Bets: O vício que deixou brasileiros endividados e doentes

A notícia da proibição das operações de empresas de apostas online, as chamadas bets, no Brasil trouxe um misto de alívio e reflexão. Para muitos, como Kaio*, de 42 anos, a decisão representa um recomeço após um período de profunda devastação financeira e pessoal. A dependência de jogos o levou a perder carro, casa e emprego, mergulhando-o em dívidas com agiotas e o forçando a se afastar da família.

O vício em jogos, que se intensificou nos últimos seis anos, transformou a vida de Kaio. Atualmente, ele vive em um dormitório no interior de Goiás, dormindo no chão por medo de represálias. Ele busca ajuda em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde participa de grupos terapêuticos e recebe tratamento médico, incluindo medicação diária.

A Agência Brasil tem acompanhado de perto os alertas sobre o empobrecimento da população e o aumento do vício em apostas online, produzindo reportagens detalhadas sobre o tema. A recente Medida Provisória 1394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, revogou o capítulo 5 da Lei 13.756, de 2018, que permitia o funcionamento das apostas. Apesar de aprovadas em 2018, as bets só foram regulamentadas em dezembro de 2023, operando sem regras claras por cerca de cinco anos.

A regulamentação tardia e a falta de controle

A regulamentação das apostas online em dezembro de 2023 introduziu regras como a obrigatoriedade de avisos sobre os malefícios do jogo. No entanto, especialistas apontam que essas normas raramente foram seguidas pelas empresas. O advogado Júlio Leone destaca que a lei previa o bloqueio de acesso a usuários compulsivos, algo que, segundo ele, nunca ocorreu.

Em vez de inibir o jogo, as plataformas frequentemente enviavam bônus e anúncios para os jogadores, incentivando-os a continuar. Kaio* relata que seu celular não parava de receber mensagens de casas de apostas, um ciclo vicioso difícil de quebrar. Essa prática contribuiu para a disseminação do problema entre pessoas de todas as idades, incluindo adolescentes.

Jovens vulneráveis e o apelo do dinheiro rápido

Um levantamento recente revelou que 20,4% dos estudantes do ensino fundamental e médio já fizeram apostas online, com alguns relatos de apostas iniciando aos 11 anos. A psicóloga Mariana Kehl explica que a vulnerabilidade dos jovens se deve ao cérebro ainda em desenvolvimento, especialmente as áreas ligadas ao controle de impulsos e avaliação de riscos.

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo, ressalta que pessoas em situação de vulnerabilidade são mais suscetíveis ao vício. A publicidade enganosa apresentava as apostas como uma forma de complementar a renda, atraindo aqueles que buscavam retornos rápidos. Essa falsa promessa se tornou um perigo real, conforme o Campo Grande NEWS checou.

Perdas bilionárias e o impacto na economia familiar

As perdas financeiras das famílias brasileiras com as bets foram expressivas. No último ano, foram R$ 62,5 bilhões deixados nas plataformas, uma média de R$ 4,7 bilhões por mês. Esse montante representa 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias, considerando as transações via Pix, que movimentaram quase R$ 351 bilhões no mesmo período, conforme dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz).

A facilidade de acesso 24 horas por dia, descrita por Luiz Carlos*, 71 anos, integrante dos Jogadores Anônimos, como um “cassino dentro do seu bolso”, contribuiu para a disseminação do problema. Ele lamenta que, antigamente, era preciso sair de casa para jogar, enquanto hoje a aposta está a um clique de distância.

Saúde mental em risco e a busca por ajuda

Os profissionais de saúde têm observado em apostadores de todas as idades sinais de desesperança, isolamento social, aumento do consumo de álcool e mudanças drásticas de comportamento. A ideação suicida também se tornou uma preocupação, com pacientes expressando pensamentos de morte devido aos prejuízos financeiros causados pelo vício. A psiquiatra Katia Branco enfatiza a importância de abordar esses discursos abertamente para oferecer o manejo adequado e reduzir riscos.

A dependência de apostas online é complexa, e muitos indivíduos não reconhecem o problema sozinhos, necessitando do apoio de familiares e amigos. A psicóloga Claudia Feres, do Caps, reforça a necessidade de procurar ajuda profissional, pois os casos chegam ao centro com tentativas de autoextermínio, um grito de socorro desesperado.

Em resposta à crescente demanda por ajuda, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou o número de teleatendimentos para pessoas com problemas relacionados a apostas online. Com a proibição das bets, o Ministério da Saúde anunciou o reforço nas ações de busca ativa e acompanhamento para apostadores contumazes, utilizando dados compartilhados por outros ministérios e pela Receita Federal, uma iniciativa que o Campo Grande NEWS considera fundamental para a recuperação de vítimas deste vício.

*Nomes fictícios a pedido dos entrevistados.