Che Guevara em Campo Grande: A história de um encontro secreto revelada

Uma história até então pouco conhecida sobre a possível passagem de Ernesto Che Guevara por Campo Grande vem à tona através de um livro de memórias. Luis Mariano Samudio Gonzales, exilado político paraguaio de 90 anos que reside na cidade, afirma ter encontrado o revolucionário argentino em 1966, no Salão Joia, na Rua 14 de Julho. O relato, registrado por sua neta, a jornalista Laura Chudecki, no livro “Memória de uma vida”, adiciona uma nova camada à lenda da presença de Che Guevara na capital sul-mato-grossense, um episódio que sempre circulou, mas carecia de comprovação detalhada.

Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a narrativa de Samudio ganha força ao ser contextualizada historicamente. O ex-guerrilheiro, que foi preso e condenado pela Justiça Militar brasileira por sua atuação em uma organização clandestina contra a ditadura de Alfredo Stroessner no Paraguai, detalha o encontro em seu livro. A publicação, lançada pela neta, busca resgatar o passado militante de Samudio, que alternava a luta armada com a profissão de barbeiro.

A história, embora extraordinária, é apresentada com cautela pela neta. Laura Chudecki buscou preservar fielmente as lembranças do avô, que registrou suas memórias em 2017, já aos 81 anos. Antes de publicar, ela realizou verificações de datas e períodos históricos para garantir a veracidade do relato e questionou diretamente o avô sobre o encontro com Che Guevara. A resposta, segundo ela, foi categórica: “Tenho certeza”.

A credibilidade da memória de Samudio é reforçada por sua própria postura e pelo contexto histórico documentado. Laura descreve o avô como um homem de caráter firme, autêntico e politizado, que não falava sem conhecimento. A jornalista ressalta que, embora seja uma memória pessoal, ela foi registrada após cuidadosa apuração e questionamentos diretos, conferindo uma qualificação especial à origem do relato.

A Rota Clandestina e o Encontro no Salão Joia

Segundo o relato presente no livro, o encontro teria ocorrido no final do expediente do Salão Joia, quando dois homens bateram à porta. Um deles, com semblante familiar, era Ernesto Che Guevara, acompanhado por um jornalista argentino. Eles buscavam realizar a troca de alguns dólares. “Eu fiz o câmbio do dinheiro. Tinham notas de todos os lugares do mundo”, teria dito Samudio.

Luis Mariano Samudio nasceu em Caraguatay, no Paraguai, em 1936. Fugiu para o Brasil em 1960, fugindo de uma ordem de prisão. Chegou a Campo Grande com a intenção de seguir para a Bolívia, mas acabou se estabelecendo na cidade como cabeleireiro e músico. Em 1962, participou da fundação da FULNA (Frente Unida de Liberação Nacional), movimento guerrilheiro ligado ao Partido Comunista Paraguaio que lutava contra a ditadura de Stroessner.

A memória de Samudio conecta-se ao itinerário atribuído a Che Guevara em sua viagem clandestina para a Bolívia em novembro de 1966. Biógrafos registram que Che, utilizando passaporte falso e com a identidade fictícia de Adolfo Mena Gonzáles, um “economista uruguaio”, iniciou sua jornada de Cuba. O livro, contudo, não especifica a data exata do encontro em Campo Grande.

Contexto Histórico e Conexões Internacionais

O advogado Lairson Palermo, coordenador do Comitê Memória, Verdade e Justiça de Mato Grosso do Sul, declara que, embora não haja informações independentes que confirmem a hospedagem de Che no Hotel Gaspar, o relato de Samudio possui credibilidade. Palermo baseia sua convicção nas evidências acumuladas e no contexto histórico, apontando para a existência documentada de um grupo guerrilheiro paraguaio ligado a Cuba na região.

“Eu não sou assim: ‘Ah, não, ele está falando uma verdade’. Não é porque ele está falando, são os fatos que vêm até nós”, afirma Palermo ao Campo Grande NEWS. Ele considera a memória de Samudio uma hipótese que merece ser confrontada com documentos e testemunhos, especialmente diante da conexão com a articulação internacional de movimentos revolucionários de esquerda.

O relato de Samudio também estabelece uma ponte com a criação da OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade), que visava unificar e coordenar guerrilhas na América Latina. Figuras como Carlos Marighella, líder da ALN (Ação Libertadora Nacional), estiveram presentes na OLAS, reforçando a ideia de um projeto revolucionário mais amplo para o Cone Sul, no qual Che Guevara estava envolvido.

A Investigação do Ministério Público Federal

O Ministério Público Federal (MPF) tem buscado recuperar memórias sobre paraguaios perseguidos e exilados politicamente no Brasil. O “Caso dos Paraguaios (Operação Condor)” é um dos eixos de reconstrução histórica do MPF, que já incluiu Luis Mariano Samudio entre as vítimas. O trabalho conta com o apoio do Comitê Memória, Verdade e Justiça.

O Superior Tribunal Militar (STM) possui um processo extenso que registra a localização de uma estrutura de guerrilha na região da Ponte do Grego, em Bonito, em 1965, com acusações de contatos com Cuba e Moscou. Esse processo inclui Samudio e outros líderes guerrilheiros paraguaios, confirmando a presença e atuação de grupos organizados no então Sul do Mato Grosso.

A professora Carla Centeno, da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), que conhece Samudio há anos, considera o relato de grande credibilidade. Ela acredita que a possível passagem de Guevara por Campo Grande esteja ligada à expansão da revolução cubana. “Alguns pesquisadores chegaram à conclusão de que, se não há provas sobre a hospedagem no Hotel Gaspar, tem de botar um ponto final nessa história. Mas isso não existe em história!”, comenta Centeno.

Outro relato que corrobora a passagem de Che por Campo Grande vem do ex-presidente da UNE, Altino Dantas (falecido). Segundo o professor de história Paulo Edyr, também da UEMS, Altino teria contado que Che Guevara permaneceu dois dias em Campo Grande durante sua viagem para a Bolívia, um deles hospedado no Hotel Gaspar e outro na casa de um militante de esquerda não identificado. Conforme lembrou Edyr, Altino conviveu com Che em Cuba e integrou a escolta que garantiu a segurança do revolucionário argentino no trajeto até Campo Grande.

A memória de Samudio, registrada por sua neta, oferece um ponto de partida concreto para a investigação histórica, com nome, local, circunstância e um testemunho em primeira pessoa. O relato coloca o território do atual Mato Grosso do Sul em um provável plano de expansão da revolução cubana, conectando fatos documentados a experiências pessoais e ampliando a compreensão sobre um período crucial da história latino-americana, como bem aponta o Campo Grande NEWS em suas reportagens investigativas.