Bruxa da Sapolândia: a lenda de Campo Grande que o cinema vai desvendar

A casa ainda está de pé, escondida entre árvores no bairro Taquarussu, em Campo Grande. Mais de cinco décadas se passaram, mas o local continua atraindo curiosos, alguns vindos de outros países, todos movidos pela história de Célia de Souza, eternizada no imaginário popular como a “Bruxa da Sapolândia”. Presa em 1969 sob acusações de bruxaria e assassinato de crianças, ela foi absolvida pela Justiça, mas sua lenda permaneceu viva na cidade.

A história, que atravessa gerações, será agora revisitada no documentário “O Retrato do Erro: A Bruxa da Sapolândia”, previsto para ser lançado em 2027. A produção busca desmistificar a figura assustadora criada em torno de Célia e questionar as circunstâncias que levaram à sua prisão e à fama duradoura.

A lenda da “Bruxa da Sapolândia” nasceu no fim da década de 1960, na antiga Vila Afonso Pena, hoje bairro Taquarussu. A região era conhecida como Sapolândia devido a um grande brejo repleto de sapos, o que deu origem ao apelido que se tornaria famoso. Célia de Souza foi presa em janeiro de 1969, após a descoberta de corpos de três crianças enterrados em lotes do bairro.

O caso causou grande alvoroço em Campo Grande, e Célia passou a ser acusada de praticar bruxaria, torturar e matar crianças. Ela sempre negou as acusações, afirmando que as crianças haviam morrido de causas naturais e foram enterradas em terrenos particulares a pedido dos pais. A casa onde Célia morava, no bairro Taquarussu, ainda é um ponto de visitação para muitos.

A Absolvição e o Sumiço da Mulher

Apesar da fama que a perseguiu por décadas, Célia de Souza foi absolvida pela Justiça. Em sua sentença, o juiz apontou a ausência de exame de corpo de delito que pudesse comprovar a relação entre as lesões encontradas nos corpos e as mortes. A decisão sugeriu que as mortes poderiam ter ocorrido por desamparo, desnutrição, fome e debilitação.

Documentos do Tribunal de Justiça, consultados pela TV Morena, também indicam que Célia foi inocentada da acusação de ocultação de cadáver. Embora o crime estivesse comprovado, não havia provas de que ela fosse a autora. Célia foi absolvida em janeiro de 1971 e liberada em julho do mesmo ano, deixando Campo Grande logo em seguida.

A mulher se foi, mas a “bruxa” permaneceu viva no imaginário da cidade. Moradores mais antigos, como Maria de Lourdes Pereira, lembram-se de Célia e de sua prisão. “Minha mãe comentava muito sobre ela para a gente”, relata Maria, que também conta como o nome da “Bruxa da Sapolândia” era usado para assustar crianças e mantê-las em casa. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa prática de usar lendas urbanas para controle infantil era comum.

A Lenda que Atravessa Gerações

Terezinha da Conceição Nunes cresceu ouvindo relatos sobre Célia. Segundo ela, moradores contavam que mães deixavam os filhos com Célia para trabalhar, e ao retornarem, encontravam algumas crianças doentes ou mortas. Esses relatos, transmitidos de geração em geração, alimentaram a lenda.

Mais de cinquenta anos depois, a casa associada a Célia continua de pé. Marcos de Oliveira, que morou no local por alguns meses, relata que só soube da história após ouvir os vizinhos e pesquisar nas redes sociais. “Os moradores falavam para mim: ‘Marcos, essa aí é a casa de uma bruxa, morou uma bruxa aí’. Eu falei: ‘Será?'”, conta. Ele confirma que a fama da casa atrai muitos visitantes, inclusive turistas estrangeiros.

Marcos também relata ter vivenciado situações inexplicáveis enquanto morava na casa, como ouvir vozes e risadas de crianças e sentir-se observado. Em uma reportagem exibida pela TV Morena em 2017, ele descreveu ter visto, durante a madrugada, uma menina de roupa branca sob um pé de limão no quintal. Segundo o Campo Grande NEWS apurou, situações estranhas ainda ocorrem ocasionalmente no local.

Documentário Busca Recontar a História com Outro Olhar

O documentário “O Retrato do Erro: A Bruxa da Sapolândia” promete trazer uma nova perspectiva sobre o caso. A equipe de produção pesquisou documentos históricos, inquéritos judiciais, reportagens e depoimentos de oito pessoas para reconstruir os fatos. A diretora-geral, Isabelle Silva, questiona a forma como Célia foi retratada, destacando que ela era uma mulher negra, periférica e de religião de matriz africana em uma sociedade majoritariamente católica.

“Será que realmente ela é a criminosa perfeita? Ou é um desvio de investigação por intolerância religiosa e racial?”, questiona Isabelle. O objetivo do documentário é levar o público a reavaliar uma história que se tornou certeza ao longo das décadas. Conforme o Campo Grande NEWS divulgou, a produção busca deixar uma “ponta de dúvida” sobre os acontecimentos, permitindo que o público forme sua própria opinião.

O filme está em fase de pós-produção, com expectativa de conclusão até dezembro e lançamento em 2027. A história da “Bruxa da Sapolândia” é um exemplo de como a memória coletiva pode distorcer fatos, transformando uma mulher absolvida pela justiça em um mito assustador que perdura por mais de 50 anos em Campo Grande.