Arroba em alta até setembro, mas futuro da carne bovina brasileira é promissor

A pecuária brasileira atravessa um período de ajustes, com a pressão sobre o preço da arroba de boi esperada para se estender até meados de setembro. No entanto, o cenário de médio e longo prazo para o setor permanece favorável, impulsionado por fundamentos sólidos e pela demanda internacional crescente. A redução temporária nas compras da China, principal parceiro comercial do Brasil, é o principal fator por trás da volatilidade atual, mas não deve abalar a confiança dos produtores.

Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Cepea/Esalq/USP e uma das maiores referências em economia da pecuária no país, avalia que o mercado vive uma fase de transição. Ele destaca que, apesar das incertezas conjunturais de curto prazo, a oferta restrita de animais terminados continua sendo um suporte importante para os preços. A expectativa é de uma recuperação robusta no último trimestre do ano, mesmo antes da reabertura da cota de importação chinesa para 2027.

O cenário internacional também contribui para a perspectiva positiva. A menor produção de carne bovina em outros grandes players globais, como Estados Unidos, Canadá e Austrália, abre novas oportunidades para o Brasil. Mercados emergentes e tradicionais demonstram um interesse crescente pela carne brasileira, o que reforça a posição do país como um dos principais exportadores mundiais. Conforme informações divulgadas pelo Cepea, essa dinâmica global favorece a carne brasileira.

China: o centro das atenções e a chave para a recuperação

A China, maior compradora de carne bovina brasileira, tem sido o foco das atenções nas últimas semanas. A redução do ritmo de compras, ligada à atual cota de importação, gerou incertezas sobre o destino de parte da produção nacional. Essa situação, segundo Thiago Bernardino, deve manter a pressão sobre a arroba entre julho e meados de setembro. Contudo, o pesquisador ressalta que a logística de exportação já começa a ditar a recuperação.

Para que a carne brasileira chegue aos portos chineses no início de janeiro de 2027, os embarques precisam ocorrer cerca de 60 dias antes, em novembro. Isso significa que a demanda por animais terminados deve aumentar já em setembro e outubro, antecipando os efeitos da nova cota. “Esse gado tem que ser abatido e comprado em outubro. Então, a gente já começa a ter um movimento lá por setembro, outubro, visando essa nova cota China para 2027”, explicou o pesquisador. Essa antecipação já se reflete no mercado futuro, com contratos indicando arroba acima de R$ 360 no final do ano.

Oferta restrita e fundamentos externos sustentam os preços

Além da dinâmica chinesa, a oferta limitada de animais prontos para o abate no Brasil é um fator crucial para a sustentação dos preços. Muitos pecuaristas optaram por reduzir o volume de animais confinados no primeiro giro em relação ao ano anterior. Essa restrição na oferta resulta em escalas de abate mais curtas para os frigoríficos, que trabalham atualmente com médias entre dois e três dias. Essa situação ajuda a manter a arroba em patamares mais elevados.

O mercado já demonstrou essa resiliência, com a arroba saindo de valores próximos a R$ 325 no início de julho para cerca de R$ 340 no fim do mês, reflexo direto da menor oferta de animais terminados. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a disponibilidade de gado tem sido um ponto de atenção constante para os frigoríficos, que buscam garantir o abastecimento diante da demanda.

Mercado global favorável ao Brasil e desafios na Europa

No cenário internacional, os fundamentos permanecem favoráveis ao Brasil. A menor produção bovina nos Estados Unidos, que registram o menor rebanho desde a década de 1960, e as reduções no Canadá e Austrália, ampliam as oportunidades para os exportadores brasileiros. Mercados como Egito, Malásia, Filipinas e Indonésia mostram um interesse crescente, enquanto Japão e Coreia do Sul negociam a abertura de seus mercados.

A União Europeia, apesar de representar uma parcela menor nas exportações, paga um valor significativamente superior pela carne brasileira. No entanto, uma restrição recente imposta pelo bloco, motivada por questões sanitárias relacionadas ao uso de antimicrobianos, pode afetar a rentabilidade. Segundo Thiago Bernardino, a Europa paga entre US$ 8 e US$ 10 por quilo, enquanto a China remunera em torno de US$ 6,50. Uma eventual manutenção dessa restrição europeia impactaria mais o faturamento do que o volume embarcado, conforme o Campo Grande NEWS checou em análises recentes do setor.

Gestão e tecnologia impulsionam a competitividade da pecuária

A competitividade da pecuária brasileira vai além da genética e da produtividade na fazenda. O pesquisador Thiago Bernardino enfatiza a importância da gestão em quatro pilares: produção, pessoas, gestão financeira e comercialização. O controle rigoroso de custos, o uso de informações para tomada de decisão e a capacitação da mão de obra são essenciais para o sucesso.

O avanço tecnológico e a intensificação da produção, com menor uso de área, tornam a gestão tão importante quanto a genética. Mato Grosso do Sul, por exemplo, é citado como um estado que tem elevado sua produtividade, disputando espaço com outras culturas agrícolas. Esse processo, conforme o Campo Grande NEWS checou, demonstra que a pecuária nacional está cada vez mais focada em eficiência e profissionalização, garantindo um futuro promissor para o setor.