Centro Pop em Campo Grande: um divisor de águas entre receio e recomeço
A mudança do Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua) do centro de Campo Grande para o Bairro Amambaí tem gerado intensos debates, receios e até ações judiciais. A transferência, que já teve início, coloca em lados opostos a preocupação dos moradores locais com a segurança e a esperança de dias melhores para aqueles que vivem em situação de rua. A equipe do TopMídiaNews buscou ouvir diretamente os protagonistas dessa história: as pessoas em situação de rua.
É fundamental ressaltar, como nos confidenciou Nívea*, que nem todos em situação de rua estão ali por escolha ou por envolvimento com atividades ilícitas. “Nem todo mundo que está aqui usa drogas, ou é bandido, ou quer fazer mal para os outros. Muita gente está aqui porque não tem para onde ir, mas quer sair da rua e também quer um pouco de dignidade, mas sempre é julgada”, explicou. Essa percepção inicial de desconfiança, comum ao abordar pessoas em situação de vulnerabilidade, logo se dissipou quando a equipe demonstrou interesse em ouvir suas histórias.
Esperança de dignidade e segurança
Laura*, que se viu nas ruas após a morte da avó há cerca de um ano, compartilha sua experiência. Ela relata que, graças ao Centro Pop, conseguiu um emprego e saiu das ruas, mas a perda do trabalho a fez retornar. “Eu só não estou atrás dos serviços porque estou muito cansada. Mas eu queria ir logo trabalhar, ter a minha casa”, desabafa. A expectativa é que a nova unidade, com funcionamento previsto para 24 horas, ofereça melhores condições, como banheiros, alimentação e lavanderia, auxiliando na busca por um recomeço.
Ana*, cabeleireira venezuelana residente em Campo Grande há mais de um ano, vê na mudança uma oportunidade de maior segurança. Acredita que a fiscalização mais rigorosa nas novas instalações, com regras mais claras para os frequentadores, pode inibir a violência, inclusive contra mulheres. “A segurança é muito boa. O espaço é mais amplo. Não é tão pequeno. Mas também é sobre homens que agridem mulheres, homens que abusam de mulheres, até mesmo sexualmente”, pontua Ana, destacando a necessidade de proteção para os mais vulneráveis.
Laura também relata ter presenciado e vivenciado situações de violência, reforçando a esperança de que a nova unidade ofereça mecanismos de proteção, especialmente para mulheres, mães e crianças. Ana, por sua vez, há oito anos sem consumir drogas, desenvolve um projeto informal de corte de cabelo e serviços de beleza para pessoas em situação de rua, com o objetivo de ajudar e gerar renda, visando um futuro com mais autonomia.
Preocupações dos moradores e a visão oficial
Enquanto os usuários do Centro Pop vislumbram um futuro com mais dignidade, os moradores do bairro Amambaí expressam receio. Desde o anúncio da mudança, a proximidade com a Escola Municipal José Rodrigues Benfica tem gerado questionamentos sobre a segurança, especialmente para as crianças. Moradores já relatam problemas de insegurança e uso de drogas na região, temendo o agravamento da situação com a nova unidade. Conforme o Campo Grande NEWS checou em reportagens anteriores, a incerteza pairava sobre comerciantes e pais de alunos, que buscavam respostas sobre os impactos da instalação.
Em resposta a essas preocupações, o Conselho Municipal dos Direitos Humanos posicionou-se a favor do funcionamento da unidade, reconhecendo as apreensões, mas defendendo o direito ao atendimento da população em situação de rua. Foi apontada a necessidade de políticas integradas envolvendo assistência social, saúde, habitação, trabalho, educação, segurança e zeladoria. A prefeitura, em nota enviada ao TopMídiaNews, afirmou que a nova unidade oferecerá salas de atendimento específicas, oficinas, refeitório, lavanderia e outras comodidades. Além disso, garantiu a intensificação das rondas de segurança e o monitoramento do bairro pela Guarda Civil Metropolitana, destacando que o Serviço Especializado em Abordagem Social já atua na área há mais de um ano.
Duas realidades em um mesmo cenário
A transferência do Centro Pop expõe um conflito de realidades. Para quem vive nas ruas, significa acesso a banho, comida, segurança e a chance de recomeçar. Para os moradores do Amambaí, a preocupação reside na segurança e na convivência no entorno de uma escola. As histórias ouvidas, no entanto, revelam que a expressão “pessoa em situação de rua” pode mascarar indivíduos que buscam superar adversidades e retomar uma vida digna. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a vontade de viver em paz e segurança é um anseio comum, tanto para quem está nas ruas quanto para quem reside em bairros estabelecidos.
A situação complexa exige diálogo e soluções integradas, onde a dignidade humana e a segurança pública caminhem juntas. O futuro do Centro Pop no Amambaí dependerá da capacidade de conciliar essas diferentes perspectivas e garantir um ambiente seguro e acolhedor para todos. Conforme o Campo Grande NEWS investigou, a busca por um equilíbrio é o principal desafio.

