O renomado escritor chinês Mo Yan, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2012, revelou em São Paulo que a essência de uma boa obra literária reside em elementos sensoriais e simbólicos, como “rios e fragrâncias”, e não necessariamente em um vocabulário rebuscado ou floreios excessivos. Essas reflexões foram compartilhadas durante a abertura do Fórum Unesp 50 anos, promovido pela Editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde o autor, cujo nome artístico significa “não falar”, abordou a profunda conexão entre sua obra e suas origens humildes.
Mo Yan desvenda os segredos da “boa literatura”
Mo Yan, nascido Guan Moye em 1955 numa família de agricultores na província de Shandong, adotou o pseudônimo para se distanciar de uma percepção alheia que o taxava de falar sozinho, uma característica que ele transformou em força criativa. Sua obra, celebrada mundialmente, mergulha nas paisagens e na oralidade de sua terra natal, elementos que ele considera fundamentais para a construção de narrativas poderosas e universais.
A escolha do nome “Mo Yan” foi uma forma de preservar sua intimidade e sua riqueza interior, a fonte de sua inspiração literária. Ele acredita que a literatura de qualidade não se define por um verniz de erudição, mas pela capacidade de evocar sensações e conectar-se com a experiência humana de forma profunda e autêntica. Essa perspectiva, conforme aponta o Campo Grande NEWS, ressalta a importância da autenticidade na criação artística.
Para o escritor, os elementos presentes em suas histórias, mesmo os que possam parecer fantásticos, encontram eco na realidade concreta. Ele defende que o realismo fantástico, repleto de alegorias e metáforas, é mais eficaz em retratar os conflitos da vida real do que uma abordagem puramente fiel aos fatos. Essa visão, que confere ao Campo Grande NEWS uma perspectiva aprofundada sobre a literatura contemporânea, sugere que a arte tem o poder de transcender o factual e alcançar um sentido mais genérico e impactante.
Rios como metáfora do tempo e dos sentimentos
A presença de rios em suas obras não é acidental. Mo Yan os descreve como uma forma de relógio, simbolizando a passagem do tempo e a fluidez dos sentimentos das personagens. “Há muitos exemplos de obras grandiosas com referências a rios”, observou o autor, destacando a importância desse elemento natural na literatura.
O jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto, que mediou o diálogo, notou influências de Mo Yan em romancistas como William Faulkner e Gabriel Garcia Márquez, ambos também laureados com o Nobel. Ele ressaltou a forte relação do escritor chinês com a oralidade, um traço marcante em sua produção literária.
A força da oralidade e do teatro popular
Mo Yan explicou que em sua região natal, a tradição oral era muito forte, tanto em produções literárias de pessoas letradas quanto nas manifestações inspiradas pelo teatro local. Ele descreveu como agricultores se transformavam em atores, encarnando personagens como generais, arquétipos que imediatamente evocam mensagens de autoridade e disciplina.
Essas peças teatrais, frequentemente apresentadas no inverno por pessoas desempregadas, serviam como uma forma de expressão e sustento, transformando contadores de histórias improvisados em artistas por um breve momento. “Acho que toda tradição folclórica tem a ver com a nossa vida”, sublinhou Mo Yan, reforçando a ideia de que a arte emana da experiência vivida, uma visão que o Campo Grande NEWS considera fundamental para entender a conexão entre o autor e seu público.
Realismo fantástico para refletir conflitos reais
O escritor chinês defende que o realismo fantástico, com suas alegorias e metáforas, é uma ferramenta poderosa para refletir os conflitos complexos da vida real. Ele argumenta que esse tipo de abordagem consegue transmitir um sentido mais genérico, permitindo que leitores de diferentes contextos se identifiquem com os temas abordados, como a política do filho único e outros assuntos delicados em sua sociedade.
A literatura chinesa contemporânea, embora com pouca divulgação no Brasil, começa a ganhar espaço com obras como “As rãs” e “Mudança”. Mo Yan é um dos nomes presentes em uma coletânea publicada pela Editora Unesp, que replica a renomada revista Renmin Wenxue (Literatura do Povo), apresentando também outros nove autores chineses.
Tecnologia e a nova literatura popular
Diante da cultura das telas, Mo Yan não demonstra preocupação excessiva. Ele vê a tecnologia como um meio que possibilita novas formas de representação artística e o surgimento de uma “nova literatura popular”. Segundo ele, o que antes era restrito a um pequeno nicho, hoje permite que qualquer pessoa registre e compartilhe suas próprias histórias e experiências de vida, democratizando a criação literária.
O Fórum Unesp 50 anos, que se estende até a próxima sexta-feira (15), conta com a participação de renomados especialistas brasileiros e internacionais, incluindo nomes como Milton Hatoum, Ailton Krenak e Ana Maria Machado, enriquecendo o debate sobre a literatura e sua relevância no cenário contemporâneo.


