 anos e seis meses de prisão por homicídio duplamente qualificado. Após recursos da defesa, a pena foi reduzida. Em um novo julgamento em 2021, a condenação definitiva foi de 10 anos em regime fechado.

Histórico de agressões e mudança de vida

Cristhiano já possuía um histórico de agressões antes do crime na Valley. Em 2009, ele teria agredido um homem em um evento, segundo relatou outra vítima. Após o assassinato de Brunão, Cristhiano abandonou a carreira jurídica e se dedicou à gastronomia, tornando-se chef de cozinha.

Em entrevista concedida ao Campo Grande News em 2015, ele contou sobre sua trajetória na culinária, desde lavar pratos até se tornar cozinheiro. O trabalho na cozinha se tornou uma forma de lidar com o trauma e a situação. “Uma válvula de escape, uma coisa que me ajudou muito foi a minha comunidade”, disse na época.

Ele admitiu ter “bebido muito e saído muito” antes do crime, e considerou o caso um alerta. “Eu não tive intenção nenhuma de matar e nem de brigar. Hoje entendo que tinha que acontecer, não a tragédia. Mas agradeço, Deus me tornou uma pessoa bem melhor”, afirmou.