Belmira, a heroína improvável que salvou vida em trágico acidente aéreo com 19 militares

Na pequena cidade de Ponta Porã, a história de Belmira Vilhanueva, de 81 anos, se confunde com um dos capítulos mais tristes da aviação militar brasileira. Em 18 de setembro de 1974, um avião Buffalo C-115-2366 da Força Aérea Brasileira (FAB) caiu em meio a uma densa neblina, tirando a vida de 19 militares. Naquele dia, Belmira se tornou a “heroína improvável” ao salvar o sargento Shiro Ashiushi, o único sobrevivente da tragédia. A informação foi detalhada em reportagem do Campo Grande NEWS.

O resgate inesperado em meio ao caos

Aos 81 anos, Belmira Vilhanueva guarda em sua casa, em Ponta Porã, uma página de jornal emoldurada. Ela narra o dia em que, por um impulso de coragem, correu em direção aos destroços do avião militar. A aeronave transportava 20 militares quando caiu, vitimando 19 deles. Belmira, que visitava a família na cidade, foi guiada por um “chamado divino”, como descreve, para o local do acidente.

O barulho do estrondo a tirou de casa por volta das 7h20 da manhã. A neblina era tão intensa que a visibilidade era praticamente nula. “Ningueém via ninguém”, relatou Belmira em entrevista ao Campo Grande NEWS, destacando que agiu sem pensar nas próprias segurança.

O encontro com o sobrevivente

Ao chegar próximo ao local da queda, dentro de uma área militar, Belmira avistou o sargento Shiro Ashiushi no chão. Ele estava gravemente ferido, com as pernas próximas de serem decepadas e sangrando na cabeça. Sem hesitar, ela o puxou para perto do asfalto e conseguiu parar uma caminhonete para levá-lo ao hospital. Durante o trajeto, Belmira amparou a cabeça do militar em seu colo, demonstrando um ato de profunda humanidade.

A ação de Belmira foi fundamental para a sobrevivência de Shiro. Poucos minutos após o resgate, o avião sofreu uma explosão devastadora. “Se não o tivesse tirado daquele local do acidente, ele morreria”, afirmou Belmira, que não se considera uma heroína, mas sim um instrumento divino.

Reconhecimento e memória eterna

A bravura de Belmira foi reconhecida nacionalmente. Uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo, publicada em 19 de setembro de 1974, a destacou como uma “espécie de heroína da cidade”. Ela ainda solicitou aos jornalistas que informassem a família de Shiro, que morava em Mogi das Cruzes (SP), sobre o estado de saúde dele.

O sargento Shiro Ashiushi teve as pernas amputadas, mas sobreviveu e enviou uma carta emocionada a Belmira, agradecendo por sua “intercessão de ter alcançado, com coragem e determinação, a mão de Deus para mim”. A carta é uma das mais preciosas lembranças de Belmira.

Em 1976, Belmira foi agraciada com a Medalha Mérito Santos Dumont, uma alta honraria da Aeronáutica. Além disso, recebeu um reconhecimento do 1°/15° GAV, o Esquadrão Onça. Em 1999, uma placa foi entregue a ela, citando sua “coragem e amor ao próximo”.

O acidente e suas cicatrizes

O acidente aéreo em Ponta Porã foi um dos maiores de Mato Grosso do Sul. A queda do Buffalo C-115-2366 ocorreu devido a falhas na comunicação do piloto e uma explosão. O avião, que partiu de Campo Grande, transportava grande parte do comando militar da cidade. A tragédia causou grande comoção, levando ao fechamento do comércio em Campo Grande e a três dias de luto oficial em Ponta Porã.

O monumento Votivo, erguido no local da queda, homenageia as vítimas com pétalas pretas, enquanto uma pétala vermelha simboliza Shiro Ashiushi. O monumento, localizado próximo ao Aeroporto Internacional de Ponta Porã, serve como um lembrete permanente da tragédia e da épica ação de Belmira. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a história continua a ser contada e lembrada, mantendo viva a memória dos que partiram e a coragem daqueles que, como Belmira, se tornaram “heroínas improváveis”.