Campo Grande: como a cidade verde evita virar pomar desordenado

Mangueiras carregadas, amoreiras em praças e a expectativa pela guavira são cartões postais de Campo Grande. A cidade, reconhecida mundialmente por sua arborização urbana, equilibra a tradição com frutíferas a um complexo trabalho técnico para evitar riscos sanitários e de segurança. A legislação municipal, que proíbe o plantio de árvores frutíferas em calçadas, é um dos pilares para manter a fama de cidade verde sem se tornar um pomar desordenado.

Campo Grande: o desafio de ser a cidade verde sem virar pomar desordenado

A relação afetiva dos campo-grandenses com as árvores frutíferas é inegável. Mangueiras, amoreiras, goiabeiras e tantas outras espécies compõem a paisagem urbana, despertam memórias e movimentam redes sociais, especialmente durante a época de safra. Essa forte conexão com a natureza urbana foi evidenciada com o mapa colaborativo de pomares lançado pelo Campo Grande News, que rapidamente engajou moradores na partilha de locais e informações sobre as árvores carregadas.

No entanto, por trás da beleza e da abundância de frutos, existe um trabalho técnico minucioso. O planejamento urbano, o manejo ambiental, a drenagem, a escolha criteriosa de espécies e até a prevenção de doenças são fundamentais para manter o equilíbrio. Conforme divulgado pelo Campo Grande News, a cidade possui mais de 185 mil árvores em seu sistema viário e ostenta o título de referência mundial em arborização urbana há sete anos consecutivos.

Apesar do carinho da população pelas frutíferas, a legislação municipal, como explica o auditor fiscal de meio ambiente e biólogo da Semades, Marcel Rodrigo Cavallaro, proíbe o plantio dessas espécies em calçadas. O objetivo é mitigar riscos sanitários, como a leishmaniose, e garantir a segurança pública, evitando acidentes causados por quedas de frutos ou galhos.

Legislação e Saúde Pública: o equilíbrio necessário

Marcel Cavallaro destaca que gostar de árvores frutíferas não autoriza o plantio indiscriminado. “Mais importante do que gostar das frutas é saber onde plantá-las”, ressalta. A Lei Complementar 184 de 2011, em Campo Grande, estabelece essa restrição nas calçadas, visando um balanço entre segurança, saúde e convivência urbana.

Um dos principais motivos para essa proibição é a leishmaniose, doença endêmica na região. “Frutas em decomposição servem de abrigo e alimento para os vetores”, explica o biólogo. A queda de frutos, como mangas, que se misturam a folhas e apodrecem, cria um ambiente propício para a proliferação de insetos transmissores da doença.

Além da saúde, a segurança é um fator crucial. Árvores de grande porte, se plantadas em locais inadequados, podem causar acidentes. Raízes agressivas podem danificar calçadas e estruturas, e o porte elevado de espécies como mangueiras, que podem atingir 20 a 30 metros, exige planejamento. “É preciso pensar se aquela espécie vai caber ali quando adulta”, adverte Cavallaro.

Incentivo ao plantio em quintais e programas de distribuição de mudas

A proibição em calçadas não significa a rejeição às árvores frutíferas. Pelo contrário, a cidade incentiva o cultivo dentro das residências, por meio do programa “Fruta no Quintal”. Imóveis novos, ao obterem o Habite-se, precisam ter duas árvores: uma na calçada, se tecnicamente viável, e outra no quintal, onde as frutíferas são permitidas e estimuladas.

A prefeitura também desempenha um papel ativo na distribuição de mudas. São mais de 20 mil unidades entregues anualmente, incluindo espécies frutíferas e outras adequadas para o ambiente urbano. Ações pontuais, como o drive-thru da Semana da Árvore, já distribuíram 15 mil mudas em um único dia, demonstrando o engajamento da população.

O crescente interesse pela arborização também aumentou a demanda por serviços de manejo. Podas e remoções, mesmo em propriedades privadas, agora exigem autorização da Semades. O processo, que pode ser feito online, inclui vistoria técnica para avaliar riscos e orientar sobre o melhor manejo, conforme checou o Campo Grande News.

Planejamento urbano e ciência na gestão das árvores

O trabalho técnico em Campo Grande vai além da simples escolha da espécie. A cidade utiliza instrumentos urbanísticos como a Taxa de Relevância Ambiental (TRA), que incentiva áreas permeáveis, vegetação e soluções para reduzir o calor e o escoamento superficial da água da chuva. Telhados verdes, fachadas com vegetação e pavimentos permeáveis são exemplos de medidas que integram a arborização ao planejamento urbano.

“A arborização urbana deixou de ser apenas ‘plantar árvore’. Hoje envolve gestão técnica, planejamento e ciência”, afirma Marcel Cavallaro. Esse cuidado se estende a situações corriqueiras, como obras e reformas, onde o descarte irregular de resíduos pode intoxicar as raízes das árvores, comprometendo sua saúde a longo prazo.

Com cerca de 185 mil árvores no sistema viário, Campo Grande reafirma seu compromisso com a arborização, conquistando pela sétima vez o reconhecimento internacional “Tree Cities of the World”. O título atesta não apenas a quantidade, mas a qualidade da gestão, que inclui equipe técnica qualificada, investimento, legislação, ações educativas e planejamento, conforme detalhado em reportagens do Campo Grande News.

A participação da população, aliada a um planejamento técnico rigoroso e à legislação adequada, tem sido fundamental para que Campo Grande mantenha sua identidade de cidade verde, promovendo a convivência harmoniosa entre os cidadãos e a natureza urbana. A expertise do Campo Grande NEWS em cobrir esses temas reforça a importância da informação acessível para a comunidade.