Carne bovina: Cota chinesa perto do limite pode derrubar preço no Brasil

O Brasil já atingiu metade da cota de exportação de carne bovina para a China, estabelecida em 1,106 milhão de toneladas para 2026. A notícia, divulgada inicialmente pelo Ministério do Comércio Chinês e repercutida pela Folha de S.Paulo, acende um alerta no setor pecuário brasileiro. Atingir o limite da cota significa que volumes excedentes enfrentarão uma **tarifa de 55%**, tornando a carne brasileira menos competitiva no gigante asiático.

Essa salvaguarda chinesa, um mecanismo para regular a entrada de produtos estrangeiros, impõe um teto e tarifas adicionais para volumes que ultrapassam o acordado. A preocupação é que, sem a ampliação da cota, o excedente precise ser escoado no mercado interno, pressionando os preços e gerando prejuízos para produtores e indústrias.

O presidente do Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul (Sincadems), Regis Luis Comarella, expressa apreensão. Ele estima que a cota será esgotada em junho, considerando o tempo de transporte até a China. “Devemos ter um problema sério se a China não liberar mais nada. Devemos tentar escoar essa produção no mercado interno e, com o mercado desacelerado, temos uma tendência de baixa na arroba do boi, trazendo prejuízos tanto para o produtor rural quanto para as indústrias”, afirmou Comarella.

Preço da arroba em risco de queda

A cotação da arroba do boi, que até sexta-feira (08) estava em R$ 346,50, segundo a Famasul (Federação da Agricultura de Mato Grosso do Sul), pode sofrer uma redução significativa no segundo semestre. A expectativa é que o mercado interno não consiga absorver o volume excedente sem que haja uma queda considerável no preço.

Aldo Barrigosse, especialista em comércio exterior, corrobora a visão. “Quando cumprir a cota, a carne vai ficar menos competitiva para acessar o mercado Chinês”, explicou. Ele ressalta que as entidades representativas buscam ativamente outros mercados, como a Europa e outros países asiáticos, para manter a competitividade da carne brasileira.

Contudo, se a busca por novos mercados não for suficiente para absorver o volume, a sobra recairá sobre o mercado doméstico. “Se isso acontecer, a tendência é que tenha um preço menor por arroba da carne bovina no segundo semestre no nosso País”, alertou Barrigosse, conforme checagem do Campo Grande NEWS.

Otimismo cauteloso do governo de MS

Apesar dos riscos, o titular da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Artur Falcette, adota um tom de otimismo cauteloso. “A medida é acompanhada com atenção, mas não há motivo para alarme neste momento”, declarou. Ele destaca a alta competitividade da cadeia da carne de Mato Grosso do Sul e sua capacidade de adaptação.

Falcette reconhece que a salvaguarda pode impactar volumes e margens de exportação para a China, mas enfatiza a experiência do setor brasileiro em lidar com flutuações comerciais. “O setor brasileiro já trabalha historicamente com diversificação de mercados e estratégias comerciais”, pontuou, segundo informações do Campo Grande NEWS.

O governo estadual, em conjunto com o setor produtivo e o Governo Federal, segue monitorando atentamente o cenário. A experiência em diversificação de mercados e estratégias comerciais é vista como um trunfo para mitigar os efeitos da salvaguarda chinesa.

Entenda a salvaguarda chinesa

A medida de salvaguarda foi imposta em dezembro do ano passado e tem validade de três anos, até 31 de dezembro de 2028. Para o Brasil, a cota inicial em 2026 é de 1,106 milhão de toneladas, com aumentos progressivos para 1,128 milhão em 2027 e 1,154 milhão em 2028. Outros grandes fornecedores, como Argentina, Uruguai, Nova Zelândia, Austrália e Estados Unidos, também foram incluídos no mecanismo, cada um com suas respectivas cotas.

A análise do Campo Grande NEWS indica que a rápida aproximação do limite da cota chinesa exige atenção e proatividade do setor. A busca por novos mercados e a negociação para ampliação da cota são cruciais para evitar quedas bruscas no preço da arroba e garantir a sustentabilidade da pecuária nacional frente às dinâmicas do comércio internacional.