A chuva torrencial que castigava Campo Grande na última segunda-feira (13) não impediu a ação de equipes da Agência Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários (EMHA) e da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Moradores de uma área ocupada no Jardim Campo Nobre foram surpreendidos pela chegada dos agentes, que iniciaram a remoção de estruturas erguidas no local. A operação atingiu tanto construções inacabadas quanto famílias que já haviam se estabelecido na região, classificada pela Prefeitura como área pública. A situação gerou revolta e desespero entre os desalojados, que alegam não ter para onde ir.
Moradores relatam truculência e falta de amparo
Cássio Borges, de 46 anos, que reside no local há seis meses, presenciou a chegada das equipes. Segundo ele, os agentes se identificaram e imediatamente começaram a demolir construções que ainda estavam em andamento. Os moradores que acompanhavam a operação foram orientados a retirar seus pertences às pressas, sob chuva.
“Eles chegaram quebrando tudo, não tinham autorização, disseram que não precisavam de mandado, de ordem de despejo. Estava chovendo e queriam que as famílias e as crianças saíssem das casas debaixo de chuva”, relata Cássio, visivelmente abalado. Ele lamenta a situação e explica que, assim como seus vizinhos, muitos não possuem condições financeiras para arcar com aluguéis, nem mesmo para reconstruir suas moradias em outro local.
A apreensão era palpável no local. “Quando chegamos estava desocupado, era tudo um matagal. Ontem a gente ‘tava’ acuado. Eles vieram com a polícia aqui, então ficamos acuados. Disseram que era pra gente tirar nossas coisas, mais ‘i’amos’ colocar onde? Ia deixar na rua? A gente não tem pra onde ir, não tem dinheiro para aluguel, não tem nem como construir uma casa direito”, argumenta outro morador, que preferiu não se identificar.
A presença da GCM no local, segundo os relatos, aumentou a sensação de impotência dos moradores, que se sentiram encurralados pela ação conjunta dos órgãos públicos. A falta de um local para onde ir e a impossibilidade de arcar com os custos de aluguel agravam ainda mais a situação de vulnerabilidade das famílias atingidas.
Prefeitura alega regularidade e aponta para programas habitacionais
Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Campo Grande, por meio da EMHA, emitiu uma nota oficial sobre a ação. A administração municipal afirmou que as equipes estiveram em uma área pública no Jardim Campo Nobre, onde foram identificadas estruturas em fase de construção e sem ocupação, as quais foram removidas.
“Nos casos em que havia ocupação caracterizada como moradia, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Gestão Urbana (Semadur) realizou a notificação dos ocupantes, concedendo prazo de cinco dias para desocupação voluntária”, informou a nota, conforme divulgado pelo Campo Grande NEWS.
A Prefeitura reforçou que a ocupação irregular de área pública é passível de medidas administrativas. Segundo o comunicado, o acesso à habitação de interesse social ocorre por meio de processos regulares e critérios estabelecidos em programas habitacionais. O Campo Grande NEWS checou que, para as famílias desalojadas, a falta de alternativas imediatas é a principal preocupação.
A administração municipal ressalta que a política habitacional do município busca atender às famílias em situação de vulnerabilidade, mas enfatiza a importância de seguir os trâmites legais para a aquisição de moradias. A EMHA, conforme o Campo Grande NEWS apurou, tem um cadastro para seleção de beneficiários de programas de habitação social, mas os critérios de seleção e a disponibilidade de unidades são fatores determinantes.
A situação no Jardim Campo Nobre expõe o complexo desafio da gestão pública em conciliar a necessidade de ocupação de áreas públicas com o direito à moradia digna. Enquanto a Prefeitura defende a legalidade de suas ações, os moradores clamam por soluções emergenciais e apoio para não ficarem desamparados, especialmente em um cenário de condições climáticas adversas. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando o desdobramento deste caso.

