Moradores do Condomínio Bosque dos Ipês, em Campo Grande, vivem em estado de alerta constante. O motivo são os fortes odores, semelhantes a “carniça”, que emanam da empresa de reciclagem Berpram Reciclagem, vizinha de muro do condomínio. A situação se agravou a ponto de levar o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) a entrar com uma ação civil pública contra a empresa.
A convivência com a Berpram Reciclagem, que faz divisa de muro com o conjunto residencial, é marcada por ruídos excessivos e odores penetrantes. Esses transtornos acompanham as famílias desde a entrega do empreendimento imobiliário, em 2024. O subsíndico do condomínio, Mateus Santana, detalha o impacto na rotina dos cerca de 120 moradores.
Adaptações drásticas para fugir do incômodo
Santana relata que, no início, a situação era ainda pior, com o som de sirenes ecoando às 3h da manhã. O barulho contínuo dos equipamentos da empresa força adaptações dentro das casas, como a instalação de cortinas de estúdio para tentar abafar os ruídos, que ainda assim são ouvidos mesmo com as residências fechadas.
O cheiro forte impõe restrições diárias, obrigando os moradores a manterem portas e janelas fechadas e a utilizarem purificadores de ar. A fumaça e o vapor que chegam da indústria exalam um odor insuportável, levando as famílias a evitarem até mesmo estender roupas do lado de fora das casas.
As casas mais próximas da reciclagem permanecem desocupadas, com muitas pessoas evitando se mudar para o local. Alguns vizinhos já ergueram muros mais altos ou construíram paredes falsas com isolamento em drywall na tentativa de barrar a entrada do cheiro e do barulho. Os picos de poluição costumam ser mais intensos nos sábados, segundas e quartas-feiras.
Laudos confirmam irregularidades ambientais
A percepção dos moradores encontra respaldo em laudos técnicos reunidos nas investigações do MPMS. Fiscalizações da Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano (Planurb) e vistorias periciais registraram níveis de ruído de até 57,1 decibéis (dB), ultrapassando o limite de 55 dB permitido para zonas residenciais pela norma da ABNT.
Além do barulho, as inspeções constataram fumaça densa e odores descritos como semelhantes a carniça, chorume e matéria orgânica em decomposição. O relatório pericial do MPMS também apontou o descarte irregular de água proveniente da lavagem de peças diretamente sobre o solo. Esse líquido, de coloração esverdeada e com forte odor de decomposição, escoou pelas canaletas de drenagem pluvial em direção ao Parque Cônsul Assaf Trad.
A fiscalização também flagrou o armazenamento inadequado de lodo da Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) em área descoberta. Contêineres de frigorífico com restos orgânicos foram encontrados a poucos metros do muro residencial, assim como uma barreira vegetal ineficiente e com mudas mortas. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a situação demonstra um descaso com o meio ambiente e a saúde pública.
Sem acordo, MP aciona justiça
A busca por uma solução consensual se mostrou infrutífera. O subsíndico relatou que, mesmo após uma reunião com o CEO da empresa, onde foram apresentados os problemas e a empresa alegou ter feito alterações, a melhora não foi percebida pelos moradores. Diante da falta de avanços e da recusa da Berpram Reciclagem em assinar o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) proposto pela 26ª Promotoria de Campo Grande, o MPMS ajuizou a ação civil pública.
A ação exige o isolamento acústico imediato dos galpões, o confinamento adequado de resíduos, a correção no tratamento de efluentes e a reparação pelos danos morais e ambientais coletivos. A promotora Luz Marina Borges Maciel Pinheiro destacou na petição que as provas demonstram que a atividade da empresa impõe à coletividade restrições incompatíveis com o direito a um meio ambiente equilibrado e com a regular utilização dos imóveis residenciais.
O portal Campo Grande NEWS entrou em contato com a Berpram Reciclagem para obter um posicionamento sobre as medidas de mitigação das irregularidades e os motivos da recusa em assinar o TAC, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. A falta de resposta reforça a necessidade da intervenção judicial, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.

