A Polícia Civil investiga uma **hipótese crucial** que pode ter levado à queda de uma aeronave logo após decolar do Aeroporto Santa Maria, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. A principal linha de apuração é se o avião iniciou o voo com vento de cauda, uma condição que pode comprometer significativamente o desempenho da aeronave durante a decolagem, exigindo maior distância para ganhar altitude e estabilidade.
Essa possibilidade surgiu após a análise de um vídeo da biruta do aeroporto, que indica a direção e a intensidade do vento. O material foi gravado aproximadamente dois minutos após a saída da aeronave do solo. O acidente, ocorrido no dia 3 de julho, resultou na morte da renomada pesquisadora alemã Lydia Möcklinghoff e do piloto Henrique Martin de Carvalho. Testemunhas relataram neblina intensa no momento da decolagem, o que adiciona outra camada de complexidade à investigação.
A aeronave decolou às 6h44 pela cabeceira 06. Conforme o boletim de ocorrência, imagens da biruta captadas pouco tempo depois mostravam o vento alinhado para a cabeceira 24, que é o sentido oposto ao que o piloto escolheu para a decolagem. Conforme o Campo Grande NEWS checou, os números 06 e 24 referem-se aos dois sentidos da mesma pista, identificados pela orientação magnética. A cabeceira 06 aponta para aproximadamente 60 graus, enquanto a 24 está voltada para cerca de 240 graus.
Em geral, aviões decolam contra o vento. Isso ocorre porque o fluxo de ar favorece a sustentação, permitindo que a aeronave ganhe velocidade e altitude mais rapidamente, além de reduzir a distância necessária para a saída do solo. Se o vento estivesse de fato alinhado à cabeceira 24, o avião teria decolado com vento de cauda, uma situação desfavorável.
Contudo, a investigação ainda não tem conclusões definitivas. O vídeo da biruta não foi gravado no exato momento da decolagem, mas sim cerca de dois minutos depois. A direção e intensidade do vento podem ter sofrido alterações nesse curto intervalo. Além disso, a imagem sozinha não é suficiente para determinar a força exata do vento nem calcular seu impacto no desempenho da aeronave.
Neblina e visibilidade reduzida: fatores críticos
O boletim de ocorrência também registra que testemunhas relataram neblina intensa no Aeroporto Santa Maria e a ausência de condições para operações de voo visual. Essa condição climática teria levado ao cancelamento ou adiamento de outros voos previstos para aquela manhã. A baixa visibilidade é considerada por especialistas como um fator potencialmente mais grave do que a direção do vento.
Um piloto ouvido pela reportagem estimou que o teto de nuvens estaria em aproximadamente 200 pés, o que equivale a cerca de 60 metros. Essa condição **não permitiria uma decolagem normal** pelas regras de voo visual, que exigem maior visibilidade. Essa estimativa, no entanto, ainda precisa ser confirmada com registros meteorológicos oficiais.
Silvio Monteiro, coronel aviador da FAB e com mais de 35 anos de experiência em busca e salvamento, considera prematuro qualquer conclusão sobre um possível erro na escolha da cabeceira. Ele ressalta a importância de identificar as testemunhas, verificar o conhecimento delas sobre aviação e o momento exato em que observaram a biruta, além de confirmar se a leitura ocorreu antes, durante ou após a decolagem. “Essa é uma das muitas perguntas que a investigação do acidente deve responder. Qualquer um que afirmar isso neste momento está especulando”, ponderou o coronel.
Outro ponto levantado por pilotos consultados é que a neblina intensa geralmente está associada a vento calmo ou de baixa intensidade. Nesse cenário, a diferença entre usar a cabeceira 06 ou a 24 poderia ter tido uma influência pequena na decolagem. A biruta mostraria uma direção predominante, mas não necessariamente um vento forte o suficiente para tornar inadequada a escolha feita pelo piloto. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a investigação técnica, conduzida também pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), cruzará os vídeos com dados meteorológicos, características da aeronave, condições da pista e informações sobre a operação do voo.
A pesquisadora Lydia Theresia Möcklinghoff, de 45 anos, realizava estudos sobre a fauna pantaneira e viajava para a Fazenda Barranco Alto, em Aquidauana. O piloto, Henrique Martin de Carvalho, tinha 42 anos. A investigação busca esclarecer todos os fatores que levaram à tragédia, com o objetivo de prevenir acidentes futuros. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a apuração policial corre em paralelo com a análise técnica do Cenipa, buscando um panorama completo do ocorrido.

