Um levantamento recente revela que Campo Grande concentra mais da metade da população em situação de rua em Mato Grosso do Sul. Dos 1.962 indivíduos registrados no Cadastro Único (CadÚnico) em 2024, 54% residem na Capital, totalizando 1.070 pessoas. Este dado, divulgado pela OBPopRua/Polos-UFMG, evidencia a forte concentração da vulnerabilidade social nos grandes centros urbanos do estado.
O perfil dessa população é alarmante e reflete desigualdades sociais profundas. Predominantemente masculino, com 90,8% dos registros, e majoritariamente negro, representando 71,2% do total, os dados reforçam a interseção entre raça, gênero e exclusão social. A maioria é adulta, com as faixas etárias de 18 a 39 e 40 a 59 anos concentrando mais de 92% dos registros.
Esses números, baseados no CadÚnico, ferramenta essencial para políticas públicas, indicam que a realidade pode ser ainda mais complexa, pois parte da população em situação de rua pode não estar cadastrada. A atualização dos dados, embora com uma parcela significativa revisada nos últimos 12 meses, ainda apresenta desafios, com cerca de 16% dos registros desatualizados entre 25 e 36 meses, o que pode dificultar o planejamento de ações mais eficazes.
O estudo, conforme o Campo Grande NEWS checou, também aponta que quase metade dos cadastrados possui ensino fundamental incompleto, e um percentual relevante, 22%, declara ter alguma deficiência, o que amplia os desafios para o acesso a serviços e inclusão.
Perfil detalhado da população em situação de rua em MS
Os dados de 2024 consolidam tendências já observadas em 2023. No ano anterior, 1.712 pessoas estavam cadastradas, com um perfil semelhante: 1.566 homens e 146 mulheres. A predominância masculina e o recorte racial marcante já indicavam a vulnerabilidade de pessoas negras, que representavam 71% do total naquele ano.
A análise racial é um ponto crítico. Em 2024, 71,2% da população em situação de rua em Mato Grosso do Sul se autodeclara negra. Pessoas brancas representam 26,9%, seguidas por indígenas (1,27%) e amarelas (0,41%). Esses índices, como aponta o Campo Grande NEWS, estão alinhados a outros indicadores nacionais que evidenciam a desigualdade racial.
O Atlas da Violência, por exemplo, revela que ser negro no Brasil aumenta em 2,7 vezes o risco de ser vítima de homicídio. O Censo 2022 mostrou que pretos e pardos somam 72,9% dos moradores de favelas, e a PNAD Contínua aponta taxas de desemprego superiores para esses grupos em comparação a brancos.
Baixa escolaridade e deficiências agravam o quadro
A baixa escolaridade é outro fator de destaque. Quase metade das pessoas em situação de rua em Mato Grosso do Sul (49,3%) tem o ensino fundamental incompleto. Apenas 2,5% possuem ensino superior, e 9,2% não têm instrução formal. Essa realidade dificulta o acesso ao mercado de trabalho e a programas de reinserção social.
Adicionalmente, 22% das pessoas registradas possuem algum tipo de deficiência. Essa condição impõe barreiras extras para o acesso a políticas públicas, serviços de saúde e oportunidades de inclusão social, tornando a situação ainda mais delicada para esse grupo.
Campo Grande lidera, seguida por Dourados e Três Lagoas
A concentração da população em situação de rua em Campo Grande é acentuada, com 54,5% do total estadual. Em seguida, Dourados aparece com 15,6% e Três Lagoas com 8,36%. Essas três cidades reúnem a maior parte dos registros no estado, evidenciando a necessidade de políticas focadas nos grandes centros urbanos.
Outras cidades com registros incluem Naviraí (59 pessoas), Cassilândia (54), Coxim (34), Ponta Porã (22), Sidrolândia (20), Ribas do Rio Pardo (18) e Nova Andradina (17). A distribuição geográfica, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, mostra que a urbanização e a concentração populacional influenciam diretamente a dimensão do problema.
Censo em Campo Grande busca dados para políticas públicas
Diante desse cenário, a Prefeitura de Campo Grande iniciou em 2025 um censo específico para a população em situação de rua. O projeto, liderado pela Secretaria de Assistência Social (SAS) em parceria com a Defensoria Pública e a Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos (Sead), visa fornecer dados concretos para aprimorar as políticas públicas voltadas para esse público.
A expectativa é que este mapeamento detalhado ajude a direcionar ações governamentais, permitindo uma atuação mais precisa para auxiliar as pessoas a superarem a vulnerabilidade social. O censo envolve uma comissão interinstitucional com representantes da prefeitura, governo estadual, Defensoria Pública, Ministério Público, IBGE e OSC Águia Morena, além de outras entidades da sociedade civil.
Atualmente, o Registro Mensal de Atendimento (RMA) é o principal instrumento para coletar dados na Capital, fornecendo informações sobre o número de usuários atendidos, abordagens e o perfil das pessoas. A iniciativa do censo representa um passo importante para entender e combater a complexa realidade da população em situação de rua em Mato Grosso do Sul.

