Adoção de crianças e adolescentes em Campo Grande enfrenta desafios

A adoção de crianças e adolescentes em Campo Grande, assim como em todo o país, ainda esbarra em barreiras significativas. Fatores como a idade dos menores, condições de saúde e o receio por parte dos adultos pretendentes dificultam o encontro de um lar para muitos que aguardam nas instituições de acolhimento. A permanência prolongada em abrigos, segundo especialistas, pode ter impactos negativos no desenvolvimento neurológico infantil, tornando a celeridade do processo de adoção uma questão de extrema importância.

O Mês da Adoção, celebrado em maio, tem servido como um importante palco para o debate sobre os desafios e as nuances desse processo. A juíza da Infância, do Adolescente e do Idoso de Campo Grande, Katy Braun do Prado, ressaltou em entrevista ao podcast Na Íntegra, do Campo Grande NEWS, a complexidade de conectar famílias cadastradas com crianças e adolescentes que anseiam por um novo lar. A magistrada destacou que, em Campo Grande, há cerca de 200 crianças e adolescentes em unidades de acolhimento, sendo que 40 deles estão na fila para adoção.

Um dos pontos mais preocupantes levantados pela juíza é o impacto do tempo de permanência em abrigos. Katy Braun explica que cada ano que uma criança passa em acolhimento pode resultar na perda de quatro meses de desenvolvimento neurológico. Essa realidade é ainda mais acentuada para adolescentes e crianças com problemas de saúde, que tendem a esperar por mais tempo por uma família.

A urgência do desenvolvimento infantil

A juíza enfatiza que as crianças mais novas geralmente encontram pretendentes com mais facilidade e rapidamente deixam os abrigos. No entanto, a situação muda drasticamente quando se trata de adolescentes ou crianças com alguma condição de saúde que demande cuidados especiais. A demora na adoção, nesses casos, não apenas prolonga a estadia em ambiente institucional, mas também pode comprometer marcos importantes no desenvolvimento neurológico e social dos menores.

Katy Braun relata casos em que crianças apresentavam indicativos de transtornos, o que afastou potenciais adotantes. Contudo, após a adoção e o convívio familiar, esses quadros se dissiparam, evidenciando o poder transformador do afeto e do ambiente familiar no bem-estar e desenvolvimento dos jovens. Essa observação reforça a importância de desmistificar preconceitos e incentivar a adoção de crianças com necessidades específicas.

Desafios no cadastro e busca por famílias

O processo de adoção no Brasil funciona por meio de um cadastro nacional, similar a uma fila de transplantes. A Justiça, no entanto, busca primeiramente encontrar famílias na mesma cidade ou estado onde a criança reside. Caso não haja sucesso, a busca se estende para outras regiões do país e, em último caso, para o exterior. Essa priorização visa manter os laços da criança com seu contexto de origem, sempre que possível.

A magistrada também expressa preocupação com a estrutura e o pessoal dos abrigos em Campo Grande. A cidade conta com 14 unidades de acolhimento, sendo 10 conveniadas ao município e 4 da própria prefeitura. A juíza aponta a necessidade de melhorias em três dessas unidades, lamentando a alta rotatividade de funcionários, o que pode afetar a qualidade do atendimento e o vínculo com as crianças.

Como a sociedade pode ajudar na adoção

Para aqueles que desejam contribuir com a causa, existem diversas formas de apoio. O Projeto Padrinho, conduzido pelo Poder Judiciário, busca voluntários para auxiliar na rotina das crianças em abrigos. Esse auxílio pode ser material, como doações para consultas e estudos, ou através da participação em atividades culturais e passeios, proporcionando vivências familiares aos menores. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o telefone para contato com o Projeto Padrinho é o 3317.3512, e interessados também podem procurar atendimento no Fórum de Campo Grande.

Outra modalidade de acolhimento são as famílias acolhedoras. Estas famílias são preparadas para cuidar das crianças e recebem remuneração por isso. Em Campo Grande, contudo, há apenas 10 famílias acolhedoras cadastradas, quando o ideal, segundo estimativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), seria alcançar cerca de 50. Essa carência de famílias acolhedoras sobrecarrega o sistema e prolonga a permanência de crianças em abrigos.

O projeto ‘Dar a Luz’ e a voz das crianças

Durante a entrevista, Katy Braun também abordou o projeto ‘Dar a Luz’, que oferece suporte a gestantes que consideram entregar seus bebês para adoção. Ela revelou que, em cerca de metade dos casos, as mães desistem da decisão de entregar o bebê à medida que a gravidez avança. A juíza também destacou o esforço da Justiça em manter irmãos juntos em processos de adoção e ressaltou que a voz das crianças é determinante para a busca de soluções que garantam o melhor para elas.

A importância da conscientização e da participação social é reforçada pela caminhada pela adoção, que será promovida pelo TJMS no dia 24, a partir das 8h, com saída do Bioparque Pantanal. O evento visa mobilizar a população em torno do tema e promover um debate mais amplo sobre a adoção em Campo Grande. O percurso planejado é de aproximadamente 2,7 quilômetros, incentivando a reflexão e o engajamento da comunidade. A iniciativa, conforme divulgado pelo Campo Grande NEWS, busca dar visibilidade às crianças e adolescentes que aguardam por uma família e às famílias que desejam adotar.