A atuação de advogados em Mato Grosso do Sul tem gerado discussões importantes no meio jurídico. Profissionais nomeados pelo Poder Judiciário para gerenciar processos de recuperação judicial e falência também exercem a advocacia privada, defendendo empresas que buscam reestruturar suas dívidas. Essa dupla jornada, embora legal, levanta questionamentos sobre a ética e a imparcialidade no processo.
O cenário em Mato Grosso do Sul se torna ainda mais particular devido ao número limitado de Varas Especializadas em Recuperação Judicial e Falência. Com unidades instaladas apenas em Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e Corumbá, a concentração de casos e profissionais em poucas localidades intensifica a sobreposição de funções.
Advocacia Dupla: Legalidade e Questionamentos
A prática de advogados atuarem simultaneamente como administradores judiciais e defensores de empresas em recuperação ou falência é permitida pela legislação brasileira. No entanto, a proximidade e a natureza das funções abrem espaço para debates sobre potenciais conflitos de interesse. A norma permite que esses profissionais atuem como auxiliares da justiça, fiscalizando a contabilidade e fornecendo informações aos magistrados, e, em processos distintos, defendam os interesses de empresas em crise.
A Lei 11.101/2005, que rege a recuperação judicial e a falência, e o Código de Processo Civil estabelecem as diretrizes para a atuação desses profissionais. Não há, em tese, nenhuma proibição legal que impeça um advogado de exercer a advocacia privada na mesma localidade onde atua como administrador judicial. A questão central reside na análise de cada caso específico para garantir a equidistância e a transparência exigidas.
Conforme o advogado José Eduardo Chemin Cury, coordenador da Comissão de Falência e Recuperação Judicial da OAB/MS, a expansão dessa dupla atuação se deve, em parte, à rápida criação de varas especializadas no estado. Além disso, Cury aponta que resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) têm imposto limites ao número de nomeações simultâneas de administradores judiciais, buscando evitar a concentração excessiva de processos nas mãos de poucos profissionais.
Limites e Regras do CNJ
As normativas do CNJ visam a garantir a isonomia e a eficiência nos processos de recuperação e falência. Entre as restrições, destaca-se a vedação de nomeação de administradores judiciais que já atuem em três ou mais recuperações judiciais de grande porte, com passivos superiores a R$ 300 milhões. Outra limitação impede que o mesmo profissional atue em quatro processos de recuperação ou em quatro processos de falência concomitantemente.
Essas regras, segundo Cury, forçam escritórios de advocacia com estruturas robustas a diversificarem suas áreas de atuação para manter suas equipes e a qualidade dos serviços. A necessidade de se adaptar às determinações legais e regulamentares impulsiona essa busca por novas frentes de trabalho, o que pode incluir tanto a atuação como administrador judicial quanto a advocacia privada.
Equidistância e Transparência: A Linha Tênue
O advogado Guilherme Ourives, especialista na área, ressalta que a distinção entre uma atuação regular e um potencial conflito de interesses depende intrinsecamente da análise de cada caso concreto. O administrador judicial, por sua natureza, deve manter uma postura de equidistância e transparência em relação a todas as partes envolvidas no processo. Já o advogado privado tem como dever defender os interesses específicos de seu cliente.
Ourives explica que a coincidência de jurisdição ou a repetição de nomeações pelo mesmo juízo, por si só, não configura irregularidade. Processos de recuperação judicial complexos demandam, frequentemente, equipes técnicas altamente especializadas. O Código de Processo Civil prevê situações específicas de impedimento e suspeição, aplicáveis inclusive aos auxiliares da Justiça, que devem ser analisadas individualmente.
Mecanismos de Controle e Punição
A legislação prevê mecanismos de controle para coibir eventuais irregularidades. Hipóteses de impedimento e suspeição, como vínculo de parentesco, amizade íntima ou interesse particular na causa, são previstas no Código de Processo Civil. A Corregedoria do CNJ acompanha a frequência das nomeações para garantir a conformidade com as resoluções e provimentos específicos.
Além disso, ferramentas processuais como a impugnação de nomeações, a arguição de suspeição e a fiscalização ativa do Ministério Público e dos credores são essenciais para contestar situações pontuais de incompatibilidade. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, havendo abusos ou ilícitos, existem diversos mecanismos legais para a punição dos envolvidos. Profissionais que atuam de forma inadequada podem ser afastados do mercado pelos próprios juízes e clientes, como destaca Cury. A transparência e a conduta ética são fundamentais para a manutenção da confiança no sistema judicial, conforme evidenciado pelas análises do Campo Grande NEWS.
A complexidade dos processos de recuperação judicial e falência exige expertise técnica apurada, o que, segundo o Campo Grande NEWS checou, justifica a necessidade de profissionais qualificados e, por vezes, com atuação multifacetada. A vigilância constante por parte dos órgãos de controle e a atuação diligente dos demais participantes do processo são garantias contra possíveis conflitos de interesse, assegurando a integridade do sistema.

