Um ato na Avenida Paulista, em São Paulo, neste sábado (16), marcou os 20 anos dos chamados Crimes de Maio. A mobilização, promovida pelo Cordão da Mentira e pelo Movimento Mães de Maio, lembrou a série de ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) e a brutal retaliação policial que se seguiu, resultando em centenas de mortes, muitas com indícios de execução.
Ativismo e Memória na Paulista
Com música e batuque, o evento denunciou a impunidade dos Crimes de Maio e também se solidarizou com a causa palestina, marcando os 78 anos da Nakba, o deslocamento forçado de palestinos. O Cordão da Mentira, bloco carnavalesco que nasceu em 2012 para questionar violações de direitos, adaptou sua tradicional saída de 1º de abril para se unir a esta importante memória.
A Luta Contra o Esquecimento
“Nosso cortejo é denúncia, é memória viva, é grito coletivo contra o esquecimento e a injustiça. Porque lembrar é enfrentar e ocupar as ruas e romper com a mentira”, afirma o comunicado divulgado nas redes sociais sobre o ato. O Cordão da Mentira surgiu de rodas de samba onde sambistas percebiam a presença de pessoas ligadas à repressão.
Thiago Mendonça, diretor de cinema e coordenador do Cordão da Mentira, explicou a origem do bloco: “Ele começou numa roda de samba, quando vários sambistas começaram a perceber que várias pessoas que participaram da repressão participavam de seus espaços”. Desde o início, o Movimento Mães de Maio, fundado por mães de vítimas dos Crimes de Maio, participa ativamente.
“Elas são as madrinhas do Cordão e puxam o ato. Elas sempre estão à frente do Cordão. Para nós, esse é um dos movimentos de direitos humanos mais importantes do país”, ressaltou Mendonça, destacando a força e a relevância do movimento.
União de Causas e Denúncias
Este ano, a união com a luta palestina foi uma decisão estratégica. “Resolvemos unificar o ato pensando que a estrutura toda de repressão de Israel se reflete também nessa máquina de moer gente que é a polícia brasileira”, explicou Mendonça. A iniciativa busca conectar as lutas por justiça e contra a violência estatal em diferentes contextos.
Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio e mãe de Edson Rogério Silva, vítima dos Crimes de Maio, enfatizou a importância do Cordão da Mentira para a continuidade da luta. “O Cordão da Mentira é a alma do Movimento Mães de Maio. É através dele que a gente consegue ter combustível para seguir a luta o ano inteiro. O Cordão nos abraça. E ele escracha o que a gente vem denunciando. Ele também serve para a gente ter consciência de que a ditadura não acabou”, declarou.
Débora também ressaltou a conexão com a causa palestina: “Também estamos aqui pela causa palestina porque a bala que cai lá também cai aqui. A bala que mata lá também mata aqui, na nossa periferia”. Essa fala sublinha a percepção de que a violência do Estado, em suas diversas formas, atinge populações vulneráveis em diferentes partes do mundo.
Os Crimes de Maio: Um Massacre Urbano
Os Crimes de Maio de 2006 resultaram na morte de pelo menos 564 pessoas, conforme aponta o relatório “Análise dos Impactos dos Ataques do PCC em São Paulo em maio de 2006”, divulgado pelo Laboratório de Análises da Violência da UFRJ. Deste total, 505 eram civis e 59 agentes públicos. O documento aponta suspeitas de participação policial em pelo menos 122 execuções.
“Os Crimes de Maio são muito simbólicos, primeiro por causa do tamanho do crime. São mais de 500 jovens assassinados em duas semanas. Esse é um dos maiores massacres urbanos da história do país”, afirmou Mendonça. Ele também destacou a presença de mais de 60 mães de vítimas de violência de todo o Brasil no ato, reforçando a dimensão nacional da luta por justiça.
O ato teve início no Parque Trianon, em frente ao Masp, e seguiu em caminhada até o Al Janiah, um restaurante e centro cultural palestino no centro de São Paulo, unindo simbolicamente as diferentes frentes de luta presentes no evento. A mobilização reforça a importância da memória e da busca por justiça diante das violências do Estado.


