Candidaturas indígenas batem recorde em MS, mas eleitos não chegam

Candidaturas indígenas batem recorde em MS, mas eleitos não chegam

Mato Grosso do Sul registrou um número expressivo de 21 candidatos autodeclarados indígenas para as eleições gerais de 2026, um salto de 133% em comparação com os nove registrados em 2018. Este aumento significativo amplia a participação desses povos na disputa por cargos estaduais e federais. No entanto, esse crescimento ocorre após duas eleições consecutivas sem que nenhum candidato indígena analisado tenha conseguido um mandato.

Os dados, divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostram um crescimento constante: de nove registros em 2018, o número subiu para 11 em 2022 e alcançou 21 neste ano. Essa expansão na participação política indígena, contudo, ainda não se traduziu em vitórias eleitorais concretas nas últimas disputas.

Apesar do aumento geral, a distribuição das candidaturas entre os partidos não é uniforme. O Partido da Causa Operária (PCO) concentra quase metade dos registros, com dez candidatos. O Partido dos Trabalhadores (PT) aparece com três, enquanto PSOL e Agir têm dois cada. Outros partidos como PDT, PL, DC e PP registraram um candidato indígena cada.

Disputa por cadeiras na Câmara e no Executivo cresce

A maior mudança está na disputa pela Câmara dos Deputados. Mato Grosso do Sul viu o número de candidatos indígenas a deputado federal saltar de um em 2018 para nove em 2026. Já os registros para deputado estadual se mantiveram em oito em 2026, após terem passado de sete para oito entre 2018 e 2022.

Houve também avanço na disputa majoritária. A chapa do PCO apresenta Daniel Lemes concorrendo ao governo, com Silvia Benites como vice, e Valderi Garcia disputando o Senado, com Luciano Lemes como primeiro suplente. Todos se autodeclararam indígenas.

Daniel Lemes, professor do ensino fundamental, já havia concorrido a deputado estadual pelo PT em 2018, ficando como suplente. Anisio Guilherme, que disputou o Senado pelo PSOL em 2018, agora busca uma vaga de deputado federal pelo mesmo partido. Aguilera de Souza, que teve sua candidatura a deputado federal inapta em 2018, está registrado novamente para o mesmo cargo em 2026 pelo Agir.

É importante notar que os pedidos de candidatura apresentados neste ano ainda precisam ser julgados pela Justiça Eleitoral. Os dados analisados foram gerados em 16 de agosto e não refletem a situação definitiva de todos os candidatos.

Ameaças marcam o início da campanha indígena

O crescimento da participação política indígena ocorre em um cenário marcado por episódios de violência. Eliel Benites, candidato a deputado federal pelo PT sob o nome Eliel Kaiowá, registrou um boletim de ocorrência relatando ter recebido ameaças de morte pelas redes sociais. A mensagem, enviada no início oficial da campanha, continha uma grave ameaça.

O caso foi registrado na Polícia Civil como ameaça e crimes contra a honra. O perfil Campanha Indígena manifestou solidariedade ao candidato, classificando o episódio como violência política e cobrando investigação e responsabilização dos envolvidos, ressaltando que “a política é território indígena”.

Eliel Kaiowá, professor universitário, disputa pela primeira vez uma cadeira na Câmara dos Deputados. Ele é um dos sete candidatos indígenas que declararam ter ensino superior completo em 2026.

Aumento de mulheres e com ensino superior, mas sem mandatos

A quantidade de mulheres indígenas concorrendo também aumentou, embora elas ainda sejam minoria. Em 2018, apenas uma mulher estava entre os nove registros (11%). Em 2022, foram cinco de 11 (45%). Neste ano, são seis mulheres entre 21 candidatos, representando 29% do total. O pleito de 2022 foi o que apresentou maior equilíbrio entre homens e mulheres.

O número de candidatos com algum nível de formação superior também cresceu. Em 2018, cinco dos nove registros indicavam ensino superior (completo ou incompleto). Em 2022, foram quatro de 11. Agora, 11 dos 21 candidatos possuem formação superior.

Os perfis profissionais dos candidatos são variados, incluindo professores, servidores públicos, técnicos de enfermagem, comerciantes, empresários, produtores de espetáculos, trabalhadores rurais, estudantes, donas de casa, aposentados e trabalhadores da construção civil. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a diversidade de profissões reflete a crescente inserção desses indivíduos em diferentes setores da sociedade.

Histórico de suplências sem efetivação

O histórico das duas eleições anteriores revela um desafio persistente: nenhum dos candidatos indígenas analisados conseguiu conquistar um mandato. Em 2018, sete registros foram considerados aptos, com quatro terminando como suplentes e três não eleitos. Em 2022, dos 11 registros aptos, cinco ficaram como suplentes e seis não foram eleitos. A condição de suplente, vale ressaltar, não garante a posse ou o exercício do mandato.

Este cenário evidencia que o aumento das candidaturas ainda não se traduziu em representatividade indígena efetiva na Assembleia Legislativa ou na bancada federal de Mato Grosso do Sul. O desafio para 2026, segundo aponta o Campo Grande NEWS, vai além de apenas ampliar o número de nomes nas urnas, focando em transformar essa participação em votos suficientes para ocupar os espaços de decisão.

A busca por representatividade política é um caminho árduo, mas o recorde de candidaturas indígenas em Mato Grosso do Sul em 2026 sinaliza um movimento crescente e a determinação desses povos em lutar por seus espaços de direito. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando os desdobramentos desta importante jornada eleitoral.