Bon Odori 2024: A festa que celebra a história da imigração japonesa em Campo Grande

O Bon Odori, tradicional festival que celebra a cultura japonesa, chega à sua 40ª edição em Campo Grande, de 14 a 16 de agosto. Mais do que uma festa, o evento é um elo com o passado, honrando a memória e a contribuição dos primeiros imigrantes japoneses que ajudaram a construir a cidade. A celebração, com entrada gratuita, acontece na Associação Nipo-Brasileira e promete reunir milhares de pessoas em três dias de imersão cultural e gastronômica.

Bon Odori: 40 anos de dança, saudade e gratidão em Campo Grande

A história do Bon Odori em Campo Grande se confunde com a própria trajetória da imigração japonesa no Brasil. O que começou como uma forma de matar a saudade da terra natal e agradecer pelas colheitas se transformou em um dos maiores eventos culturais da cidade. Cláudio Sussumo Oikawa, vice-presidente cultural, esportivo e social da Associação Nipo-Brasileira, compartilhou detalhes sobre a evolução da festa em entrevista ao Grupo Feitosa de Comunicação.

A imigração japonesa no Brasil teve seu marco inicial com a chegada do navio Kasato Maru em 1908, trazendo consigo 781 imigrantes. O Japão passava por um intenso processo de modernização, que impactava o campo, enquanto o Brasil, após a abolição da escravatura, necessitava de mão de obra para suas lavouras de café. Essa demanda mútua foi o catalisador para a vinda de milhares de japoneses ao país.

A construção da Ferrovia Noroeste do Brasil foi o caminho que trouxe muitos desses imigrantes para o então sul de Mato Grosso. Segundo Oikawa, cerca de 120 japoneses seguiram pela linha férrea a partir de Bauru, encontrando outros grupos, inclusive aqueles que vieram do Peru, nas proximidades de Corumbá e Porto Esperança. Os trilhos, que culminaram em Campo Grande, encontraram uma cidade ainda jovem, com pouco mais de 15 anos de fundação.

O nascimento de uma festa e a força da comunidade

Ao perceberem o potencial de crescimento da cidade impulsionado pela ferrovia, os imigrantes japoneses se estabeleceram em pequenas propriedades no entorno, formando as primeiras colônias. Dedicaram-se ao plantio de verduras, café e arroz, e com o trabalho árduo, vieram as celebrações. Festas como o Undokai (gincana esportiva) e as danças ao som dos tambores taiko deram origem ao que hoje conhecemos como Bon Odori.

O nome da festa carrega um significado profundo: ‘Bon’, na tradição budista, remete à celebração com os antepassados, enquanto ‘odori’ significa dança. ‘É um agradecimento pelo bom ano’, explica Oikawa, ressaltando que a festa nasceu no calendário daqueles que viviam do ciclo da semeadura, do plantio, da colheita e da pesca. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a primeira edição oficial do Bon Odori na Associação Nipo-Brasileira ocorreu em 1983, durante a gestão do ex-presidente Armando Tibana.

Apesar de serem 43 anos de tradição, a comunidade celebra agora a 40ª edição, pois três edições foram suspensas devido à pandemia de COVID-19. O crescimento do evento é notável: o que começou como uma reunião de 500 a mil pessoas, hoje espera receber cerca de 8 mil visitantes ao longo das três noites. A praça de alimentação, com impressionantes 1.600 metros quadrados, contará com dezenas de barracas oferecendo mais de 50 pratos da rica culinária japonesa.

Diversidade gastronômica e atração das novas gerações

A praça de alimentação é um espaço prioritário para os 26 departamentos da própria Associação Nipo-Brasileira, além de outras entidades da comunidade, como a Associação Okinawa, a Associação Campo Grande de Baseball e sete igrejas. Essas organizações utilizam a festa como uma importante fonte de arrecadação para manter suas atividades ao longo do ano. Para aqueles que conhecem a culinária japonesa apenas pelo sushi, o cardápio do Bon Odori reserva muitas descobertas. ‘A maioria são pratos quentes’, adianta Oikawa, citando delícias como gyoza, yakisoba, tonkatsu, katsudon e o tradicional sobá.

Um dos desafios enfrentados pela comunidade, comum a associações de imigrantes em todo o país, é atrair as novas gerações. A resposta tem vindo através da música. ‘Começou com as músicas tradicionais, naquele ritmo das senhoras. Só que os jovens querem o ritmo mais rápido’, revela o dirigente. Essa adaptação musical busca manter a essência da festa, ao mesmo tempo em que a torna mais atrativa para o público jovem.

Censo da comunidade nipo-brasileira e a importância do evento

O vice-presidente destacou ainda que a associação está trabalhando em conjunto com o cônsul honorário do Japão em Mato Grosso do Sul, Ségio Longen, para realizar um censo da comunidade nipo-brasileira no Estado, começando por Campo Grande. Atualmente, não há dados precisos sobre o número de descendentes de japoneses na região. ‘O IBGE classifica a população por cor ou raça, o que não permite identificar a origem japonesa. Queremos saber quem somos, quantos somos, de onde viemos e de quais províncias’, afirmou Oikawa.

A festa do Bon Odori acontece na semana do aniversário de Campo Grande e integra o calendário oficial da cidade. A abertura do evento contará com a presença de autoridades, como o governador, a cônsul-geral do Japão e o presidente da Kenren, federação que reúne as 47 províncias japonesas. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, o evento é pensado para toda a comunidade, não apenas a japonesa, mas para todos os cidadãos de Campo Grande. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a participação de entidades comunitárias e religiosas reforça o papel do evento como um ponto de encontro e fortalecimento de laços sociais.

Serviço:
O quê: 40ª Edição do Bon Odori
Quando: 14 a 16 de agosto
Onde: Associação Nipo-Brasileira – Av. Ministro João Arinos, 1.792, saída para Três Lagoas, Campo Grande
Entrada: Gratuita