Campo Grande, a renomada “Cidade Árvore do Mundo” por sete vezes consecutivas, ostenta uma impressionante arborização urbana com cerca de 175 mil árvores em suas calçadas. Contudo, a beleza e os benefícios dessa vegetação são constantemente testados pela força da natureza, especialmente durante tempestades. Entre 2023 e o presente ano, 3.702 ocorrências de quedas de árvores foram registradas pelo Corpo de Bombeiros, um número que, embora considerado baixo pela gestão municipal em relação ao total, exige atenção e planejamento contínuos.
Apesar do reconhecimento internacional, a cidade enfrenta um paradoxo: a exuberância de sua flora convive com a fragilidade de parte dela. Os temporais, principal vilão, foram responsáveis por 759 quedas apenas neste ano. A gerente de arborização da Semades, Dayane Zanela, destaca que, embora o número total de quedas seja proporcionalmente pequeno diante das 175 mil árvores, cada incidente representa um risco e uma oportunidade de aprendizado para aprimorar o manejo urbano.
“É um número baixo em relação ao todo, mas é claro que é algo que a gente tem que olhar. Tem que entender que temos um problema e a árvore, ela tem que passar a ser vista como uma infraestrutura da cidade, que precisa de manutenção, precisa de recursos públicos para fazer esse manejo”, ressalta Dayane Zanela, enfatizando a necessidade de encarar as árvores como elementos vitais da infraestrutura urbana, que demandam cuidados constantes e investimentos.
Um dos principais desafios apontados pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável (Semades) é a escolha adequada das espécies e dos locais de plantio. Uma herança do passado, onde espécies de grande porte foram plantadas em espaços incompatíveis, como a fícus, tem contribuído para o problema atual. A prefeitura tem trabalhado na substituição gradual dessas árvores consideradas inadequadas, buscando harmonizar a vegetação com o espaço urbano.
A população tem um papel crucial nesse cenário. A Semades disponibilizou o Manual de Arborização Urbana, um guia essencial que orienta sobre as espécies permitidas e os locais mais adequados para o plantio na Capital. Conforme o Campo Grande NEWS checou, este manual é uma ferramenta vital para garantir que novos plantios contribuam para a longevidade e segurança da arborização. A publicação, acessível online, visa educar e engajar os cidadãos na preservação do patrimônio verde da cidade.
Dayane Zanela reforça que a solução reside no plantio correto. “A melhor saída é o plantio correto da espécie correta. Só aí eu acho que a gente já consegue arrumar a situação daqui para frente. Se plantar a espécie correta, a tendência é esse problema ir diminuindo”, afirma a gerente. A escolha criteriosa das espécies, considerando o porte adulto e as características do local, é fundamental para evitar futuros problemas de incompatibilidade e risco de quedas.
O cuidado com as árvores não se limita ao plantio. Podas mal executadas representam outro fator de risco significativo. Segundo a Semades, muitas árvores que apresentam risco de queda possuem um histórico de podas inadequadas que comprometeram seu equilíbrio estrutural e sustentação. Intervenções incorretas podem desestabilizar a árvore, tornando-a mais vulnerável a ventos fortes e chuvas intensas.
Sinais de alerta como inclinação acentuada do tronco, raízes expostas ou levantadas e grandes cavidades no tronco devem ser observados pelos moradores. No entanto, a gerente Dayane Zanela pondera que cada árvore requer uma avaliação individualizada, levando em conta não apenas os sinais visíveis, mas também as condições específicas do local onde está plantada. A equipe técnica é responsável por essa análise detalhada.
A equipe de auditores fiscais ambientais da Semades, composta por apenas quatro profissionais, enfrenta uma demanda considerável. Eles são responsáveis por atender às solicitações da população, realizar vistorias preventivas, analisar projetos de grandes empreendimentos e investigar denúncias de supressão irregular de vegetação. A carga de trabalho é intensificada pelas cerca de 150 solicitações mensais de moradores, que podem envolver a vistoria de centenas de árvores.
Para facilitar o processo, a prefeitura disponibiliza um formulário online no site da Semades para solicitações de vistoria. O atendimento presencial também é uma opção na Central de Atendimento ao Cidadão. A gerente Dayane Zanela orienta que os moradores enviem fotos e informações detalhadas para auxiliar na triagem e priorização das situações de maior risco. O Campo Grande NEWS tem acompanhado de perto essas iniciativas, reforçando a importância da colaboração entre poder público e cidadãos.
Em um gesto de incentivo ao plantio correto, a prefeitura oferece mudas gratuitamente à população. Antes da entrega, a equipe da Semades avalia o local de plantio para indicar a espécie e o porte mais adequados, garantindo que o novo exemplar se desenvolva de forma saudável e segura. Essa ação demonstra o compromisso da gestão em expandir a arborização de maneira planejada e sustentável.
Um exemplo notório da força dos temporais ocorreu em 10 de setembro, quando a Capital registrou 344 quedas de árvores. A Defesa Civil informou que, no total, foram atendidas 603 ocorrências naquele dia, afetando todas as sete regiões de Campo Grande. Dados do Corpo de Bombeiros compilados pelo Campo Grande NEWS revelam que, entre 2023 e o presente ano, foram atendidas 3.702 ocorrências de quedas, com 961 em 2025, 757 em 2024 e 1.225 em 2023, evidenciando a recorrência do problema.
A maior parte dessas quedas ocorre durante ventanias e temporais, especialmente em árvores já danificadas ou com raízes comprometidas. Períodos de chuvas contínuas, que encharcam o solo, também aumentam a vulnerabilidade das árvores. A explicação técnica aponta para a combinação de fatores climáticos e condições fitossanitárias da planta como determinantes para a ocorrência das quedas.
Para Dayane Zanela, a solução não passa pela redução da arborização, mas sim por uma gestão integrada e consciente. “Ela faz parte da infraestrutura. Ela contribui para diversos benefícios, conforto térmico, retenção de poluentes do ar, até para a drenagem. Mas ela tem que ser olhada e tem que ter atenção à poda adequada, à espécie adequada em cada local”, conclui. A visão é clara: investir na arborização é investir na qualidade de vida e na resiliência da cidade.

