O governo dos Estados Unidos classificou uma faixa de até 160 quilômetros da fronteira brasileira com o Paraguai e a Bolívia como área de risco máximo, recomendando que turistas “não viajem”. Em Mato Grosso do Sul, cidades como Corumbá e Ponta Porã foram incluídas nesse alerta de nível 4, o mais alto da escala, em regiões conhecidas pela atuação de organizações criminosas e rotas internacionais de tráfico de drogas. Diante dessa classificação, prefeitos das cidades afetadas apresentaram reações distintas, gerando debate sobre a percepção de segurança na região fronteiriça. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, as autoridades locais divergem sobre a justa medida do alerta emitido pelos norte-americanos.
Prefeitos reagem a alerta dos EUA sobre risco máximo em MS
A recomendação do governo americano de “não viajar” para áreas próximas à fronteira brasileira, que inclui municípios de Mato Grosso do Sul como Corumbá e Ponta Porã, gerou diferentes posicionamentos entre os prefeitos. Enquanto um considera o alerta um “exagero gritante”, o outro reconhece os desafios inerentes à segurança na região fronteiriça, mas defende uma visão mais equilibrada da realidade local. A divergência expõe a complexidade da segurança em zonas de divisa, onde a atuação do crime organizado se mistura com a vida cotidiana e o potencial turístico.
O alerta dos Estados Unidos não se limita apenas a uma recomendação geral, mas aponta para riscos específicos como a atuação de organizações criminosas, violência e sequestros. A medida impacta diretamente a imagem das cidades fronteiriças, que buscam atrair investimentos e turistas, mas se veem sob os holofotes de uma avaliação de segurança internacional rigorosa. A forma como cada município reage a essa classificação pode influenciar a percepção externa e as estratégias futuras de segurança e desenvolvimento.
O Campo Grande NEWS buscou ouvir os gestores municipais para entender suas perspectivas sobre a classificação de risco emitida pelos EUA e quais ações pretendem adotar. As respostas revelam diferentes abordagens para lidar com a questão, desde a minimização do impacto até o reconhecimento da necessidade de reforço nas estratégias de segurança. A análise desses posicionamentos é crucial para compreender o cenário de segurança em Mato Grosso do Sul e as respostas das autoridades locais.
Ponta Porã: “Exagero gritante” e normalidade
O prefeito de Ponta Porã, Eduardo Campos (PSDB), classificou a avaliação norte-americana como um “exagero gritante”. Em sua visão, o alerta não prejudica a imagem da cidade nem o turismo local, pois Ponta Porã é, em sua opinião, um local de “clima absolutamente tranquilo”. Ele minimizou o impacto da recomendação, afirmando que “esse clima que estão tentando vender não é uma realidade”. Campos declarou que a prefeitura não precisará tomar medidas concretas em relação ao alerta, pois a “vida segue, a gente vai continuar tocando a nossa vida aqui com normalidade”.
Corumbá: Reconhecimento dos desafios e transparência
Em Corumbá, o prefeito Gabriel Alves de Oliveira (PSB) adotou uma postura mais ponderada. Ele avalia que é necessário “reconhecer os desafios existentes na região de fronteira”, mas sem que a classificação se torne um retrato completo da cidade. “A fronteira, por sua própria característica, exige atenção permanente e não podemos ignorar a atuação de organizações criminosas e os crimes transnacionais que existem nessa região”, afirmou.
Gabriel destacou que Corumbá possui uma população que vive e trabalha normalmente, além de receber turistas. Para ele, o alerta pode afetar a percepção de potenciais visitantes, mas não deve ser interpretado como uma avaliação específica sobre a segurança do município. O prefeito defende a necessidade de “mostrar a realidade da cidade com transparência, sem esconder os desafios, mas também sem permitir que eles sejam generalizados”.
O prefeito de Corumbá também ressaltou que a segurança da fronteira é uma responsabilidade compartilhada. Ele citou a Operação Integrar – Fronteira Pantanal, realizada em março, que reuniu diversas forças de segurança estaduais, federais e municipais, como exemplo de trabalho conjunto. A estratégia, segundo ele, deve envolver integração, inteligência, presença ostensiva e ações permanentes de prevenção e repressão ao crime organizado.
Guerra entre facções e listas de “eliminados”
A disputa entre organizações criminosas pelo território sul-mato-grossense segue intensa, com episódios que vão além da área de fronteira. Investigações apontam para o envolvimento de integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) em conflitos violentos. O Campo Grande NEWS noticiou casos como o assassinato de um soldado da Polícia Militar em Corumbá, supostamente ligado a desacordos entre traficantes pelo controle de drogas. Em Maracaju, a execução de uma mulher também é investigada sob a ótica do embate entre PCC e CV.
Outro caso chocante ocorreu em Cassilândia, onde um homem e sua filha de três anos foram mortos, com a principal linha de investigação apontando para a guerra entre facções. Mencionou-se que o homem havia sobrevivido a um atentado anterior e seu nome teria sido incluído em uma lista atribuída ao CV. Em meio a esses assassinatos, listas com nomes e fotos de supostos membros do PCC, associadas a perfis de propaganda do CV, passaram a circular, ameaçando alvos e chamando os mortos de “eliminados”. A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) monitora as postagens e afirma que não representam ameaça relevante.
Detalhes do alerta e a exceção confusa
Na atualização de seus alertas de viagem para o Brasil, o governo dos Estados Unidos definiu o nível 4, o mais alto, para a faixa de até 160 quilômetros das fronteiras com Paraguai e Bolívia. A recomendação é clara: “não viajar”. Em Mato Grosso do Sul, municípios como Corumbá, Ladário, Ponta Porã, Bela Vista, Porto Murtinho e Mundo Novo estão incluídos nessa zona de atenção.
Uma peculiaridade do alerta é a exceção mencionada para o “Parque Nacional do Pantanal”, que fica no Mato Grosso. Essa ressalva pode gerar confusão, pois não significa que todo o Pantanal esteja fora da área de risco, nem altera a classificação de municípios sul-mato-grossenses como Corumbá e Ladário, que permanecem dentro da faixa de 160 quilômetros considerada de risco.

