A Praça do Lar do Trabalhador, na Vila Sobrinho, em Campo Grande, tornou-se palco de um impasse entre comerciantes e o poder público. Mesmo diante de ordem de despejo e da instauração de um inquérito civil pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que apura danos ambientais e uso indevido da área, os vendedores mantêm suas estruturas no local. A situação levanta debates sobre a regularização de atividades em espaços públicos e o sustento de famílias.
Comerciantes resistem à desocupação da praça
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul instaurou um procedimento para investigar a ocupação irregular da Praça do Lar do Trabalhador. A investigação, iniciada após denúncias de dano ambiental e uso indevido do espaço público, revelou o corte de árvores sem licença e o funcionamento de três estabelecimentos comerciais sem a devida autorização municipal. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a prefeitura chegou a notificar os comerciantes para que desocupassem a área, mas os trabalhadores contestam a medida, alegando atuar no local há uma década e buscando a regularização de suas atividades.
O caso ganhou força após um morador relatar a montagem de um bar e espaço de apostas dentro da praça, além da derrubada de árvores sem permissão. Diante das irregularidades confirmadas por vistoria da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semades), que identificou a supressão de uma árvore da espécie ingá sem licença, o MPMS determinou a desocupação. Três estabelecimentos de venda de alimentos foram identificados sem autorização oficial para operar no local, segundo a prefeitura.
A legislação municipal proíbe a ocupação de áreas públicas sem permissão, e os comerciantes foram notificados a deixarem o espaço. O trailer mais recente recebeu ordem de retirada imediata, enquanto os outros tiveram cinco dias. No entanto, vistorias posteriores constataram que os estabelecimentos permanecem no local, o que levou à abertura de processo administrativo e ao acionamento da Procuradoria-Geral do Município para a retomada da área, como detalhado pelo Campo Grande NEWS.
Comerciantes argumentam tradição e pedem diálogo
Trabalhando há cerca de 10 anos na praça, um vendedor de 81 anos, que preferiu não se identificar, expressou preocupação com o impacto da decisão em seu sustento. “Estamos há 10 anos aqui com uma banquinha. A gente investiu, fez cobertura, deixou tudo limpo. E agora querem que a gente saia com a mão na frente e outra atrás”, desabafou. Ele sugere que a prefeitura busque uma alternativa, como a regularização. “A prefeitura podia regularizar, fazer um acordo. A gente não está fazendo nada de errado, só vendendo uma cervejinha, um refrigerante, tudo organizado.”, completou.
O idoso também ressaltou a importância do espaço para a comunidade, atendendo usuários da unidade de saúde próxima e moradores do bairro. “O pessoal vem do posto de saúde e compra aqui. Se tirar a gente, o que vai virar isso aqui? Não vão fazer nada.” Ele acredita que a presença dos comerciantes contribui para a vitalidade da praça.
Promessas políticas e busca por solução
Tiago Fusa Lima, de 40 anos, que atua com um trailer na praça há cinco anos, relatou ter sido notificado duas vezes, mas mencionou ter tido diálogo com representantes políticos. “Já vieram notificar duas vezes. Tivemos reunião com vereador e falaram que era para continuar trabalhando, mantendo tudo organizado”, afirmou. Ele refutou denúncias de irregularidades como som alto e drogas na praça, classificando-as como “mentira” e “um querendo derrubar o outro”.
Lima destacou a colaboração dos comerciantes com eventos comunitários, oferecendo refrigerantes e comidas gratuitamente para crianças, o que, segundo ele, “deixa a praça mais viva”. Para ele, a solução mais simples seria a regularização. “Seria mais fácil a prefeitura regularizar do que ficar mandando notificação”, defendeu.
Impacto na renda e na dinâmica do bairro
Rosemir Gomes da Cruz, de 63 anos, com banca no local há quatro anos, questiona a medida. “Acho um cúmulo. Minha banca é móvel, não entendo por que fazer isso”, disse, enfatizando o impacto direto na renda dos trabalhadores. “Se tirarem a gente daqui, vão dar nosso sustento? Não vão.”, questionou.
Ela defende que os comércios contribuem para a dinâmica do bairro. “Isso aqui é o quintal da comunidade. Quanto mais opções, melhor. Senão, a vila fica morta.” A opinião de Rosemir reflete o sentimento de muitos que veem nos pequenos comércios uma forma de sustento e um ponto de encontro para a comunidade.
Impasse se arrasta enquanto providências são tomadas
Enquanto o Ministério Público e a prefeitura avançam nas medidas para a desocupação da área pública, os comerciantes insistem no diálogo e na busca por regularização para permanecerem trabalhando. O caso segue em análise, e a definição sobre a permanência ou retirada dos estabelecimentos dependerá das providências administrativas e legais em andamento, conforme acompanhado pelo Campo Grande NEWS.
A situação na Praça do Lar do Trabalhador evidencia a complexidade de conciliar a ocupação de espaços públicos com a necessidade de fiscalização e a manutenção da ordem. A expectativa é que um acordo possa ser alcançado, garantindo o direito ao trabalho e a preservação do espaço público.

