A coleta seletiva em Campo Grande atingiu um marco importante, com quase metade dos domicílios aderindo ao serviço. No entanto, por trás desse avanço, existem desafios estruturais que colocam em risco a segurança dos trabalhadores e a eficiência do processo. O Ministério Público Estadual (MPMS) abriu dois procedimentos administrativos para apurar a gestão da Solurb, concessionária responsável pela limpeza urbana na capital, focando tanto nas condições dos barracões de triagem quanto nas estratégias para aumentar a participação da população.
O primeiro procedimento investiga as precárias condições de três dos sete barracões da Unidade de Triagem de Resíduos (UTR) no Parque Lageado. Uma vistoria recente revelou que a estrutura aberta e a drenagem ineficiente expõem os trabalhadores a riscos, especialmente em dias de chuva, comprometendo a segurança e a qualidade do trabalho. O segundo procedimento visa acompanhar as ações educativas da Solurb para impulsionar a adesão à coleta seletiva, que, apesar de ter crescido significativamente desde 2018, ainda enfrenta obstáculos como os efeitos da pandemia e a ação de atravessadores.
Condições de trabalho em barracões geram preocupação
A vistoria realizada pelo MPMS em fevereiro deste ano detalhou as condições preocupantes em três dos sete barracões da UTR da Solurb no Parque Lageado. A estrutura, descrita como muito alta e aberta, expõe os trabalhadores tanto ao sol intenso quanto às chuvas. Essa vulnerabilidade se agrava em períodos chuvosos, quando a água invade os barracões, molhando os materiais e inviabilizando as operações.
O risco é ainda maior devido à presença de esteiras e maquinários elétricos. Mesmo sem fios desencapados visíveis, os cooperados relatam o **medo de choques elétricos**, principalmente quando trabalham com os pés molhados. A presidente da Cooperativa Novo Horizonte, Hirlane, informou ao MPMS que os colaboradores trabalham com insegurança, o que leva à falta de funcionários em dias chuvosos devido à ausência de condições adequadas para o trabalho.
O relatório técnico aponta a **necessidade urgente de melhorias estruturais e operacionais**. As recomendações incluem adequações na cobertura, vedação lateral, sistema de drenagem e um ambiente seguro para o uso dos maquinários, visando garantir condições dignas e seguras aos cooperados. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o MPMS notificou a Solurb em 25 de fevereiro, solicitando manifestação sobre o caso em 15 dias, um passo crucial para a resolução dessas questões, de acordo com o Campo Grande NEWS.
Adesão à coleta seletiva cresce, mas enfrenta desafios
Um estudo da própria Solurb, que serviu de base para o segundo procedimento administrativo do MPMS, revelou que a adesão à coleta seletiva em Campo Grande atingiu **49,77%**. Essa taxa representa a porcentagem de imóveis com acesso ao serviço que efetivamente separam o lixo reciclável para coleta. A análise, realizada entre 1º e 21 de janeiro, avaliou 161.026 imóveis.
O índice de adesão demonstra uma evolução significativa desde 2018, quando a Solurb se comprometeu a acompanhar a participação da população e desenvolver ações educativas. Naquele ano, a adesão inicial era de apenas 13,59%. No entanto, fatores como a **pandemia de COVID-19** e a atuação de “atravessadores” – pessoas que coletam o material reciclável das calçadas antes da passagem do caminhão oficial – impactaram o crescimento esperado.
A empresa tem investido em campanhas de conscientização, incluindo ações em redes sociais, palestras e eventos presenciais, buscando educar a população sobre a importância da reciclagem. Apesar desses esforços, a Solurb informou ao Campo Grande NEWS que ainda não se manifestará sobre os procedimentos abertos pelo MPMS, pois não teve acesso formal aos detalhes das investigações.
O futuro da coleta seletiva em Campo Grande
A alta taxa de adesão à coleta seletiva é um indicativo positivo do engajamento da população de Campo Grande. Contudo, os problemas estruturais nas unidades de triagem representam um obstáculo sério que precisa ser superado com urgência. A segurança e o bem-estar dos trabalhadores cooperados devem ser prioridade, assim como a otimização do processo para maximizar a recuperação de materiais recicláveis.
A atuação do Ministério Público Estadual é fundamental para garantir que a Solurb tome as medidas necessárias para sanar as deficiências apontadas. A combinação de infraestrutura adequada e campanhas educativas eficazes é a chave para **aumentar ainda mais a adesão à coleta seletiva** e consolidar Campo Grande como referência em gestão de resíduos sólidos. A transparência e a colaboração entre a concessionária, os órgãos fiscalizadores e a sociedade serão essenciais para o sucesso contínuo deste importante serviço.

