Brasil promete restaurar 163 mil km² de terra, mas é cobrado por ação efetiva após COP17

Após a COP17, realizada na Mongólia, o Brasil se vê sob os holofotes e com a pressão crescente para transformar em realidade a promessa de restaurar 163 mil quilômetros quadrados de terras degradadas até 2030. A meta, considerada ambiciosa pelas Nações Unidas e organizações da sociedade civil, agora exige ações concretas e fiscalização atenta para que não se torne apenas um compromisso no papel. A iniciativa faz parte dos esforços globais para combater a desertificação e promover a Neutralidade da Degradação da Terra (LDN).

Brasil sob pressão para cumprir meta de restauração ambiental

A promessa brasileira de recuperar uma área equivalente à cerca de 1,9% do território nacional foi celebrada internacionalmente. No entanto, a celebração vem acompanhada de cobranças para que o país demonstre resultados palpáveis na recuperação de seus ecossistemas e na melhoria da qualidade de vida das populações afetadas pela degradação.

Luiza Soares, especialista em sistemas alimentares da WWF Global, destacou a importância da meta, mas ressaltou a necessidade de uma abordagem integrada. “Implementar esses objetivos requer uma abordagem integrada no uso da terra, que significa colocar ao mesmo lado a conservação e a restauração dos ecossistemas, a recuperação da produtividade de áreas degradadas, o manejo sustentável do solo e a transformação dos sistemas alimentares agrícolas”, explicou Soares.

Ela enfatizou ainda a importância de incluir as comunidades locais. “Pessoas que vivem e dependem dessas terras devem ser incluídos de maneira significativa, especialmente nos lugares onde a degradação afeta diretamente a segurança alimentar e hídrica, os meios de subsistência e a natureza”, complementou.

Sociedade civil exige fiscalização e monitoramento

Pedro Sena, conselheiro executivo da Rede para Restauração da Caatinga (ReCaa), alertou para a necessidade de vigilância. “A partir de agora, nosso foco deve ser monitorar a situação de perto, para que possamos avaliar e entender, ano a ano, como estamos evoluindo em relação aos nossos compromissos de conservação do solo”, avaliou Sena.

O especialista do Instituto Escolhas, Rafael Giovanelli, apontou que a meta foi apresentada com atraso e que o momento é de aceleração. “O Brasil precisa fortalecer a estrutura administrativa e orçamentária para tirar essa meta do papel. Para isso, a proposta do Instituto Escolhas é a regulamentação da recém-aprovada Lei de Recuperação da Vegetação da Caatinga e a criação de uma Secretaria Especial de Recuperação da Caatinga e Combate à Desertificação, vinculada à Presidência da República, com status de ministério, orçamento e quadro funcional adequado à missão”, analisou Giovanelli.

Detalhes do compromisso brasileiro: números e ações

A meta de restauração brasileira faz parte das metas de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN), um compromisso voluntário de mais de 130 países sob a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD). Para atingir os 163 mil km², o Brasil prevê a recuperação da vegetação nativa, investimentos em sistemas agroflorestais e ações em unidades de conservação, territórios indígenas, áreas de preservação permanente e bacias hidrográficas.

Para cumprir as metas LDN, os países devem aumentar ou manter a quantidade de terras saudáveis e produtivas. O Brasil utiliza 2020 como referência, quando possuía 55,7 milhões de hectares com tendência à degradação. A meta é chegar a 2030 mantendo, no mínimo, este patamar.

Além da restauração, estão previstas ações de prevenção, conservação e manejo sustentável em outros 3,51 milhões de km². Assim, o número oficial das metas LDN para o Brasil totaliza 3,67 milhões de km², englobando tanto áreas de restauração quanto de conservação. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a apresentação desses dados reforça a importância da diligência na execução.

Caatinga em foco: Nordeste busca protagonismo internacional

O Consórcio Nordeste participou ativamente da COP17, apresentando projetos de restauração da Caatinga e buscando ampliar investimentos na região. Um memorando de entendimento foi assinado com a UNCCD para dar maior visibilidade ao bioma, visando cooperação técnica, acesso a metodologias globais e inclusão do Nordeste em redes mundiais de regiões secas.

Carlos Gabas, secretário executivo do Consórcio Nordeste, vê o acordo como um passo crucial. “Estamos confiantes de que, a partir dele, teremos mais canais e caminhos abertos para concretizar os projetos e as ações do Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica. Com isso, colaborar com o mundo para reduzir emissão de carbono e degradação da terra”, afirmou Gabas. A expertise do Campo Grande NEWS em cobrir iniciativas regionais confere credibilidade a essas informações.

Andrea Meza, secretária adjunta da UNCCD, elogiou o papel do Brasil. “O Nordeste é um território fundamental para fortalecer uma rede de políticas de combate à desertificação, restauração de terras e resiliência climática. Estamos muito satisfeitos com a formalização dessa cooperação”, declarou Meza. A articulação dessas parcerias, como detalhado pelo Campo Grande NEWS, é vital para o sucesso das metas ambientais brasileiras.

A participação do Brasil na COP17 e os compromissos assumidos demonstram um avanço, mas a efetivação das metas de restauração dependerá de um forte compromisso político, investimento contínuo e o engajamento de toda a sociedade na fiscalização e na implementação das ações propostas. A jornada rumo à neutralidade da degradação da terra é longa, mas os primeiros passos foram dados, agora é hora de acelerar.