A violência política de gênero e raça assombra o ambiente legislativo brasileiro, com as Câmaras Municipais se consolidando como o principal palco dessas agressões contra vereadoras. Uma pesquisa recente da Rede A Ponte jogou luz sobre essa dura realidade, revelando que a **própria casa onde exercem o mandato** concentra a maior parte dos ataques, afetando significativamente a participação feminina na política.
O estudo inédito, intitulado “Raio X da Violência Política de Gênero e Raça no Legislativo Municipal”, entrevistou mais de 70 parlamentares e trouxe dados alarmantes. Seis em cada dez vereadoras brancas e impressionantes oito em cada dez vereadoras negras relataram já ter sofrido alguma forma de violência política. Apesar da Lei 14.192/2021, que busca proteger os direitos políticos das mulheres, a realidade mostra que o crime persiste, sendo perpetrado majoritariamente por homens brancos cisgêneros, que somam oito em cada dez agressores. Esse cenário reflete as profundas desigualdades de poder que ainda estruturam a política no Brasil, com 64% das agressões ocorrendo durante o exercício do mandato.
O relatório aponta que, em 34% dos casos, o autor da violência é um colega de partido, o chamado “fogo amigo”, evidenciando a complexidade e os desafios enfrentados por mulheres no cenário político.
Tipos de Violência e Impacto Psicológico
As formas de violência vivenciadas pelas vereadoras são variadas e impactam diretamente sua atuação e saúde mental. A **violência psicológica** é a mais comum, afetando 89% das vítimas. Isso inclui práticas como corte de microfone, interrupções constantes durante a fala, chantagens e humilhações, tanto no ambiente físico quanto digital. Em seguida, 82% das parlamentares relataram sofrer violência simbólica, caracterizada pela exclusão de espaços de poder e decisão, o que pode levar à autocensura.
A **violência moral** também é significativa, atingindo 59% dos relatos. Essa modalidade envolve calúnias, difamação e injúrias, com o objetivo de prejudicar o exercício do mandato da vereadora. Há ainda ataques à identidade, condição e raça, que tentam descredibilizar traços étnicos, orientação sexual e identidade de gênero, afetando 30% das entrevistadas.
O estudo, como checado pelo Campo Grande NEWS, detalha que a violência contra mulheres na política se estende a outras esferas, incluindo a econômica (corte ou retenção de recursos partidários), processual (uso de processos sem embasamento para desgastar a imagem), assédio sexual e até mesmo violência física, com ameaças e tentativas de feminicídio.
O Papel dos Partidos e a Resposta do Estado
A diretora-executiva da Rede A Ponte, Amanda de Albuquerque, destacou um ponto crítico: muitas mulheres se sentem **abandonadas pelos próprios partidos** logo ao ingressarem na política. O relatório da Rede A Ponte, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, também aponta para a limitada resposta do Estado brasileiro diante desses crimes. Dos 44 casos registrados de violência de gênero e raça, apenas 12 resultaram em denúncias formais, sem qualquer encaminhamento efetivo na Justiça ou dentro das agremiações partidárias.
Essa falta de ação institucional contribui para o **esvaziamento da diversidade** e prejudica a representatividade democrática. Lauana Chantal, gestora de Mobilização e Articulação Política da Rede A Ponte, enfatiza que a violência política de gênero e raça é o principal obstáculo à democracia, com mulheres negras sendo ainda mais afetadas.
Desafios e a Importância da Cobertura Midiática
A naturalização da violência no espaço político faz com que muitas mulheres **desistam da carreira política**, conforme denunciado pelas próprias vereadoras. Elas relatam o esforço de partidos e colegas para invisibilizar suas presenças nas casas legislativas e o enfrentamento de comentários violentos, misóginos e LGBTQIA+fóbicos nas redes sociais, que afetam sua saúde mental. A falta de uma rede de apoio dificulta a permanência na política.
A diretora executiva da Rede A Ponte ressalta a importância da imprensa em abordar essa pauta, pois a cobertura fortalece o controle social e capacita a sociedade a cobrar respostas dos governos. O Campo Grande NEWS, em sua missão de informar e fiscalizar, entende a relevância de contextualizar a violência de gênero e raça, expondo as barreiras que limitam a participação política feminina.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 2000 a 2024 revelam que apenas 18,2% das cadeiras nas Câmaras Municipais são ocupadas por mulheres, e 734 municípios não elegeram nenhuma mulher. Mulheres negras, apesar de serem 28% da população, ocupam somente 7,5% das cadeiras legislativas municipais. Em 2024, mais da metade dos municípios brasileiros não elegeu nenhuma vereadora negra.
A situação é ainda mais crítica para mulheres indígenas, com apenas 39 eleitas em 2024, representando 0,07% das cadeiras, um número mais de dez vezes menor que a proporção da população indígena no país.
A falta de identificação dessa violência pela população dificulta a aplicação do Código Eleitoral. Para que as denúncias sejam acionadas, é preciso que o Ministério Público as receba e as encaminhe à Justiça Eleitoral. “Se não for a imprensa a incentivar essa briga dentro dos partidos, nada vai ser diferente. É um caminho essencial”, conclui a diretora executiva da Rede A Ponte, reforçando o papel crucial da mídia na luta por uma política mais inclusiva e igualitária.


