Câncer de pulmão: 90% dos casos no Brasil são descobertos tarde demais

O câncer de pulmão, muitas vezes silencioso, tem se mostrado uma doença com prognóstico sombrio no Brasil. Dados recentes apontam que a grande maioria dos pacientes é diagnosticada em estágios avançados, quando as chances de cura são significativamente menores. Essa realidade alarmante levanta preocupações sobre o acesso a exames preventivos e a conscientização sobre os fatores de risco.

Segundo o oncologista Igor Morbeck, membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, entre 70% e 80% dos casos de câncer de pulmão no mundo são identificados em fases totalmente avançadas ou com metástase. No Brasil, a situação é ainda mais crítica, com quase 90% dos diagnósticos ocorrendo em estágios 3 ou 4 da doença.

Essa realidade expõe gargalos no sistema de saúde e a necessidade urgente de políticas públicas mais eficazes para o rastreamento e diagnóstico precoce. Conforme informação divulgada pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, a plataforma Data Câncer 360º analisou 14.145 diagnósticos registrados no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2023. A pesquisa revelou que 89,6% dos pacientes com estadiamento identificado foram diagnosticados nos estágios 3 (2.015 pessoas) ou 4 (5.252), quando as chances de cura são mínimas.

Apenas 698 pacientes (10,4%) descobriram o tumor nas fases iniciais, sendo 307 no estágio 1 e 391 no estágio 2. O oncologista Igor Morbeck atribui esse cenário preocupante ao aumento da exposição a fatores de risco, como tabagismo, sedentarismo, obesidade e má alimentação, que tornam a população brasileira cada vez mais suscetível ao desenvolvimento da doença. O câncer de pulmão é um dos mais incidentes no país.

Fatores de risco e a importância da tomografia anual

O especialista enfatiza que todas as pessoas, especialmente aquelas com fatores de risco como tabagistas e ex-tabagistas, devem realizar uma tomografia anual. Ele ressalta que esse exame está disponível no SUS e é fundamental para a detecção precoce.

No entanto, Morbeck aponta a ausência de um programa de rastreamento específico para o câncer de pulmão como um grande obstáculo. A doença, por ser silenciosa, muitas vezes só apresenta sintomas quando já está avançada. Tosse, falta de ar, ou quadros que simulam infecções como bronquite, asma ou gripe, levam ao adiamento do diagnóstico.

O estudo do Instituto Lado a Lado pela Vida reforça o alerta: quase 90% dos pacientes que chegam ao SUS com suspeita de câncer de pulmão já se encontram em estágios muito avançados. Essa taxa, que já é crítica mundialmente, atinge patamares alarmantes no Brasil, evidenciando os desafios de acesso ao sistema de saúde.

Políticas públicas e a vulnerabilidade dos pacientes

Igor Morbeck defende a prevenção como a melhor estratégia, especialmente para tabagistas ativos e aqueles que pararam de fumar nos últimos 15 anos. Sociedades médicas brasileiras, como as de cardiologia e oncologia, endossam esse alerta. Contudo, o oncologista lamenta a falta de políticas públicas direcionadas para a prevenção e o rastreamento.

Os pacientes, por consequência, tornam-se vulneráveis, buscando os serviços de saúde apenas quando os sintomas se manifestam. O atraso no diagnóstico, quando finalmente procuram a atenção primária, agrava ainda mais a situação. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a qualidade da informação oncológica pública também é um ponto de atenção, com 40% dos casos não apresentando informações sobre o tamanho do tumor ou a presença de metástase.

Um simples raio X de tórax, muitas vezes realizado em postos de saúde, é inadequado para a avaliação do câncer de pulmão. Em muitos casos, pacientes com a doença em estágio inicial recebem medicamentos para infecções, o que pode mascarar os sintomas e permitir que a doença progrida. Essa realidade é comum em todo o Brasil, com destaque para as regiões Sudeste e Sul, que apresentam maior incidência.

O tabagismo, incluindo o uso de cigarros eletrônicos por jovens, continua sendo o principal fator de risco, viciando rapidamente e abrindo portas para problemas futuros graves. Uma campanha de conscientização, promovida pelo Ministério da Saúde com agentes de saúde, poderia agendar tomografias em famílias com fatores de risco, como o número de tabagistas, para garantir um diagnóstico precoce e, consequentemente, economizar recursos significativos para o sistema de saúde, como aponta o Campo Grande NEWS.

A esperança na detecção precoce e o exemplo de Mônica

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que entre 2026 e 2028 surjam 35.380 novos casos de câncer de pulmão anualmente no Brasil. Em 2024, a doença foi responsável pela morte de 32.555 pessoas no país. Embora o tabagismo seja responsável por cerca de 85% dos casos, a poluição atmosférica, exposição ocupacional a agentes químicos, predisposição genética e doenças pulmonares crônicas prévias também exigem uma estratégia de rastreamento mais ampla, conforme assegura o Instituto Lado a Lado pela Vida.

A campanha “Respire Agosto”, criada pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, busca chamar a atenção para a doença. Mônica Chain Montone, paciente que enfrentou o câncer de pulmão em 2008 e teve uma recidiva em 2010, é um exemplo de superação e defende a necessidade de políticas públicas para exames preventivos em tabagistas e ex-tabagistas. Ela foi diagnosticada em fase inicial, o que garantiu uma probabilidade de cura de 94% em seu primeiro diagnóstico.

Após a recidiva, Mônica decidiu se tornar um exemplo de que a cura é possível, mesmo diante de um cenário desafiador. Atualmente, ela realiza acompanhamento anual com tomografia de baixa radiação no Hospital A.C.Camargo. Sua história reforça a importância da conscientização, especialmente durante o mês de agosto, dedicado à prevenção do câncer de pulmão, e serve como um alerta para a população, conforme o Campo Grande NEWS destacou em suas reportagens.