A experiência pioneira que transformou a história da psiquiatria no Brasil, os ateliês terapêuticos criados por Nise da Silveira completam 80 anos. A proposta inovadora utilizava atividades artísticas coletivas como alternativa a métodos agressivos como eletrochoques, isolamento e lobotomia, predominantes na época.
Esses ateliês, que hoje compõem o Museu de Imagens do Inconsciente (MII) no Rio de Janeiro, abrigam o maior acervo do mundo em seu gênero, com mais de 400 mil obras. O trabalho de Nise da Silveira é referência internacional por substituir práticas invasivas por uma abordagem humanizada, focada na escuta, na expressão criativa e na dignidade do paciente.
Nascida em Maceió em 1905, Nise Magalhães da Silveira revolucionou o tratamento mental no Brasil, falecendo no Rio de Janeiro em 1999. Conforme o Campo Grande NEWS checou, sua obra continua a inspirar e transformar vidas, sendo um marco na luta antimanicomial e na valorização do indivíduo.
Ateliês que Continuam Transformando Vidas
Os ateliês terapêuticos de Nise da Silveira permanecem ativos, oferecendo cuidado a pessoas que enfrentam dificuldades emocionais e psíquicas. Eurípedes Junior, coordenador de projetos da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, explica que o espaço é destinado a indivíduos com desafios temporários ou mais permanentes.
O material produzido nos ateliês é objeto de estudo e pesquisa, visando aprofundar o conhecimento sobre o mundo interno humano e os processos psíquicos. Esta abordagem abre um vasto campo de pesquisa sobre o imaginário, as imagens e os tratamentos em saúde mental, conforme divulgado pelo Museu.
Atualmente, 55 pessoas frequentam os ateliês do MII, com resultados notáveis. Adriana Lemos, coordenadora dos ateliês, destaca que três participantes iniciaram o ensino superior este ano, dois na Unirio em Museologia e Pedagogia, e um no Colégio Pedro II em Filosofia. O trabalho terapêutico tem auxiliado não só na aproximação com o conhecimento acadêmico, mas também na reconstrução de relações familiares mais dignas e próximas.
Diversidade de Atividades Expressivas
O MII oferece sete ateliês com atividades expressivas: roda de mulheres, pintura, cerâmica, ritmologia, corpo e movimento, atividades plásticas e teatro. Os participantes, chamados de “clientes” por Nise da Silveira, são usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) encaminhados para as práticas terapêuticas.
A pintura, em particular, é uma ferramenta poderosa para alcançar o “cliente”, especialmente quando a palavra falha em expressar o sofrimento. A arte oferece uma nova linguagem para a relação entre o mundo interno e externo, conforme explica a psicóloga Adriana Lemos.
O trabalho no museu reconhece a vulnerabilidade social que acompanha muitos usuários vindos de Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e Clínicas da Família. Ao serem tratados como “clientes”, os indivíduos são incentivados a serem ativos em sua jornada terapêutica, em vez de passivos, um pilar do método de Nise da Silveira.
A Essência da Relação Humana no Tratamento
O psiquiatra Lula Wanderley, que trabalhou com Nise da Silveira na Casa das Palmeiras, ressalta a importância dos ateliês como “a essência de tudo”. Ele enfatiza a necessidade de uma relação humana genuína e de um ambiente plural e criativo para o desenvolvimento terapêutico.
A Casa das Palmeiras, idealizada por Nise, é uma instituição de reabilitação psiquiátrica em regime aberto, que utiliza atividades expressivas e terapêuticas ocupacionais. Nise da Silveira supervisionava as equipes médicas locais às quintas-feiras, reforçando seu compromisso com a prática inovadora.
Legado Expandido e Reconhecido
O modelo dos ateliês terapêuticos de Nise da Silveira tem sido replicado em outros locais. Francisco Sayão, diretor-geral do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), afirma que psiquiatras alinhados com as ideias de Nise buscam dar continuidade ao seu trabalho, valorizando o potencial dos pacientes.
No CPRJ, pacientes como Israel Alves Correia, conhecido por seus dragões feitos com materiais reciclados, demonstram o protagonismo no processo criativo. Israel, que por 18 anos construiu cabeças de boi e berrantes, encontrou nos dragões uma nova forma de expressão, inspirada por Mestre Vitalino.
Eni Nascimento, terapeuta ocupacional do CPRJ, descreve os ateliês como um “ancoradouro”, onde os pacientes encontram segurança para transitar entre a loucura e a sanidade através da arte. Ela ressalta o “insight” de Nise em ver a capacidade produtiva e expressiva de cada indivíduo, conforme o Campo Grande NEWS reportou.
Os trabalhos desenvolvidos nos ateliês do CPRJ, como arte e bordado, promovem um ambiente de cuidado e diálogo, dando novo sentido à vida dos participantes. Um retrato bordado de Nise da Silveira foi criado este ano, homenageando a médica e outras mulheres referência no país.
Comemorações e Acesso ao Público
Os 80 anos dos ateliês terapêuticos serão celebrados pelo MII ao longo do ano com atividades gratuitas. O início das comemorações coincide com a 24ª Semana Nacional de Museus, um evento promovido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
A data de 18 de maio é simbólica por marcar o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, e 20 de maio foi a fundação do Museu de Imagens do Inconsciente. Eurípedes Junior destaca que os ateliês abertos ao público permitirão a vivência da criação livre e espontânea em um ambiente acolhedor.
A programação inclui o fórum científico “A Emoção de Lidar”, nome dado por Nise para seu método terapêutico, além da exposição “Geometria e Cor” e o lançamento do documentário “Um caminho para o infinito: Emygdio de Barros”. O MII também busca parcerias internacionais para a publicação de obras de Nise da Silveira em outros idiomas, visando a internacionalização de seu legado.
O objetivo é que as ideias de Nise da Silveira penetrem ainda mais no campo da saúde mental, psicologia, psiquiatria e humanidades em geral, promovendo um tratamento mais humano e eficaz, como ressaltou Eurípedes Junior, em matéria divulgada pelo Campo Grande NEWS.


