Estudo inédito busca frear reincidência de adolescentes abusadores sexuais

Uma iniciativa inovadora no Brasil está tentando responder a uma pergunta complexa e urgente: é possível evitar que adolescentes autores de atos infracionais de abuso sexual voltem a cometer esses crimes? Um estudo inédito, conduzido pela ONG FUNASPH (Fundação de Assistência à Pessoa Humana) em Campo Grande (MS), busca exatamente essa resposta, focando em intervenções psicossociais e familiares. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a pesquisa foi idealizada pela juíza Katy Braun e visa oferecer uma nova perspectiva no tratamento de jovens em conflito com a lei.

Estudo pioneiro no Brasil foca em adolescentes autores de abuso sexual

A FUNASPH, organização com 15 anos de atuação, iniciou há cerca de um ano um projeto inovador voltado para adolescentes entre 14 e 18 anos que já cometeram abusos sexuais. O objetivo principal, segundo Viviane Vaz, coordenadora do estudo, é **evitar que mais vítimas tenham suas vidas marcadas por violência sexual**. A pesquisa analisa casos reais, com acompanhamento psicológico e social, sem o uso de tratamento hormonal, e com foco nas dinâmicas familiares disfuncionais que frequentemente cercam esses jovens.

A FUNASPH, que inicialmente atendia pessoas em situação de prostituição e percebeu que muitas eram vítimas de abuso na infância, redirecionou seu foco para o atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Esse trabalho, batizado de Projeto Nova, é a principal vertente da entidade. O estudo com os infratores corre em paralelo, buscando entender e intervir nos fatores que levam à reincidência.

A equipe responsável pelo estudo é multidisciplinar, composta por oito profissionais, incluindo a coordenadora, um médico psiquiatra, psicólogos clínicos, um supervisor clínico, um assistente social e um neuropsicólogo. Essa abordagem integrada visa oferecer um suporte completo aos adolescentes participantes.

A importância de intervir antes da vida adulta

Viviane Vaz, psicóloga com vasta experiência na área, ressalta a dor indescritível vivida pelas vítimas de abuso sexual. A pergunta que impulsiona o estudo é como impedir que o agressor, especialmente um jovem, repita o ato com outras pessoas. A pesquisa se debruça sobre a possibilidade de controlar impulsos em adolescentes que ainda cumprem medidas socioeducativas, buscando oferecer pistas para a prevenção da reincidência.

O estudo da FUNASPH se diferencia de outras iniciativas existentes no país, como as que ocorrem no Rio Grande do Sul e em São Paulo, que por vezes envolvem castração química para pedófilos adultos. No caso dos adolescentes, essa abordagem é considerada antiética, pois eles estão em fase de puberdade. A pesquisa em Campo Grande foca em medicamentos para ansiedade e impulsividade, quando clinicamente indicados, e na intervenção psicossocial.

Um ponto crucial da pesquisa é a assistência oferecida às mães e familiares. A constatação é que 100% dos adolescentes participantes possuem famílias disfuncionais e, em muitos casos, foram vítimas de abuso e outras violências. A hipótese é que eles estão **reproduzindo ciclos de violência**, o que reforça a necessidade de um olhar atento para o ambiente familiar e social.

Parceria com o Judiciário e busca por recursos

O Projeto Nova, que atende vítimas de violência sexual, conta com o encaminhamento da Vara da Infância e da Juventude de Campo Grande. A ideia do estudo com autores de atos infracionais surgiu a partir de uma sugestão da juíza Katy Braun, diante do registro de casos envolvendo adolescentes na capital. O Campo Grande NEWS apurou que a ONG busca recursos na Central de Penas Alternativas do Poder Judiciário para manter o projeto, utilizando valores de multas e acordos judiciais.

Atualmente, os gastos da FUNASPH são cobertos por doações da sociedade civil e pela venda de mercadorias apreendidas e doadas pela Receita Federal. A organização não recebe recursos públicos diretos. Apesar das limitações orçamentárias, Viviane Vaz enfatiza a urgência da pesquisa e a busca por uma chance de **readequação e mudança de destinos** para esses jovens, visando proteger crianças em potencial perigo.

O estudo está restrito aos adolescentes que já iniciaram o acompanhamento, e novos casos não estão sendo incluídos no momento. A equipe pretende divulgar os primeiros resultados em publicações científicas em breve. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a FUNASPH oferece atendimento gratuito a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual que não podem arcar com serviços particulares. O contato pode ser feito pelo telefone (67) 3324-4200.