Caps comem mal: pacientes internados têm apenas duas refeições por dia

Pacientes internados em Centros de Atenção Psicossocial (Caps) em Campo Grande estão recebendo apenas duas refeições diárias, almoço e jantar, servidas em marmitas. A carência de equipes especializadas na cozinha impede a preparação de lanches, deixando os pacientes sem essa refeição essencial. Adicionalmente, outros profissionais das unidades, como psicólogos e enfermeiros, foram proibidos de preparar os alimentos, sob alegação de desvio de função, conforme apurado pelo Direto das Ruas e divulgado pelo Campo Grande NEWS.

A situação, denunciada por servidores, aponta que ao menos três das sete unidades de Caps na capital – Vila Margarida, Guanandi e Álcool e Drogas IV – enfrentam a falta de pessoal para o preparo dos lanches. A orientação que proíbe psicólogos, enfermeiros e outros técnicos de assumirem a tarefa foi emitida pela Gerência da Rede de Atenção Psicossocial (Grap), vinculada à Secretaria Municipal de Saúde (Sesau). A Grap esclarece que o preparo de alimentos deve ser feito por profissionais de apoio ou nutrição, com treinamento específico em normas sanitárias e de biossegurança.

Servidores relatam que a ausência de substituição para uma funcionária afastada da cozinha levou à proibição de que outros assumissem a preparação dos lanches. A Grap, em comunicado, reforçou que a manipulação de alimentos não compete aos profissionais de saúde mental, diferenciando-a de oficinas terapêuticas de culinária, que têm caráter reabilitador e não podem suprir a necessidade contínua de refeições.

Proibição sem reposição gera conflito e pacientes sem lanches

A principal reclamação dos denunciantes é que a determinação da Grap não foi acompanhada da contratação ou realocação de novos profissionais para suprir a demanda culinária. Isso cria um impasse: os servidores são orientados a não realizar tarefas fora de suas atribuições, sob risco de punição, mas os pacientes continuam sem a cobertura adequada de alimentação. “Pelo documento, estamos proibidos e, se fizermos, poderemos ser punidos. Mas e o paciente internado? Fica com fome?”, questionou um dos denunciantes ao Campo Grande NEWS.

A falta de pessoal gerou divisões entre as equipes. Algumas unidades continuam preparando os alimentos, desobedecendo à orientação por receio de deixar os pacientes sem refeições, enquanto outras paralisaram a produção por medo de sanções administrativas. Pedidos de reposição de pessoal para as copas teriam sido feitos, mas não atendidos. A gestão chegou a mencionar o envio de profissionais através do Programa de Inclusão ao Mercado de Trabalho (Primt), mas isso não teria se concretizado.

Sesau promete solução e café da manhã em breve

Em resposta à denúncia, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) afirmou que a alimentação dos pacientes nas unidades de Caps é garantida por contrato com uma empresa especializada no fornecimento de refeições prontas, abrangendo almoço e jantar. Quanto à preparação de café da manhã e lanches, a secretaria declarou que está “providenciando a recomposição das equipes nas unidades que necessitam de profissionais com essas atribuições”.

A Sesau também informou que o fornecimento de café pela empresa contratada está sendo organizado e deve ser iniciado nos próximos dias. Essa medida visa normalizar o cardápio oferecido aos pacientes internados, assegurando que todas as refeições sejam adequadamente preparadas e distribuídas, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.

Oficinas Terapêuticas de Culinária não substituem alimentação

A orientação da Grap, conforme divulgado pelo Campo Grande NEWS, distingue claramente as refeições ordinárias das atividades terapêuticas. As oficinas de culinária, embora importantes para a reabilitação, promoção da autonomia e fortalecimento de vínculos sociais dos pacientes, não podem ser vistas como substitutas do trabalho contínuo de uma equipe responsável pela alimentação regular das unidades.

O documento esclarece que essas oficinas são “recursos terapêuticos pontuais e não se configuram, em hipótese alguma, como obrigação contínua da equipe assistencial para suprir o fornecimento de refeições ordinárias da unidade”. A gestão solicita que todos os servidores tomem ciência dessa diretriz, mediante assinatura de lista de ciência, reforçando a importância da clareza nas responsabilidades de cada um.

A situação expõe um desafio na gestão dos serviços de saúde mental, onde a falta de pessoal e a aplicação de normas podem impactar diretamente o bem-estar dos pacientes. Espera-se que a intervenção da Sesau resolva o impasse e garanta a alimentação adequada e completa para todos os internados nos Caps da capital.