Campo Grande está na vanguarda da sustentabilidade com um projeto inovador que utiliza inteligência artificial para otimizar a coleta de óleo de cozinha usado. A iniciativa, desenvolvida com participação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e da startup Óleoponto, promete não só transformar um resíduo problemático em matéria-prima para biodiesel, mas também incentivar a participação popular através de um sistema de recompensas e rastreamento digital. A cidade gera cerca de 250 mil litros de óleo por mês, um volume que, se descartado incorretamente, representa um sério risco de contaminação para os recursos hídricos.
IA impulsiona coleta de óleo em Campo Grande
Pesquisadores da UFMS desenvolveram um sistema de inteligência artificial, batizado de ÓleoBot, com o objetivo de aprimorar a logística da coleta de óleo de cozinha usado em Campo Grande. A tecnologia combina totens de autoatendimento, rastreamento digital e um sistema de recompensas para os usuários. O material coletado é destinado à produção de biodiesel, agregando valor a um resíduo que, de outra forma, poderia poluir rios e redes de esgoto. Uma máquina já em operação recolheu mais de 700 litros, evitando a contaminação de aproximadamente 18 milhões de litros de água.
O projeto é fruto de uma parceria entre a Faculdade de Computação (Facom) da UFMS e a startup Óleoponto. A solução integra totens de autoatendimento, onde os moradores podem descartar o óleo, a uma plataforma digital que monitora todo o processo, desde a entrega pelo consumidor até a destinação final. Essa abordagem visa tornar a coleta residencial mais eficiente, rastreável e escalável, convertendo um passivo ambiental em uma valiosa matéria-prima e gerando dados importantes para políticas públicas.
Segundo o professor da Facom, Dionísio Machado Leite Filho, que coordena o desenvolvimento do ÓleoBot, a ferramenta de IA terá duas funções cruciais: prever o volume de óleo a ser depositado em cada ponto de coleta nos próximos 30 dias e calcular as rotas mais eficientes para as empresas responsáveis pelo recolhimento. Essa otimização logística visa substituir as coletas periódicas por um sistema proativo, que antecipa a necessidade de esvaziamento dos reservatórios.
Totens inteligentes e recompensas para o consumidor
Para o cidadão, o processo de descarte é simplificado. Os totens de autoatendimento, instalados em locais de grande circulação como supermercados, recebem o óleo usado. Ao depositar o material, o equipamento realiza a pesagem e registra a quantidade entregue. O usuário não precisa baixar nenhum aplicativo; após o descarte, recebe via WhatsApp um resumo do histórico de suas entregas, o saldo de pontos acumulados e indicadores ambientais relacionados à sua contribuição.
Os pontos acumulados podem ser trocados por benefícios oferecidos por empresas parceiras, como, por exemplo, óleo de soja novo. Na operação atual, cerca de 80% dos cupons emitidos foram convertidos em recompensas, demonstrando o sucesso da estratégia para engajar a população. A startup Óleoponto, segundo seu fundador e CEO, Zadrik José Pereira Mendonça, foca na tecnologia e rastreabilidade, enquanto a coleta física em Campo Grande é realizada pela Katu Oil, empresa licenciada para tal atividade.
Impacto ambiental e dados para gestão pública
A plataforma desenvolvida não apenas organiza a coleta, mas também gera importantes indicadores ambientais. O volume de óleo recolhido, a quantidade estimada de água preservada e as emissões de CO₂ evitadas são dados que podem ser utilizados por empresas e pelo poder público para gestão ambiental, saneamento e elaboração de relatórios. Conforme dados citados pelos responsáveis pelo projeto, um litro de óleo descartado incorretamente pode contaminar até 25 mil litros de água, evidenciando a urgência e a importância da iniciativa.
O reaproveitamento do óleo usado ganha ainda mais relevância com as novas diretrizes para o setor de biocombustíveis. Uma portaria interministerial estabelece o uso mínimo de óleo residual na produção de biocombustíveis a partir de 2028, impulsionando a necessidade de cadeias de coleta organizadas e eficientes. Para os desenvolvedores, a tecnologia apresentada pode ser crucial para estruturar essa cadeia e maximizar o aproveitamento do resíduo na produção de biodiesel.
O projeto já recebeu reconhecimento, conquistando o terceiro lugar no Desafio Inovação Pantanal Tech 2026. Essa premiação deve impulsionar a próxima fase de desenvolvimento, com foco no aprimoramento dos algoritmos do ÓleoBot e na validação da ferramenta em uma escala ainda maior. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a iniciativa demonstra o potencial da tecnologia para solucionar desafios ambientais urbanos, transformando resíduos em recursos e contribuindo para um futuro mais sustentável na capital sul-mato-grossense.
A UFMS e a Óleoponto seguem trabalhando para expandir a cobertura do sistema. Uma proposta enviada à Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) prevê a instalação de 15 totens inteligentes adicionais em Campo Grande, o que, se aprovado, representará um salto significativo na capacidade de coleta e na conscientização ambiental da população. O Campo Grande NEWS acompanha de perto os avanços deste projeto que promete ser um marco na gestão de resíduos na cidade.
A capacidade de prever o volume de resíduos e otimizar rotas logísticas é um avanço que pode ser replicado em outras cidades, combatendo a poluição da água e promovendo a economia circular. O projeto, que já evita emissões de mais de 1,3 mil quilos de CO₂ por volume coletado, reforça a importância de unir tecnologia e sustentabilidade para enfrentar os desafios ambientais contemporâneos. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a colaboração entre academia e iniciativa privada tem se mostrado um caminho promissor para soluções inovadoras e de impacto social.

