Aeroportos de MS: Ritmos opostos antes de cortes massivos de voos

Crise Aérea Nacional: Mato Grosso do Sul em Cenário Desigual

A crise que assola a aviação brasileira, impulsionada pela alta do querosene de aviação (QAV), começa a dar seus primeiros sinais em Mato Grosso do Sul, mas o cenário é heterogêneo. Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) até março revelam trajetórias distintas entre os aeroportos do estado. Enquanto a capital, Campo Grande, registra queda no número de passageiros, cidades do interior apresentam dinâmicas variadas, com alguns aeroportos crescendo e outros encolhendo. A principal preocupação reside na forte dependência de poucas companhias aéreas, especialmente em municípios menores, o que agrava o risco de impactos severos com a redução de voos.

O levantamento, realizado pelo Campo Grande News, com base no Relatório de Demanda e Oferta da Anac, aponta para um quadro que ainda não reflete completamente o impacto dos cortes anunciados pelas empresas. Os dados disponíveis, que vão até março, antecedem a intensificação das reduções de oferta de voos esperada para os meses seguintes, conforme reportado pelo Valor Econômico. A disparada do preço do combustível, ligada à guerra no Oriente Médio, já levou as companhias aéreas a reverem suas malhas, cortando voos e priorizando rotas mais lucrativas no país.

No mercado nacional, a previsão de voos diários em maio caiu 4,3%, representando cerca de 14 mil assentos a menos por dia. Para Mato Grosso do Sul, essa estratégia de enxugamento de capacidade e aumento de tarifas representa um risco significativo para aeroportos de menor porte e com menor volume de passageiros, que se tornam mais vulneráveis a ajustes nas programações das companhias aéreas.

Campo Grande: Queda na Ocupação, Mas Oferta Estável

Na capital, o Aeroporto Internacional de Campo Grande apresentou uma queda de 9,8% no RPK (receita por passageiro por quilômetro voado) em março, comparado ao mesmo mês de 2025. Foram registradas 59,3 mil passageiros, com uma taxa de aproveitamento de 81%. Embora a oferta de assentos tenha se mantido praticamente inalterada, menos pessoas optaram por viajar, indicando uma perda de ocupação. A Latam apresentou crescimento de 3,1% em seu RPK, enquanto Gol e Azul sofreram quedas de 11,2% e 36,7%, respectivamente. No acumulado de 12 meses, o aeroporto registrou uma leve queda de 1,2% no RPK.

Interior em Ritmos Opostos: Bonito Cresce, Ponta Porã Encolhe

Em Ponta Porã, o cenário é de preocupação. O aeroporto registrou 1.009 passageiros em março, com uma taxa de aproveitamento de apenas 58,9%. O RPK caiu 27,3% em relação a março de 2025, e 21,8% no acumulado de 12 meses. Um fator de risco adicional é a concentração total da operação na Azul, o que torna a cidade extremamente dependente das decisões da companhia. Por outro lado, Bonito se destaca como uma exceção positiva, com um crescimento de 55,8% no RPK em março. Apesar do avanço anual, o aeroporto de Bonito apresentou uma leve queda na ocupação em março comparado a janeiro, mas a tendência geral é de alta.

Corumbá e Dourados: Oscilação e Avanço com Alerta de Concentração

Corumbá exibe um quadro irregular. Após um período sem movimento registrado em janeiro, o aeroporto fechou março com 1.736 passageiros e 75,1% de aproveitamento. Houve uma queda de 4,9% no RPK em março, mas um expressivo crescimento de 78,7% no acumulado de 12 meses, o que pode indicar uma retomada. Assim como Ponta Porã, Corumbá tem sua operação concentrada na Azul, gerando vulnerabilidade. Dourados, por sua vez, apresentou um avanço no número de passageiros e oferta entre janeiro e março, mas com uma leve queda na taxa de aproveitamento. A Latam detém 100% da participação de mercado no aeroporto de Dourados, um ponto de atenção.

Dependência de Companhias Aéreas: A Principal Fragilidade do Estado

O ponto central do levantamento, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, é a fragilidade do mercado aéreo de Mato Grosso do Sul em face da crise nacional. A dependência de uma única companhia aérea em cidades do interior expõe esses aeroportos a cortes drásticos de oferta. No cenário nacional, a Azul já anunciou cortes de 5% na oferta de assentos para maio e junho, enquanto a Latam reduziu em cerca de 3% a oferta prevista para junho e a Gol teria cortado aproximadamente 6% para maio e junho. Se esses cortes se intensificarem, os aeroportos com menor diversidade de operações serão os primeiros a sentir o impacto, conforme analisa o Campo Grande NEWS.

A cautela é a palavra de ordem. Embora a crise aérea nacional ainda não tenha derrubado o mercado de Mato Grosso do Sul de forma ampla, o estado apresenta vulnerabilidades claras, especialmente no interior. A situação reforça a importância de políticas que incentivem a diversificação de rotas e a concorrência entre as companhias aéreas para garantir a conectividade e a estabilidade do setor no estado. O portal Campo Grande NEWS continuará acompanhando de perto os desdobramentos dessa crise e seus impactos regionais.