Pela primeira vez no Rio de Janeiro, o artista gaúcho transmasculino e não-binário Caru Brandi apresenta sua obra em uma exposição individual. A mostra, intitulada “Fabulações transviadas de Caru Brandi”, tem como objetivo principal trazer visibilidade à cultura trans, celebrando a arte produzida por pessoas trans e, conforme o artista se refere, por seus companheiros de comunidade. O evento, que estará aberto ao público até 22 de abril, marca o início do calendário 2026 do programa Sala do Artista Popular (SAP) no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), localizado no Catete.
Caru Brandi expressou grande felicidade com o que considera uma “abertura de caminhos” e por ser a primeira pessoa trans a expor neste importante espaço cultural. “Acho muito significativo, enquanto conquista da comunidade trans. Espero, inclusive, que isso se torne uma política não só do Centro de Folclore, mas de outras instituições aqui do Rio de Janeiro”, afirmou em entrevista à Agência Brasil. A iniciativa representa um avanço importante na representatividade e no reconhecimento da arte LGBTQIAPN+.
O artista também celebrou a oportunidade de o CNFCP abrir espaço para um olhar sobre o conhecimento artístico a partir dos saberes trans. “Fiquei muito feliz em poder inaugurar este espaço aqui. É também a primeira vez que um projeto me chama para uma exposição fora de Porto Alegre”, comentou. A exposição, que pode ser vista de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e nos sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h, tem entrada gratuita.
Obras que narram transições e identidades
A exposição “Fabulações transviadas” apresenta um conjunto de obras do acervo de Caru Brandi, além de peças criadas especialmente para a ocasião. As cerâmicas e pinturas retratam, de forma lúdica e crítica, o processo de transição de gênero, explorando as diversas facetas da identidade transmasculina e não-binária. Essas obras convidam o público a refletir sobre a fluidez e a multiplicidade das experiências.
O percurso artístico de Caru Brandi se iniciou com a tatuagem, onde já demonstrava aptidão para o desenho. Foi a partir de seu processo de transição de gênero e do encontro com outras pessoas transmasculinas e não-binárias que sua criatividade se transformou radicalmente a partir de 2018. “Saio de uma coisa mais realista que eu fazia antes, para uma coisa bem mais ficcional. Aí começa meu processo artístico, junto com minha transição de gênero”, revelou.
Durante a pandemia, Caru Brandi se formou em Direito em 2021, mas logo percebeu que seu caminho profissional estava na arte, especialmente ligada à transmasculinidade. “A pintura e o desenho, nessa época, vieram como forma de encontro com essa comunidade”, explicou. Ele cursou Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, buscando se profissionalizar e se encontrando também como arte-educador, atuando desde 2024 na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre.
Performance e cultura ballroom como resistência
Antes da inauguração, o público teve a oportunidade de participar da oficina “Imaginários do barro”, ministrada pelo artista, proporcionando uma vivência no universo da escultura em cerâmica. Na abertura da exposição, performances com os artistas Maru e Kayodê Andrade celebraram a potência da cultura ballroom. Os bailes, que surgiram nos anos 70 nos Estados Unidos como forma de resistência para a população LGBTQIA+, negra e latina, foram representados através de intervenções artísticas, desfiles e dança.
Maru, artista transmasculino não-binário, é modelo, atleta e multiartista/performer. Kayodê Andrade, também transmasculino, é modelo, ator, poeta, dublador e produtor cultural, reconhecido por sua atuação na comunidade LGBTQIAPN+. Kayodê é o fundador do Coletivo TransMaromba, focado na saúde mental e física de transmasculinos.
Caru Brandi destacou a importância de trazer artistas da ballroom para a exposição: “Penso na coletividade. Trazer os meninos da ballroom para a exposição foi muito importante, porque foi uma forma de colocar outras pessoas junto comigo neste espaço. São processos que eu vou vivendo dentro de uma comunidade trans, me baseio nas minhas vivências, mas elas não são individuais. Falam de coletividade”.
Visibilidade e desmistificação da existência trans
O artista enfatizou que seu trabalho busca desmistificar e dar visibilidade a vivências muitas vezes invisibilizadas. “Muita gente não sabe que pessoas como eu existem, que homens trans existem, que pessoas transmasculinas existem e em diversas formas. Não é de um único jeito que essa existência vai estar”, pontuou. A exposição serve como uma ação educacional, promovendo o conhecimento sobre a diversidade da comunidade trans.
O texto do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular define transmasculinidade como pessoas que, ao nascerem categorizadas como do gênero feminino, se reconhecem como pertencentes ao gênero masculino, sem necessariamente se identificarem com a categoria homem. A não-binaridade, por sua vez, refere-se ao não pertencimento ao binário de gênero homem ou mulher.
Um marco para a arte popular e a comunidade trans
A pesquisa e o texto do catálogo da exposição são de autoria do antropólogo Patrick Monteiro do Nascimento Silva. Ele ressaltou que a mostra “abraça dicotomias, no caso da arte”, ao retratar seres que desafiam as divisões estabelecidas entre o que é humano, natural, homem e mulher. Patrick considera a exposição um marco importante para a Sala do Artista Popular (SAP), que pela primeira vez apresenta o trabalho de uma pessoa trans em mostra individual. Ele mencionou o esforço do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em pensar sobre os patrimônios desse segmento da sociedade brasileira, com a criação do Grupo de Trabalho LGBTQIAPN+.
Rafael Barros, diretor do CNFCP, confirmou ser a primeira vez que a Sala do Artista Popular recebe um artista trans. Ele descreveu o trabalho de Caru Brandi como “singular” e “muito expressivo”, que transcende os limites da arte e da cultura popular. Segundo Barros, essa iniciativa tem aberto um novo horizonte para o espaço cultural, provocando reflexões sobre o que é arte popular hoje e o lugar do artista popular. “Em paralelo a isso, tem uma outra dimensão que é extremamente maravilhosa, que é a de compreender e entender o universo trans, o multiverso trans, os diversos universos que fazem parte das existências não-binárias, das existências queers como universos extremamente populares”, concluiu.


